quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cântico de alforria

vem, segura a minha mão
iniciemos um roteiro amargo de peregrinação:
pelo trilho batido do fundo da floresta
partamos até ao mar cruel
o mar sem fim, veículo da nossa servidão.

não, não feches os olhos à tragédia
olha os negreiros ancorados na baía da nossa desgraça
os nossos irmãos acorrentados
como gado sorvidos pelo negrume dos bojos insaciáveis
semelhando ventres de deuses bárbaros.
virgínia, alabama
mississípi
Sangue vermelho
Suor de negro branqueando algodão
cuba, Brasil
martinica
mais sangue vermelho
suor de negro movendo engenhos de açúcar.

eis o nosso povo sacrificado
eis a nossa gente
a nossa gente transpondo mares e mares
carne da nossa carne
sangue do nosso sangue disperso pelo mundo.

vem, segura a minha mão serena
em passo firme caminharemos até à orla do mar algoz
escutaremos as vozes perdidas na profundeza dos abismos
os ecos dos gritos abafados

congelados em pedaços de nossa carne ensanguentada
congelados em miríades de búzios abandonados ao sabor das ondas.

vem, irmão, seca as lágrimas nas pupilas
toma a minha mão amiga
percorramos o mesmo trilho batido do fundo da floresta
na jornada de regresso que nosso povo não caminhou
e à volta da árvore milenar à beira do caminho
saudemos a alforria ansiada pela nossa geração.

Jofre Rocha


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