quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Nos novos tempos

o sol se abre o sol se rasga sobre nossas cabeças
os novos tempos
nosso no clima

missangas de posse
(cerejam)
rios
as conversas
voz dos ossos

as palavras maduras
sangue tremulando

no monte das montanhas
nos tala-mungongo dos pungo andongo
no cume
da
alegria
os tempos renovados

Jorge Macedo

domingo, 26 de setembro de 2010

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Balada da flor de espuma

descalça vai pro mercado
don'ana pelas barrocas
vai formosa e vai segura...

com quatro notas de cem,
em alegre sinecura
leva na boca o refrém
duma canção de ternura.
vai formosa, e tão segura
don'ana pelas barrocas...

don'ana foi ao mercado,
foi ao mercado do prenda
com quatro notas de cem
e com uma fome tremenda!
com seu passinho estugado,
descalça pelas barrocas,
foi de quitanda em quitanda
don'ana pelo mercado,
depressa, como quem anda
a cogitar no almoço.
pelo mercado do prenda,
foi num alegre alvoroço
com quatro notas de cem
florindo-lhe a mão pequena.

mas de quitanda em quitanda,
saltando daqui para além
- com que surpresa, coitada!
com quatro notas de cem
don'ana não comprou nada!

cada vez mais lentamente,
foi de quitanda em quitanda
olhando p'ra toda a gente.
e as quatro notas de cem,
quatro pétalas de espuma
como uma coisa indecente,
como flor de frustração,
foram murchando uma a uma,,,

descalça pelas barrocas,
don'ana voltou p'ra casa
devagar, como quem chora.
e as quatro notas de cem
que don'ana deitou fora
com o desgosto de as ter,
cantam ainda o refrém
numa vozinha cansada:
"mal-me-quer
bem-me-quer,
muito-pouco, ou nada..."

Henrique Abranches

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Despertar

acorda
erguido como o sol sobre as montanhas...

estende os braços
à vida que te chama,
e canta!...

vai!...
e de cabelo ao  vento,
constrói a vida pela raíz da dor no fogo das entranhas.

vai!...
e que os olhos
e os lábios
vejam e saibam
do fragor da luta...

filho da terra que te deu o ser,
corre no implulso da enchente
tropical
dum sangue quente,
e em tempestades de amor
troveja e geme
na alegria de lutar
e de viver!

sereno como o rio
que volta ao leito,
dá-te para os outros
- seu irmão -
irmãos que sejam como tu:

dos pés à boca
homens
que não neguem
a sua condição...


há lobos
dispersos no caminho...

e vai,
a fronte juvenil
erguida
engrinaldada ao sol,
a vida
confiante no punho
dessas mãos viris...

irmãos, vinde!...
o sol ergue-se nas montanhas.
a vida não se fecha,
a todas faz florir...
a vida tem de ser aberta -
sejamos nós o fruto e a oferta
da árvore do porvir...

Alexandre Dáskalos

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Escravos

Os homens acharam-se de peito ao relento,
sem terra,
em caminho,
homens sozinhos
acorrentados no terreiro
com os caminhos incógnitos do universo
traçados nos rostos atônitos,
homens de peito ao relento,
quissanges dispersos
nas insônias do mar.

Manuel dos Santos Lima

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A gravação do rosto

Na superfície branca do deserto
na atmosfera ocre das distâncias
no verde breve da chuva de Novembro
deixei gravado meu rosto
minha mão
minha vontade e meu esperma;
prendi aos montes os gestos da entrega
cumpri as trajetórias do encontro
gravei nas águas a fúria da conquista
da devolução do amor.

Os calcários e os granitos desta terra
foram por mim pesados.
Dei-lhes afagos
leves olhares
insônias longas
impacientes esperas.

O zinco dos telhados cobriu-me solidões
e esperanças que tu sabes.

Esperei por ti
Bordei-te flores nos canteiros do céu
abri-te valas, semeei-te milhos
pari colheitas de searas vãs
abri os dedos, semeei calhaus.

Espremi a terra e fiz-lhe água nascente
povoei prados de criaturas doces
ergui torres, girassóis gigantes
dei vida e morte, vi nascer, morrer.

Aqui reinei, julguei, plantei videiras
caminhos, grutas de vestígios
colhi olhares de animais bravios
deixei aos dedos aladas liberdades.

Empilhei madrugadas de atenção
disparei molas, carabinas frias
de traição ao vento.
Combati silêncios, instalei trincheiras
de perdão. Recebi recados de mongólias vastas
acendi fogueiras
para sufocar o medo.

Aqui sonhei europas, verdes ásias
cidades de cristais, antártidas caiadas
daqui refiz a lua de astronautas;
contei estrelas colhi algumas
para dormir com elas.

Aqui ejaculei delírios verdes
que a madrugada insinua e vence.
Aqui colhi primícias de virgens escandinavas
e coroei outeiros e o meu sexo
com as suas tranças de ouro.

Saltei de monte em monte
e naveguei o ventre do deserto
assinalei o umbigo do mundo e plantei setas
apontando o sexo fundo da terra.
Beijei a carne universal e úmida de uma fêmea em cio,
menstruada.

Aqui me dei, aqui me fiz
desfiz, refiz amores.
Aqui me embebedei e vomitei o espanto.

Daqui abalo hoje, parido para o nada
apalpo a água
afago um bicho
ordeno qualquer coisa
e vou.


Ruy Duarte de Carvalho

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Momento com mulata

busquei nos teus olhos um refúgio
e puz tuzekueto numa pausa
que teus cílios fizeram ao pousar

minhas encruzilhadas junto teus pés
na disakela da tarde escureceram
condenssando meu destino sem perdão

porém tu eras longe
na mão do tempo
redemoinho desfrisado sonho rente
alucinada de néon
tu eras longe

enquanto
adejavas insolúvel nessa rua
sob a nódoa de caju da tua origem
no devaneio que te perde
e te renasce

Arnaldo Santos

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Não vale a pena…

não vale a pena
chamar por mim!...
eu perdi-me na tarde
em que o rufar dos tambores
foi substituído pelo som
da metralha…
e o ruído dos tanques
esmagando os milheirais
abafou o meu grito
envenenado de espanto
e humilhação!...

não vale a pena
chamar por mim!...
eu fiquei aberto
às aragens salgadas
de um oceano de raiva
a balançar nas lianas
da sobrevivência!...

não vale a pena
chamar por mim!...

Jorge Arrimar

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Dançarina negra

despida do esplendor
dos sete véus.



como a rainha bela do sabá



entre o subir das chamas
para os céus,



vibra contigo a alma das fogueiras!



canta contigo
a voz do baobá,
dançam contigo
as folhas das palmeiras!
como a rainha bela
do sabá
vestida no esplendor
dos sete véus!...



Maria Joana Couto

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A noite já não conta missossos

a noite
já não me conta missossos
com que dantes me encantava
nem propõe jinongonongos
à minha adivinhação.



o vento
não é a voz dos cazumbis.



a chuva
não é o pranto dos deuses mortos
trovejando na sanzala.



a lua
não é o feitiço branco
para além do milongo do quimbanda.



agora os homens constroem
com artifício a noite, o vento, a chuva, a lua,
edificando o mundo
sobre os destroços
do espírito dos meninos.



a noite
- a velha avó negra -
já não conta missossos nem propõe jinongonongos
aos monandengues deste mundo.



Geraldo Bessa Victor