sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Com os olhos secos

com os olhos secos
- estrelas de brilho inevitável
através do corpo através do espírito
sobre os corpos inênimes dos mortos
sobre a solidão das vontades inertes
nós voltamos

nós estamos regressando áfrica
e todo o mundo estará presente
no super-batuque festivo
sob as sombras do maiombe
no carnaval grandioso
pelo bailundo pela lunda

com os olhos secos
contra este medo da nossa áfrica
que herdámos dos massacres e mentiras

nós voltamos áfrica
estrelas de brilho irresistível
com a palavra escrita nos olhos secos
- liberdade

Agostinho Neto

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Eu ouvi!

vibrada no espaço de noite mui linda
ferindo minha alma com maga inflexão
cadente eu ouvia de um anjo da terra
do imo do peito mui terna canção!


dizia saudade – em acento magoado,
sonoro-mavioso, inspirado por deus –
tão maga harmonia só era emanada
do coro dos anjos – dos anjos dos céus!


casava co’as horas tardiasda noite,
de noite tão bela, de almo luar –
a voz merencória que atento escutava
lembrando continua meu triste penar.


que doce sofrer infiltrou em minha alma
os sons desferidos por virgem mimosa;
dizia o meu fado sem ela o sentir,
lembrava-me a vida passada e saudosa!


ouvi, como ouviram no monte Sinai
os magos mandados à voz do senhor,
humilde e curvado o meu agro porvir –
dos lábios da virgem, nos cantos de amor!


e triste e pungido por este escutar
que tanto extasiou-me, porque era saudoso –
a passos mais lentos, que a dor que sofri –
deixei, apartei-me do canto harmonioso!


Maia Ferreira





segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Luta com fantasmas

como tu, ó poeta, eu me pergunto
nesta hora de tortura,
porquê “sans amour et sans haine
mon coeur a tant de peine?”

afasta-te, ó sombra de verlaine…

lá fora brilha o sol e eu quero cantá-lo a toda a altura…
num recanto da vida chora uma criança
e eu quero embalá-la nos meus braços…
nos cais a humanidade apodrece viva
e eu quero amá-la de todo o meu coração…

“mon coeur a tant de peine”…
afasta-te, ó sombra de verlaine!

Lilia da Fonseca

domingo, 24 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Dikolombolo diàdilé

dikolombolo diàdilé
kuàkié…
kuáki kiá
kuma kuáki kiá!

nasceu o sol
a nossa palhota está a arder
a palhota da nossa adolescência

kuáki!

nasceu o sol
já somos mulher
a nossa palhota está a arder
o céu nascente está vermelho
vermelho os caminhos para as sanzalas

nasceu o sol
já somos mulher
nos altos da romarias
melodias do alvorecer

kuáki!

nasceu o sol
o sil viril
violentando a terra-mulher
a terra-mulher nossa irmã
com as carnes sensuais
empapadas de desejos
manhã inaudita
os frutos sazonados
aguardam mãos robustas
para a colheita

kuáki!

nasceu o sol
em aleluia que perdura
e se prolonga nos caminhos
percorridos sem descanso

kuáki!

Nasceu o sol
O sol
O sol

não há fronteiras na distância
nas nossas bocas a ânsia
da nova idade
e nos corpos as angústias da fercundidade

Samuel de Sousa

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Luuanda

Mu’xi ietu iá Luuanda mubita imã ikuata sonhi…*
(de um conto popular)
In Luuanda – Luandino Vieira

o vento de luandino
deu berrida nas nuvens
e as folhas secas
todas da mulembeira
rodopiaram diásporas
pelo chão do musseque...


o vento assobiou acordando
a insustentável leveza do algodão
que trouxe a prata líquida
a cantar bagos de chuva
sobre o quotidiano pobre e sujo
das areias e vielas do musseque.
a água do céu e a lama da terra
conjugaram o vazio de políticas
amassando a pobreza esquálida
que se gruda aos olhos de quem passa:
homens, mulheres e crianças
são como seus casebres feitos de lama,
lama suja, lama triste do musseque
e a chuva-prata a cantar nos zincos
ghetto ghetto ghetto... denunciando
e a chuva gota após gota
cai sem lavar esta distância
sem purgar esta doença social
e a chuva gota após gota
cai raivosa sobre os zincos velhos
ghetto ghetto ghetto... chovendo
e a chuva passando com pressa
tem vergonha de chover aqui
cantando no seu gotejar:
ghetto gota ghetto gota ghetto!


