sexta-feira, 23 de julho de 2010

Bandeira

somos um povo à parte
desprezado
incompreendido
um povo que lutou e foi vencido.

por isso em meu canto de fé,
clamo e proponho, negro,
que a nossa bandeira
seja um pano negro,
negro da cor da noite sem luar...

sobre essa escuridão de luto e de pesar,
da cor da nossa cor,
escreve, irmão,
com a tua mão rude e vacilante
- mas forte
a palavra-força:

                         união!

traça depois, teimosamente
estas palavras basilares,
edificantes:

                  trabalho, instrução, educação. 

e com letras de ouro,
esplêndidas,
(a mão, mais firme já)
escreve, negro,

                          civilização, progresso, riqueza.

em caracteres róseos
esboça comovido
a palavra-chave da vida:

                                    amor!

com letras brancas
desenha com amor
a palavra sublime:

                                      paz!

a seguir
a vermelho-vivo
a vermelho-sangue,
com tinta feita de negros corpos desfeitos,
em lutas que vamos travar,
a vermelho-vivo,
cor do nosso sangue amassado
e misturado com lágrimas de sangue,
lágrimas por escravos choradas,
escreve, negro, firme e confiante,
com letras todas maiúsculas,
a palavra suprema
(ideal eterno,
nobre ideal
da humanidade atribulada,
que por ela vem lutando
e por ela vem sofrendo)
escreve, negro,
escreve, irmão,
a palavra suprema:

                              LIBERDADE

à volta dessas palavras-alavancas
semeia estrelas às mãos cheias
todas rútilas
todas de primeira grandeza,
estrelas belas da nossa esperança
estrelas lindas da nossa fé
estrelas que serão certeza na nossa BANDEIRA.

Maurício de Almeida Gomes

             

2 comentários:

soninha disse...

A poesia é belíssima mas não considero o negro como um povo à parte,desprezado e oprimido.Este tempo hove sim,agora o negro se impõe pela inteligência,moral e todos os valores que o caracterizam tanto quanto aos outros povos.bjs

kinaxixi disse...

E o poema é desse tempo, dos anos 50 do século XX, em pleno regime colonial.
beijos