segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Vejo teus dedos queimar

Em cavernas de lilás e mar
jaz a minha alma a mendigar,
a bailar
reflexos, cemitério, luar...
Num altar
vejo teus dedos queimar
rosas,
ecos, sombras sedosas
de mim,
por mim,
em noites de sândalo criadas,
em noites de bronze destroçadas...

Tomaz Kim

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Terceiro poema colorido

ó poente vermelho
como a boca do forno
que se aquece
para cozer o pão!

ó poente húmido
de sangue roxo!
coalhado nos painéis das florestas
das cidades

e dos caminhos
destes dias de hoje!

ó poente de angústia amarela!
quando?
quando darás a madrugada prometida
com serpentinas de arco-íris?

que meus olhos estejam vivos
para os abrir como duas portas
de um porão de negreiros.

Tomaz Jorge

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

É inútil chorar

é inútil mesmo chorar
“se chorarmos aceitamos, é preciso não aceitar”
por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
o importante neles é já sentir a vontade
de lutar por ela.
por isso é inútil chorar.

ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo…

mas o que importa é não chorar.
“se chorarmos aceitamos, é preciso não aceitar”
mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor também ilumina.

que cada um de nós
lance a lenha que tiver,
mas que não chore
embora tenha frio.
“se chorarmos aceitamos, é preciso não aceitar”.

António Cardoso

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Entre os lagos

esperei-te do nascer ao pôr do sol
e não vinhas, amado.
mudaram de cor as tranças do meu cabelo
e não vinhas, amado.
limpei a casa, o cercado
fui enchendo de milho o silo maior do terreiro
balancei ao vento a cabaça da manteiga
e não vinhas, amado.
chamei os bois pelo nome
todos me responderam, amado.
só tua voz se perdeu, amado,
para lá da curva do rio
depois da montanha sagrada
entre os lagos.

Paula Tavares

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A bola

a bola, esta bola que o mundo não viu
quando descansava nas malhas
nas malhas descansava a bola, esta bola
que o mundo não viu beijar as malhas

o mundo somente viu nos seus olhos telas de alegria
e nos degraus do campo cresciam duas alegrias
eram tão imensas que enchiam as bocas do mundo
mas ninguém vomitou as duas alegrias
e nos degraus da rua cresciam duas alegrias.

Contudo a elegia desfilava no rosto de alguns.

João Maimona

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Mulata

graça feita de candura e de malícia,
sabedoria da carne,
animal vitorioso e generoso,
vértice de experiências convergentes.
equador de duas civilizações,
tu, bela, tu, fecunda, tu, menina,
primeira e magnífica descoberta,
filha da história,
(filha do pecado?)
és zombeteira e triste.
ponto,
pêndulo,
suspensão,
carne retalhada
por centrífugas forças que te chamam,
cedo ou tarde nascida?
cedo ainda?
resíduo apenas?
simbólica dança escultural da paz,
ou virgem imolada no altar do fogo?
caminhas e meus olhos perdem-se
mais que nas linhas frementes do teu corpo,
na luz obliquada dos teus olhos pávidos.
esplêndida encarnação do amor sem margens.
tu, bela, tu, menina,
mulata,
interrogação da época.



Antero Abreu

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Canção

no contrato do café
o negro vai… aiué! aiué…

deixa sua lavra e sua ukãyi…
leva onbirikiti. leva ongueva…
aiué! aiué! aiué!

o chimbinete ueia
e carrega o negro que vai no café…
aiué! aiué! aiué!

“meu epya não chora!
não chora meu ukãyi!
quando negro dikatiuka
chicalé! chicalé!

Amélia Veiga

sábado, 14 de agosto de 2010


Com a morte de Ruy Duarte de Carvalho, no passado dia 12, Angola perde uma das suas maiores referências culturais.

