sexta-feira, 30 de julho de 2010

Linha quatro

no largo da mutamba às seis e meia
carros pra cima carros pra baixo
gente subindo gente descendo
esperarei.



de olhar perdido naquela esquina
onde ao cair da noite a manhã nasce
quando tu surges
esperarei.



irei prá bicha da linha quatro
atrás de ti. (nem o teu nome!)atrás de ti sem te falar
só a querer-te.



(gente operária na nossa frente
rosto cansado. gente operária
braços caídos sonhos nos olhos.



na linha quatro eles se encontram
zito e domingas. todos os dias
na linha quatro eles se encontram.



no maximbombo da linha quatro
se sentam juntos. as mãos nas mãos
transmitem sonhos que não dizem.)



no maximbombo da linha quatro
conto meus sonhos sem te falar.
guardo palavras teço silêncios
que mais nos unem.



guardo fracassos que não conheces
zito também. olhos de cinza
como domingas
o que me ofereces!



no maximbombo da linha quatro
sigo a teu lado. também na vida.
também na vida subo a calçada
também na vida!



não levo sonhos:a vida é esta!
não levo sonhos. tu a meu lado
sigo contigo: pra quê falar-te?
pra quê sonhar?



no maximbombo da linha quatro
não vamos sós. tu e domingas.
gente que sofre gente que vive
não vamos sós.



não vamos sós. Nem eu nem zito
também na vida. gente que vive
sonhos calados sonhos contidos
não vamos sós.



Mário António

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A uma criança

as longas mãos, cobertas de silêncios
e de esperas
acariciam agora, outras mãos,
mais pequenas e mais belas…
e desse contacto tão distante,
que ainda é saudade,
e é já promessa,
nasce a íntima certeza
de que o sangue do meu corpo
corre para o teu,
como uma herança…



estão presas as minhas mãos,
às tuas mãos, criança!
e sobre a ponte frágil
dos nossos dedos confundidos
como cadeias de hera,
se ergue dia a dia
a esperança desta dor
e desta espera…



Alda Lara

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Carta de um amigo

penso em ti amigo
o pensamento desta noite
inda que te saiba na cidade
vivendo a vida fácil

inda que teu pensamento não contenha
a tropical imagem do teu rosto
do luar sobre o morro da maianga
do som dorido marchando nos carreiros.

(tu nunca viste amigo a sombra fugitiva
da kuba correndo pela mata
ou sob a sombra amiga da mkamba
florindo a planta verde do café).

