quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Mulata

graça feita de candura e de malícia,
sabedoria da carne,
animal vitorioso e generoso,
vértice de experiências convergentes.
equador de duas civilizações,
tu, bela, tu, fecunda, tu, menina,
primeira e magnífica descoberta,
filha da história,
(filha do pecado?)
és zombeteira e triste.
ponto,
pêndulo,
suspensão,
carne retalhada
por centrífugas forças que te chamam,
cedo ou tarde nascida?
cedo ainda?
resíduo apenas?
simbólica dança escultural da paz,
ou virgem imolada no altar do fogo?
caminhas e meus olhos perdem-se
mais que nas linhas frementes do teu corpo,
na luz obliquada dos teus olhos pávidos.
esplêndida encarnação do amor sem margens.
tu, bela, tu, menina,
mulata,
interrogação da época.



Antero Abreu

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