domingo, 18 de julho de 2010

Basil Davidson, o jornalista que quis libertar África

Sérgio C. Andrade (in jornal “O Público, 17.07.2010)



Jornalista britânico foi também agente secreto, herói da Segunda Guerra Mundial e o europeu que deu voz às lutas dos povos africanos contra o colonialismo, sobretudo o português


Há homens assim, a quem calha bem a expressão bigger than life. Basil Davidson, que morreu no dia 9 de Julho, em Londres, aos 95 anos, foi um deles. Jornalista, escritor, historiador da África pré-colonial e militante da sua libertação, este britânico alto e com modos de gentleman foi principalmente um homem de acção e de causas.
Naquilo que a Portugal mais diz respeito, Basil Davidson foi o grande activista europeu das lutas pela independência da Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola e Moçambique, países que visitou repetidas vezes, tendo privado com os seus líderes, de Amílcar Cabral a Agostinho Neto, de Mário de Andrade a Eduardo Mondlane, de lúcio Lara a Samora Machel.
“É surpreendente como as colónias portuguesas, com um sistema educativo e de formação tão fraco e pobre, produziram dirigentes tão notáveis, mesmo insubstituíveis”, disse Davidson numa entrevista ao jornalista português José Pedro Castanheira, no início de 2001, um ano antes do então Presidente da República, Jorge Sampaio, o ter condecorado em Londres com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique por “serviços prestados a Portugal e à expansão dos valores da cultura portuguesa”.
No obituário que dedicou a Davidson, o jornal The Guardian refere, curiosamente, a “ironia” histórica de ele ter sido distinguido pelo país contra quem se tinha rebelado enquanto militante anticolonialista. Já o Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires – que também condecorou Davidson, em 2003, com a Ordem Amílcar Cabral – emitiu um comunicado em que homenageia “o proeminente combatente pela liberdade” que ajudou a “transmitir ao mundo a justeza da luta dos povos africanos pela sua emancipação e independência”.
Um homem de acção
José Pedro Castanheira recorda assim o encontro de há uma década, quando Basil Davidson, já velho e doente, vivia a reforma na sua casa em Somerset, no sudoeste de Inglaterra: “Era um homem surpreendente, um verdadeiro militante de causas, às quais se dedicara de forma determinada, a primeira das quais foi o jornalismo". Nessa conversa, Davidson evocou as relações que tivera com os dirigentes das ex-colónias portuguesas, dispensando uma atenção muito especial a Amílcar Cabral, que considerava o principal líder africano, mesmo mais relevante do que Nelson Mandela, que só conhecera antes da prisão. Ao líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Davidson dedicou, aliás, o livro Os Africanos.Uma introdução à sua História Cultural (Edições 70, 1981).
Dos 30 livros, incluindo novelas, que o jornalista-activista dedicou à “causa africana”, marcados por”uma prosa e um estilo elegante”, muitas vezes misturando realidade e ficção, escreve o The Guardian, os mais vezes citados são Mãe Negra. África: os anos de provação (Sá da costa, 1975), Os Africanos. Uma introdução à sua História Cultural, The Search for África e o último, West África Before the Colonial Era: A history to 1850.
José Pedro Castanheira estabelece um paralelismo entre Davidson e o polaco Ryszard Kapuscinski (1932-2007), também um jornalista com o nome na galeria dos grandes repórteres mundiais. “Davidson era menos repórter e mais um estudioso e historiador”, explica o jornalista do Expresso.
Isabel Castro Henriques, professora da Faculdade de Letras e especialista em temas africanos, vê nos livros de Davidson não tanto trabalhos de historiador mas “um instrumento para o seu activismo político” e para a defesa do pan-africanismo. Não pondo em causa a qualidade da escrita e a inteligência de observação do “jornalista militante”, esta investigadora considera esses livros “historicamente datados”, mas sem dúvida importantes para o conhecimento da época e dos movimentos políticos que, na Europa e no Mundo, defenderam as lutas contra o colonialismo.
Nas décadas 50 e 60, principalmente após a libertação do Gana, primeiro país africano a conquistar a independência, perante a Inglaterra, Basil Davidson envolve-se directamente na luta contra o colonialismo e contra o apartheid em instituições como o Comité para a Libertação de Angola, Moçambique e Guiné (CLAMG) e a Union of Democratic Control.
Também Dalila Cabrita Mateus e Eduardo Costa Dias, investigadores do ISCTE e especialistas nas lutas africanas pela independência, vêem em Davidson principalmente um homem de acção e de intervenção política. “Era um jornalista-publicista”, chama-lhe Costa Dias, manifestando, contudo, “grande simpatia” pelo seu trabalho na denúncia da guerra colonial. Dalila Mateus realça ter sido “um dos pioneiros a debruçar-se sobre as condições da luta dos povos africanos contra as potências coloniais, e em particular sobre o colonialismo português”. Os livros que escreveu são, por isso, avançam os dois historiadores, “testemunhos de uma época” que os investigadores actuais não podem põe de parte.
Agente secreto
Mas a atenção de Davidson a África corresponde apenas a cerca de metade da sua vida activa. Curiosamente, o seu contacto com o continente negro aconteceu de forma “acidental” quando, em plena Segunda Guerra Mundial, depois de alistado como voluntário no exército britânico, foi enviado para o Cairo – com passagem por Lisboa -, integrando os serviços secretos do seu país. Antes desta viagem, Davidson tinha já combatido o nazismo na Hungria até ser detido, e depois libertado, numa troca de prisioneiros entre Inglaterra e Itália. No regresso ao palco da guerra, encarrega-se da resistência na Jugoslávia, onde irá conhecer e combater ao lado de Tito (tema do seu primeiro livro, Partisan Picture, 1946).
Mesmo que nunca tenha manifestado apreço pelo comunismo, e que tenha sido distinguido com a Cruz de Guerra por serviços prestados, a ligação ao futuro líder da então Jugoslávia vai criar-lhe a imagem de “perigoso fellow traveller”, o que viria a levar o governo britânico a vetar a sua participação em projectos da Organização das Nações Unidas para a Educação, ciência e Cultura (UNESCO).
Basil Davidson decide então regressar ao jornalismo que tinha sido a sua vocação primeira desde que, aos 16 anos, abandonou o liceu de Bristol, onde nasceu, para ir “aprender a nadar” em Londres, como contou a Castanheira. No início dos anos 30 fez o tirocínio no The Economist e no Star (já desaparecido). Terminada a guerra, é enviado pelo The Times como correspondente para Paris, e colabora também com o Daily Herald, o Daily Mirror e o News Statesman. É o princípio do resto da vida deste aventureiro, que sempre se considerou “um homem de sorte”. “Na vida, e especialmente no jornalismo, tem de se ter sorte, muita sorte”, disse ao Expresso. Davidson teve sorte e teve África. “Foi uma paixão que acabou por se apoderar de mim para o resto da minha vida”.
Foi a África dele.