Henrique Guerra

sábado, 24 de julho de 2010

 príncipe Nicolau do Congo

(…)
O príncipe Nicolau (1830?-1860) era um parente mais novo do príncipe Aleixo, possivelmente seu sobrinho, e era filho do rei Henrique II do Congo, que governou entre 1842 e 1857. Nicolau, tal como Aleixo, era um assimilado com alguma instrução portuguesa. Tinha sido educado em Lisboa e em Luanda a expensas do governo português durante os anos de 1845 a 1850. Destinado à vida eclesiástica, Nicolau optou antes por entrar ao serviço da administração colonial portuguesa em Luanda, onde foi sucessivamente promovido e onde encontrou vários estrangeiros que se mostraram obviamente interessados na sua pessoa. O príncipe Nicolau é uma figura importante na história de Angola, pois foi provavelmente o primeiro africano com algum estatuto a recorrer a técnicas ocidentais para exprimir sentimentos nacionalistas. Não tardou a sentir-se insatisfeito com a sua posição na sociedade europeia, mas não podia regressar à sua terra natal, uma vez que já se tinha ocidentalizado e também porque, segundo as regras congolesas, não era elegível para a sucessão do reino, visto ser filho e não sobrinho do rei. No entanto, Nicolau aspirava a uma posição mais alta na vida.
Uma série de acontecimentos fatídicos no período de 1857-59 valeram ao príncipe Nicolau alguma notoriedade entre as autoridades portuguesas, mas também uma certa fama entre os africanos e os agentes estrangeiros em Angola. O seu pai, o rei Henrique II, morreu em 1857, o que deu início a uma violenta luta pela sucessão em São Salvador (Mbanza-Congo). Os portugueses decidiram apoiar o príncipe africano que consideravam ser o legítimo herdeiro ao trono, Dom Pedro, Marquês de Catende, aparentemente sobrinho da falecida irmã mais velha do rei. Em 1859 Dom Pedro foi coroado, na presença de missionários portugueses, Dom Pedro V do Congo. Unidades do exército português apoiaram a sua candidatura e colocaram-no no trono, expulsando o exército de um rival africano, Álvaro Kiambu Ndongo. De Luanda, o príncipe Nicolau protestou contra a coroação de Dom Pedro, não instigando a rebelião armada, como tradicionalmente se fazia em África, mas sim escrevendo cartas de protesto ao rei de Portugal, ao imperador do Brasil e para a opinião pública portuguesa em carta publicada num jornal diário de Lisboa, o Jornal do Comércio, a 1 de Dezembro de 1859. A publicação da carta de protesto acabaria por levar à sua morte. Escrita em português idiomático, a carta apresentava uma argumentação vigorosa a favor dos direitos do Reino do Congo e das qualificações de Nicolau, em virtude do seu grau de instrução, para a liderança do Congo. Afirmava que Portugal não tinha o direito de declarar o Reino do Congo ou o rei Dom Pedro V como seus “vassalos” à luz do tratado de coroação de 1859: o estado e o rei eram um “velho aliado” e um “amigo e fiel aliado”, respectivamente, tal como era declarado em anteriores tratados entre Portugal e o Congo. O rei e os seus cortesãos tinham assinado o documento da coroação, que pressupunha a sua condição de vassalos, por ignorância da língua portuguesa e por uma interpretação errónea da frase principal do documento. Nicolau chamou a si o título de príncipe de um Reino do Congo livre para salvaguardar os interesses dos africanos que não tinham instrução portuguesa. A parte mais interessante e porventura mais importante da sua carta de protesto de 1859 era a sua afirmação de que o Marquês de Catende, seu primo direito, tinha sido enganado por Portugal ao assinar o documento e que isto era “uma infracção da independência nacional, aliás reconhecida pela história e pelo próprio governo de sua Majestade fiel e por todos os seus representantes nesta Província”.
O governador-geral de Angola soube do protesto de Nicolau de Nicolau em Fevereiro de 1860 e tentou transferi-lo para um emprego na administração colonial em Ambriz, a norte de Luanda, para a remota cidade de Moçâmedes (Namibe), no sul. Os cônsules brasileiro e britânico envolveram-se no caso, tendo ajudado Nicolau a preparar a sua fuga de Angola com destino ao Brasil, para prosseguir os estudos. O facto de ter planeado pagar a sua viagem a futuros estudos no Brasil mediante a venda de vários escravos de família a comerciantes europeus na região de Ambriz diz bem do carácter ambíguo do seu plano nacionalista e do seu protesto. Estaria o cônsul brasileiro a planear fazer uma aliança com o Reino do Congo? Terá alguém ajudado Nicolau a escrever a sua famosa carta de protesto, publicada em Lisboa? As respostas a estas perguntas continuam a ser algo misteriosas, mesmo para os historiadores angolanos. A história de Nicolau terminou de um modo trágico, pois, ao tentar embarcar num navio britânico em Quissembo, a norte de Ambriz, foi morto por um ajuntamento de africanos que o consideravam um farsante pró-europeu, um traidor ocidentalizado à independência tradicional dos africanos a norte de Luanda.
(…)

Foto e texto in “História de Angola”, de Douglas Wheeler e René Pélissier, Tinta da China edições

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Bandeira

somos um povo à parte
desprezado
incompreendido
um povo que lutou e foi vencido.

por isso em meu canto de fé,
clamo e proponho, negro,
que a nossa bandeira
seja um pano negro,
negro da cor da noite sem luar...

sobre essa escuridão de luto e de pesar,
da cor da nossa cor,
escreve, irmão,
com a tua mão rude e vacilante
- mas forte
a palavra-força:

                         união!

traça depois, teimosamente
estas palavras basilares,
edificantes:

                  trabalho, instrução, educação. 

e com letras de ouro,
esplêndidas,
(a mão, mais firme já)
escreve, negro,

                          civilização, progresso, riqueza.

em caracteres róseos
esboça comovido
a palavra-chave da vida:

                                    amor!

com letras brancas
desenha com amor
a palavra sublime:

                                      paz!