"Um homem vem ardendo na sua segurança e depois semeia estrelas por aí.
Traz mãos pendentes onde o sangue aflui e punhos brancos de ostensiva fé. Mal suporta a claridade de um primeiro olhar. Ocorre-lhe de súbito o peso dos testículos, a densidade líquida das mãos, uma urgência antiga de projectar-se erecto. Um homem traz consigo um rosto opaco que a surpresa urdiu, o véu esculpido da certeza oculta, preserva no sorriso a segurança nata e oferece, no olhar, uma estação de cereal maduro.
.
Um homem chega e assume a personagem. Ilustra-se de faces, decompõe a fé, possui-se de um vigor insuspeitado, desvenda as claridades do seu peito, produz formosas coisas com seus dedos, põe-se a reordenar os horizontes, atinge mortalmente as formas com o olhar, progride nas tarefas da conquista e chama a si as referências do lugar. Da plataforma adopta a dimensão bastante ao seu critério de sentir-se livre, roda em si mesmo, elege as coordenadas e cumpre a sistemática invenção dos rumos.
.
Um homem vem fundir geografias, polarizar as formas da manhã deserta, vem fecundar as latitudes nuas e violar segredos de falésias. Um homem vem, destrói a derradeira protecção da lenda, transita triunfante a bruma do silêncio, afaga, da idade, o corpo descuidado, revolve-se na febre, despoja-se de si e oferece o peito.
.
Um homem está a possuir-se de silêncio. Assume a quietude e embebe-se da forma. O céu, o sol, as pedras. Acumula-se em luz, em vento, areias, água e sombra. Um homem não é maisque a sua idade rematada aqui na dimensão da estepe, na explosão das águas, na secura dos troncos, na poeira dos ventos, na dolorosa persistência das ramas, na rasgada frigidez da noite, no escoante sobressalto dos sons, na líquida maré das estações exíguas. Um homem não é mais do que a sua austeridade de minério, a sua resistência euforbiácea, a sua ambiguidade de animal.
.
Um homem não é mais do que este volume em que progride, esta fatal grandeza em que se inscreve, esta ausência de idade em que transita, esta força de deus a que se entrega. A chuva é o seu gesto, a sua voz a voz da tempestade, e é já sua também a sombra da montanha, a forma do granito, o peso deste sol, a força deste vento. E o crime desta ausência, a maldição gratuita deste pó, a crueza incisiva desta luz, este temor passivo da extinção.
.
E se de novo aponta a face às faces e se projecta inteiro contra os seus, é escasso o vulto que transporta firme para conter o clima que lhe vive oculto. Semeará os gestos de um poder secreto, projectará as sombras que anunciam vento, afirmará cadências que reservam pasmo, deduzirá carícias que provocam medo, aspergirá sorrisos de indizível dor. Um homem ferve lumes de estações e espalha o medo à volta quando invade o espaço das fogueiras mansas.
.
Um homem vertical em seu desgosto, perdido no seu eco, um homem que alterou conjugações de estrelas, é uma noção de espaço conquistado e em espaço se transmuda renovado.
Afunda-se porém na projecção do tempo e o seu viver assume a maldição do crime. Quando se expande, no eco dos seus actos, é para exceder barreiras de memória; quando em marés o seu amor se verte é para romper as margens da entrega; quando o seu canto atinge o tom da glória é para vergar o viço das searas; quando o seu vulto ansioso se anuncia é para ofuscar o brilho da alegria.
.
Um homem pára então para descobrir
que até o pranto lhe confere o crime
e a culpa que o investe sobrenada o tempo.

.
Decide então morrer
que a sua força aqui não se contém."

Ruy Duarte de Carvalho, in A decisão da idade, 1976

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Poema para todos

para quê chorar
porque esperarmos
que outros venham consolar?

para quê querer uma ilusão
para apagar uma mentira?

o choro cansou o mundo
e a nós mesmos já causa tédio
e quando julgamos que o riso é choro
ele é riso simplesmente
porque já nem sabemos lamentar

mas olha à tua volta
abre bem os olhos
- vês?

aí está o mundo
construamos.