2 comentários:

Rui Moio disse...

Nota
Li alguns dos livros de Basil Davidson, nomeadamente os relacionados com a História de África. Apreciei e aprecio este autor que me deu uma panorâmica cultural nova sobre a cultura africana e a História de África. Por isto, admiro-o e tenho-o em muita consideração.

Uma outra coisa é este homem ter-se colocado ao lado dos líderes dos movimentos africanos anti-portugueses; Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane e Samora Machel. Visitou os guerrilheiros dos movimentos pró-soviéticos em campanha e promoveu-os na imprensa britânica e mundial. Foi inimigo de Protugal, da Portugalidade, da Nação Portuguesa. Por isto, não o tenho como meu amigo ou amigo da Nação Portuguesa no seu todo pluriracial e pluricontinental.

É profundamente lamentável que em 2002, o então Presidente da República do Portugal, Jorge Sampaio, o tenha condecorado em Londres com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique por “serviços prestados a Portugal ”.

Ironia do destino e profunda vergonha nacional que este homem, David Davidson, tenha sido condecorado com uma medalha que leva o nome do Infante D. Henrique e que a razão da condecoração tenha sido por "serviços prestados a Portugal e à expansão dos valores da cultura portuguesa". Uma medalha de grande prestígio, que noutros tempos, honrou gente de grande valor e de coragem dentro da esfera da portugalidade!

Não foi precisamente o contrário que ele fez? Onde chegaste, meu povo, minha Nação? Tanta mentira!...
Rui Moio

Unknown disse...

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