a seguir
a vermelho-vivo
a vermelho-sangue,
com tinta feita de negros corpos desfeitos,
em lutas que vamos travar,
a vermelho-vivo,
cor do nosso sangue amassado
e misturado com lágrimas de sangue,
lágrimas por escravos choradas,
escreve, negro, firme e confiante,
com letras todas maiúsculas,
a palavra suprema
(ideal eterno,
nobre ideal
da humanidade atribulada,
que por ela vem lutando
e por ela vem sofrendo)
escreve, negro,
escreve, irmão,
a palavra suprema:

                              LIBERDADE

à volta dessas palavras-alavancas
semeia estrelas às mãos cheias
todas rútilas
todas de primeira grandeza,
estrelas belas da nossa esperança
estrelas lindas da nossa fé
estrelas que serão certeza na nossa BANDEIRA.

Maurício de Almeida Gomes

             

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Em África, o tempo

em áfrica, o tempo,
inda cheira e ressoa
àquele momento
inicial e singular
como se fosse
o abrir da primeira
página do Génesis
logo imediatamente
e depois
da primeira queimada.


em áfrica, o tempo,
é como vento,
não se mede, não se conta.
o tempo, vive-se
no riso, gorjeio
de cada dia
dádiva de chuva
caindo mansa
fartura de lavras
massangos
poemas e cantigas.

Namibiano Ferreira

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Kicóla!

nesta pequena cidade,
vi uma certa donzella
que muito tinha de bella,
de fada, huri e deidade –



a quem disse:- “minha q’rida,
peço um beijo por favor;
bem sabes, oh meu amor,~
q’eu por ti daria a vida!”



- nquâmi-âmi, ngua – iame
“não quero caro senhor”
disse sem mudar de cor;
- macûto, quangandall’ami.
“não creio no seu amor”.
eu querendo-a convencer,
- muámôno!? – “querem ver!?”
exclamou a minha flor,
- “o que t’assombra donzella
n’esta minha confissão?”
tornei com muita paixão.



olhando sério pr’ella –
- “não é dado” – continuei –
“o que se sente dizer?!...
sem ti não posso viver;
só contigo f’liz serei.”
- kiri ki amonequê,
“ninguém a verdade falla”
ósso a kua-macuto – âla!
“toda a gente falsa é!”
emé, ngana, nguixicána,
“aceitar não sou capaz”
o maca mé ma dilage,
“ a sua falla que engana!”
- oh! q’rida não há motivo
para descreres de todos;
cada qual tem seus modos,
eu a enganar não vivo
- eie ngana úarimûca,
“o senhor é muito esperto”
queria dizer, decerto;
uzuêla câlá úa cûca!



“falla como homem d’edade!



Cordeiro da Matta

domingo, 18 de julho de 2010

Basil Davidson, o jornalista que quis libertar África

Sérgio C. Andrade (in jornal “O Público, 17.07.2010)



Jornalista britânico foi também agente secreto, herói da Segunda Guerra Mundial e o europeu que deu voz às lutas dos povos africanos contra o colonialismo, sobretudo o português