Namibiano Ferreira



*Nesta nossa cidade de Luanda, passam coisas de envergonhar


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O ritmo do tantã

o ritmo do tantã não o tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã no coração
no coração
no coração
o ritmo do tantã não tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã sobretudo
mais do que pensa
mais do que pensa
penso África, sinto África, digo áfrica
odeio em África
amo em África
estou em África
eu também sou África
tenho o ritmo do tantã sobretudo
no que pensa
no que pensa
penso África, sinto África, digo África
e emudeço
dentro de ti, para ti África
dentro de ti, para ti África
á fri ca
á fri ca
á fr ica

António Jacinto

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Viagem ao Sul

esta beleza agonizante do cuanhama
espraiando-se até à linha do horizonte
como um tapete estafado
que se desfaz sob os nossos pés
fala-me de guerras passadas e de reinos
já dos homens olvidados…

morrem como a terra as tradições
numa infinita tristeza
numa apática indiferença
que magoa como uma lembrança triste.

secam as cacimbas, as talas, o capim
só não secam as lágrimas.
Só não morre em mim esta pungente
faculdade de sofrer junto com a terra.

é por isso que eu gosto de cá vir
e é por isso que me custa vir aqui
e ver alvejar a carcassa daquele boi
que morreu o ano passado!

e os paus caídos nos eumbos poeirentos
e os gongueiros sem folhas nem frutos
secos, secos como os braços dos mutiátis…

é por isso que me custa vir aqui!
sofro e compreendo
o cuanhama que busca em vão a esperança
que o sol inclemente lhe arrancou
da terra que lentamente se recusa
aos nossos passos.

Neves e Sousa

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O jogo

que jogo este
o de saber nos pés
só a espuma
de imensas madrugadas

que jogo este
o de chorar os destroços
de um navio/que chegou a navegar
ou as casas de uma gaivota
aprodrecida/que voou

sem me chorar

que jogo este
o de esperar
um rebentar da onda
sem me estender
sem me estender pelos seus túneis.

Manuel Rui

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Canção para Guevara

sobre a cordilheira dos andes
ainda hoje ribomba a tua voz de trovão.
e desde o alaska até à patagónia
em certas noites de bulício e tropel
teu inconfundível vulto desce aos povoados
a dar alento aos desesperados
e ao povo uma lição de tenacidade.
por toda a parte queriam teus braços
cavar alicerces de pátrias futuras
e se morreste na selva boliviana
teu coração para sempre pulsa
em cada campo de luta
nos arrozais do vietnam ou nos pântanos da guiné
para sempre vivo ao lado de cada valente
capaz de lutar e morrer pela liberdade.
escambray e sierra maestra
cantavam alto em teu sangue
por isso as balas assassinas
só disseminaram aos quatro ventos
a tua ordem de combate

porque eras um monumento de fraternidade
e tua pátria, o mundo inteiro.

Jofre Rocha

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A teus pés

incenso-me de amargura
e do aroma acre dos meus cantos
e sou a trágica criatura
que a teus pés depõe a vida
e intérminas solidões...

(espero a tua mão comovida
e um riso de amor e canções...)

para além da colina cinzenta
fica a história que renego:
estradas, mares e ventos.
e os cansaços nevoentos
do meu bordão fraco e cego.

toma-me! sou um vinho antigo...
desfolha-me! sou uma flor bravia...
destrói-me! sou lento castigo
em lenta agonia...

Amélia Veiga

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Regresso à infância

volto à infância: aos tambarinos
ácidos como os frutos
proibidos, aos cajus
polpudos,
às mangas vermelhas como o sol

aos filmes do zorro
no são domingos, à quitaba
e ao bombo assado,
enchendo de felicidade o
estômago

ao espadachim de mentira,
com improvisados floretes retirados
às construções, à
caçambula, atreza
- NINGUÉM! NINGÚEM! –
à besta quadrada ou redonda

à prima mostrando
as calcinhas floridas, ao espanto
de vê-las
sem saber ainda
o que só com os anos aprenderia:
calcinha de mulher é
pra tirar

e ao primeiro amor: a peco,
que quase
desmaiou, ali
mesmo,
na escola 142, bairro popular
luanda,
angola

pronto – 17 anos depois
de ter descoberto a poesia,
aí está o meu primeiro poema
à infância perdida

(devo estar a ficar velho)

João Melo

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

No céu azul distante

no céu azul distante
a grande roda vermelha
em tempo
que inda não é tempo
de dança
o pescador
de seu dongo de sombra
lança redes
perdendo-se em quadriculado
por
a grande roda vermelha
no céu de azul distante
em tempo
que inda não é tempo
de dança

Arlindo Barbeitos

domingo, 3 de outubro de 2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Inscrição

o inchaço do coração
facilita o despalavrear.
a liberdade pode advir
de uma veia.
com sangue também
se reescreve a vida.
o suicidado foi um apressado
para desconhecimentos.
a morte
ela é que opera por nós.
na vida pedincho
reindagação de cheirares;
em continuado aquestionamento.
a despalavreação
pode acrescer de uma vida.

Ondjaki