quarta-feira, 14 de julho de 2010

Os mortos perguntam

nos rumos perdidos dos ventos trocados,
todos os rumos,
nos fumos das piras dos mortos cremados,
todos os fumos,
de todas as piras...
nas iras dos mares
que beberam sangue
todas as iras...
na ânsia enlutada de todos os lares
vazios de esperança
todas as ânsias
de todos os lares...
nos sexos sangrentos das virgens violadas
os farrapos
a sangrar
de todos os sonhos que homens sonharam
e homens violaram...
em todas as dores dos vivos da terra
todas as dores dos mortos da guerra...
e os rumos perdidos
e os corpos ardidos,
e as iras inúteis,
e as ânsias caladas,
e os sonhos, sujos como vidas de virgens violadas,
e todas as dores
de todos os mortos que a guerra matou,
e todos os lutos
de todos os vivos
que a guerra enlutou,
perguntam,
perguntam,
perguntam
a todos os ventos
a todos os mares
às roupas de luto de todos os lares,
se valeu a pena...
... os mortos perguntam...
mas os ventos trocam-se,
o mar não serena,
as viúvas continuam a chorar,
e os mortos não param de perguntar
se valeu a pena...
... mas a esperança é longa
e bela de agarrar no fundo dos martírios...
os mortos perguntam,
os mortos protestam...
... irmãos, os braços são magros,
mas longos,
longos da ânsia de querer...
...a pergunta é grande e a força é pequena,
mas só nós podemos, irmãos, responder,
se valeu a pena...

António Neto

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