Há homens assim, a quem calha bem a expressão bigger than life. Basil Davidson, que morreu no dia 9 de Julho, em Londres, aos 95 anos, foi um deles. Jornalista, escritor, historiador da África pré-colonial e militante da sua libertação, este britânico alto e com modos de gentleman foi principalmente um homem de acção e de causas.
Naquilo que a Portugal mais diz respeito, Basil Davidson foi o grande activista europeu das lutas pela independência da Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola e Moçambique, países que visitou repetidas vezes, tendo privado com os seus líderes, de Amílcar Cabral a Agostinho Neto, de Mário de Andrade a Eduardo Mondlane, de lúcio Lara a Samora Machel.
“É surpreendente como as colónias portuguesas, com um sistema educativo e de formação tão fraco e pobre, produziram dirigentes tão notáveis, mesmo insubstituíveis”, disse Davidson numa entrevista ao jornalista português José Pedro Castanheira, no início de 2001, um ano antes do então Presidente da República, Jorge Sampaio, o ter condecorado em Londres com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique por “serviços prestados a Portugal e à expansão dos valores da cultura portuguesa”.
No obituário que dedicou a Davidson, o jornal The Guardian refere, curiosamente, a “ironia” histórica de ele ter sido distinguido pelo país contra quem se tinha rebelado enquanto militante anticolonialista. Já o Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires – que também condecorou Davidson, em 2003, com a Ordem Amílcar Cabral – emitiu um comunicado em que homenageia “o proeminente combatente pela liberdade” que ajudou a “transmitir ao mundo a justeza da luta dos povos africanos pela sua emancipação e independência”.
Um homem de acção
José Pedro Castanheira recorda assim o encontro de há uma década, quando Basil Davidson, já velho e doente, vivia a reforma na sua casa em Somerset, no sudoeste de Inglaterra: “Era um homem surpreendente, um verdadeiro militante de causas, às quais se dedicara de forma determinada, a primeira das quais foi o jornalismo". Nessa conversa, Davidson evocou as relações que tivera com os dirigentes das ex-colónias portuguesas, dispensando uma atenção muito especial a Amílcar Cabral, que considerava o principal líder africano, mesmo mais relevante do que Nelson Mandela, que só conhecera antes da prisão. Ao líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Davidson dedicou, aliás, o livro Os Africanos.Uma introdução à sua História Cultural (Edições 70, 1981).
Dos 30 livros, incluindo novelas, que o jornalista-activista dedicou à “causa africana”, marcados por”uma prosa e um estilo elegante”, muitas vezes misturando realidade e ficção, escreve o The Guardian, os mais vezes citados são Mãe Negra. África: os anos de provação (Sá da costa, 1975), Os Africanos. Uma introdução à sua História Cultural, The Search for África e o último, West África Before the Colonial Era: A history to 1850.
José Pedro Castanheira estabelece um paralelismo entre Davidson e o polaco Ryszard Kapuscinski (1932-2007), também um jornalista com o nome na galeria dos grandes repórteres mundiais. “Davidson era menos repórter e mais um estudioso e historiador”, explica o jornalista do Expresso.
Isabel Castro Henriques, professora da Faculdade de Letras e especialista em temas africanos, vê nos livros de Davidson não tanto trabalhos de historiador mas “um instrumento para o seu activismo político” e para a defesa do pan-africanismo. Não pondo em causa a qualidade da escrita e a inteligência de observação do “jornalista militante”, esta investigadora considera esses livros “historicamente datados”, mas sem dúvida importantes para o conhecimento da época e dos movimentos políticos que, na Europa e no Mundo, defenderam as lutas contra o colonialismo.
Nas décadas 50 e 60, principalmente após a libertação do Gana, primeiro país africano a conquistar a independência, perante a Inglaterra, Basil Davidson envolve-se directamente na luta contra o colonialismo e contra o apartheid em instituições como o Comité para a Libertação de Angola, Moçambique e Guiné (CLAMG) e a Union of Democratic Control.
Também Dalila Cabrita Mateus e Eduardo Costa Dias, investigadores do ISCTE e especialistas nas lutas africanas pela independência, vêem em Davidson principalmente um homem de acção e de intervenção política. “Era um jornalista-publicista”, chama-lhe Costa Dias, manifestando, contudo, “grande simpatia” pelo seu trabalho na denúncia da guerra colonial. Dalila Mateus realça ter sido “um dos pioneiros a debruçar-se sobre as condições da luta dos povos africanos contra as potências coloniais, e em particular sobre o colonialismo português”. Os livros que escreveu são, por isso, avançam os dois historiadores, “testemunhos de uma época” que os investigadores actuais não podem põe de parte.
Agente secreto
Mas a atenção de Davidson a África corresponde apenas a cerca de metade da sua vida activa. Curiosamente, o seu contacto com o continente negro aconteceu de forma “acidental” quando, em plena Segunda Guerra Mundial, depois de alistado como voluntário no exército britânico, foi enviado para o Cairo – com passagem por Lisboa -, integrando os serviços secretos do seu país. Antes desta viagem, Davidson tinha já combatido o nazismo na Hungria até ser detido, e depois libertado, numa troca de prisioneiros entre Inglaterra e Itália. No regresso ao palco da guerra, encarrega-se da resistência na Jugoslávia, onde irá conhecer e combater ao lado de Tito (tema do seu primeiro livro, Partisan Picture, 1946).
Mesmo que nunca tenha manifestado apreço pelo comunismo, e que tenha sido distinguido com a Cruz de Guerra por serviços prestados, a ligação ao futuro líder da então Jugoslávia vai criar-lhe a imagem de “perigoso fellow traveller”, o que viria a levar o governo britânico a vetar a sua participação em projectos da Organização das Nações Unidas para a Educação, ciência e Cultura (UNESCO).
Basil Davidson decide então regressar ao jornalismo que tinha sido a sua vocação primeira desde que, aos 16 anos, abandonou o liceu de Bristol, onde nasceu, para ir “aprender a nadar” em Londres, como contou a Castanheira. No início dos anos 30 fez o tirocínio no The Economist e no Star (já desaparecido). Terminada a guerra, é enviado pelo The Times como correspondente para Paris, e colabora também com o Daily Herald, o Daily Mirror e o News Statesman. É o princípio do resto da vida deste aventureiro, que sempre se considerou “um homem de sorte”. “Na vida, e especialmente no jornalismo, tem de se ter sorte, muita sorte”, disse ao Expresso. Davidson teve sorte e teve África. “Foi uma paixão que acabou por se apoderar de mim para o resto da minha vida”.
Foi a África dele.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Salário de guerra

