sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Balada da flor de espuma

descalça vai pro mercado
don'ana pelas barrocas
vai formosa e vai segura...

com quatro notas de cem,
em alegre sinecura
leva na boca o refrém
duma canção de ternura.
vai formosa, e tão segura
don'ana pelas barrocas...

don'ana foi ao mercado,
foi ao mercado do prenda
com quatro notas de cem
e com uma fome tremenda!
com seu passinho estugado,
descalça pelas barrocas,
foi de quitanda em quitanda
don'ana pelo mercado,
depressa, como quem anda
a cogitar no almoço.
pelo mercado do prenda,
foi num alegre alvoroço
com quatro notas de cem
florindo-lhe a mão pequena.

mas de quitanda em quitanda,
saltando daqui para além
- com que surpresa, coitada!
com quatro notas de cem
don'ana não comprou nada!

cada vez mais lentamente,
foi de quitanda em quitanda
olhando p'ra toda a gente.
e as quatro notas de cem,
quatro pétalas de espuma
como uma coisa indecente,
como flor de frustração,
foram murchando uma a uma,,,

descalça pelas barrocas,
don'ana voltou p'ra casa
devagar, como quem chora.
e as quatro notas de cem
que don'ana deitou fora
com o desgosto de as ter,
cantam ainda o refrém
numa vozinha cansada:
"mal-me-quer
bem-me-quer,
muito-pouco, ou nada..."

Henrique Abranches

1 comentário:

Universo Fesanico disse...

Muito raramente choro ao ler poemas. tão apenas quando contam estes a minha vida, ou a vida de outro que em algum tempo também é minha.