Agostinho Neto

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Meu amor da Rua Onze

tantas juras nos trocámos,
tantas promessas fizemos,
tantos beijos nos roubamos
tantos abraços nos demos.

meu amor da rua onze,
meu amor da rua onze,
já não quero
mais mentir.

meu amor da rua onze,
meu amor da rua onze,
já não quero mais fingir.

era tão grande e tão belo
nosso romance de amor
que ainda sinto o calor
das juras que nos trocámos.

era tão bela, tão doce
nossa maneira de amar
que ainda pairam no ar
as promessas que fizemos,

nossa maneira de amar
era tão doida, tão louca
qu'inda me queimam a boca
os beijos que nos roubamos.

tanta loucura e doidice
tinha o nosso amor desfeito
que ainda sinto no peito
os abraços que nos demos.

e agora
tudo acabou.
terminou
nosso romance.

quando te vejo passar
com o teu andar
senhoril,
sinto nascer

e crescer
uma saudade infinita
do teu corpo gentil
de escultura
cor de bronze,
meu amor da rua onze.

Aires de Almeida Santos

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Tambor

tambor, vale bater-lhe
com a força das mãos, da voz
gasta na boca atirada por dentro
do grito

tambor, com os dentes
o nome da vida é
fala a rasgar-se contra
as paredes da pele: negra

tambor, nocturno interno nome
nas áreas baleadas do silêncio
quando os músculos se quebram na curva
dos ombros:
tambor, vale bater-lhe com a cara

David Mestre

domingo, 8 de agosto de 2010

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Era no tempo dos tamarindos

era no tempo dos tamarindos

meu pai sempre acordava p'la manhã
e ia cantando pró quintal
enquanto fazia a barba
debaixo do caramanchão
da buganvília cor-de-violeta.

era no tempo dos tamarindos.

zenza niala vinha entrando na cancela
à cabeça a quinda carregadinha de fruta
sempre cumprimentava minha mãe:
- "sápere, dona!"
minha mãe respondia:
- "olá"
ela aganchava no chão
destapava a quinda
e por sob as folhas frescas de mamoeiro
mostrava papaias e pitangas saborosas.

às vezes trazia fruta-pinha e sápe-sápe.

era sempre o mesmo dialogo.
minha mãe. "chingamin?"
zenga niala do chão sorria
mostrava os dentes de marfim
e respondia:
- "meia-cinco, sinhóra!"

era no tempo dos tamarindos.

e havia "bigodes" e " bicos de lacre"
cantando nas acácias do quintal.

depois zenza niala ia embora,
as ancas baloiçando
a quinda na cabeça.

era no tempo dos tamarindos em flor.

Ernesto Lara Filho

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Welwitchia Mirabilis

como esquecidos esqueletos
dormindo...
na poeira de oiro desbotado
pedras brancas
alvejadas na triste secura do chão.

formas estranhas de gravetos
cheios de quebras e espinhos
negrejam de quando em vez
neste chão viúvo de caminhos.

crucificada
numa encruzilhada que não existe
a forma triste e estatelada
duma welwitchia sem cor
marca o lugar do encontro
do nada com o esquecimento.

o céu cor de cinza, carregado
de destino
olha para o quadro deserto
fechado...
a coisa não merece céu aberto...
com ar desconsolado
de quem já não vale a pena.

estou ali também sentado
sou o toque de humano e pungente
naquela paisagem do deserto.

Neves e Sousa

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Motivo

juntei na mão
os meus poemas
e lancei-os ao deserto
para que as areias
se transformem em protesto.
sejam catanas armas ou punhais
sejam protesto.
sobre a terra prometida
o mundo:
e uma arma tão forte que construa
os alicerces desta sede insaciável de criar
independência.
II
poesia
será depois a revolução
em seu entendimento permanente.

além da substância
nem o azul
poderá mover
outras lembranças.

lançados no caminho
iremos segredando à continuidade
desde os contos de ninar
aquilo que nos é amor e causa.

Costa Andrade

domingo, 1 de agosto de 2010

A poetisa e líder revolucionária angolana, Deolinda Rodrigues de Almeida, trocou correspondência com Martin Luther King, nos finais dos anos 50.
O Jornal de Angola publica uma carta, agora descoberta, do reverendo para a angolana, então jovem estudante no Brasil.