trazer a liberdade amadurecida nos dentes
trazer nos dentes a alegria do verde
a palavra força a estoirar na face
trazer uma lança atravessada nos cabelos

ser sábio de guerra, sorver o cachimbo
lentamente como um rio em seu falar
trazer a chuva num riso pequeno
amar a morte ferida
na armadilha

trazer uma fogueira na garganta
e beber o fogo com deleite, ser domador
do tempo e recebê-lo com respeito na
ponta da flecha
rasgar a noite com um punhal de estrelas
um dialecto vertical a pulsar na língua
trazer o inimigo morto de frente
a aprender nas crianças
o salário da nova gestação

David Mestre

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Os mortos perguntam

nos rumos perdidos dos ventos trocados,
todos os rumos,
nos fumos das piras dos mortos cremados,
todos os fumos,
de todas as piras...
nas iras dos mares
que beberam sangue
todas as iras...
na ânsia enlutada de todos os lares
vazios de esperança
todas as ânsias
de todos os lares...
nos sexos sangrentos das virgens violadas
os farrapos
a sangrar
de todos os sonhos que homens sonharam
e homens violaram...
em todas as dores dos vivos da terra
todas as dores dos mortos da guerra...
e os rumos perdidos
e os corpos ardidos,
e as iras inúteis,
e as ânsias caladas,
e os sonhos, sujos como vidas de virgens violadas,
e todas as dores
de todos os mortos que a guerra matou,
e todos os lutos
de todos os vivos
que a guerra enlutou,
perguntam,
perguntam,
perguntam
a todos os ventos
a todos os mares
às roupas de luto de todos os lares,
se valeu a pena...
... os mortos perguntam...
mas os ventos trocam-se,
o mar não serena,
as viúvas continuam a chorar,
e os mortos não param de perguntar
se valeu a pena...
... mas a esperança é longa
e bela de agarrar no fundo dos martírios...
os mortos perguntam,
os mortos protestam...
... irmãos, os braços são magros,
mas longos,
longos da ânsia de querer...
...a pergunta é grande e a força é pequena,
mas só nós podemos, irmãos, responder,
se valeu a pena...

António Neto

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Bailarina negra

para Antonica (na Barra do Dande)


a noite
(uma trompete, uma trompete)
fica no jazz

a noite
sempre a noite
sempre a indissolúvel noite
sempre a trompete
sempre a trépida trompete
sempre o jazz
sempre o xinguilante jazz

um perfume de vida
esvoaça
adjaz
serpente cabriolante
na ave-gesto da tua negra mão

amor, 
vénus de quantas áfricas há,
vibrante e tonto, o ritmo no longe
preênsil endoudece

amor
ritmo negro
no teu corpo negro
e os teus olhos
negros também
nos meus
são tantãs de fogo
amor.

António Jacinto

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Pausa

e se os teus olhos não tivessem tanto
murmúrio de sorrir e de cantar
onde andaria a borboleta livre
que vive no encanto
de nos ver voar

e se os teus braços não fossem de crista
da onda onde sabemos naufragar
como seria o nosso mar sem fundo
e o céu sem fim
de nos sabermos dar.

Manuel Rui