sexta-feira, 4 de junho de 2010

Canção de Ndon Kishote

Fruste silhueta
gáudio da canalha
provocando o riso,o choro e a troça
o soldado veterano trazido pela guerra
é fardo de palha
que a brisa desconjunta
regressando a casa no fundo da carroça.

velho monumento que nada mais encerra,
como aquela puta que já não presta,
que foi marabunta,
que foi cagalhoça.
fruste silhueta
gáudio da canalha.
o que te resta ainda
da tua gesta?

memória d'arquivo
que nem sequer comporta
o eco evasivo que sonoriza a glória!
silêncio na memória.
silêncio imperativo.

mito que se conta em língua morta,
feito que desfeito perde a história.

memória duma insólita fescura
nos nossos afagos e carícias
que ondularam a superfície dos lagos
e agitaram as folhas das welwitchias.

memória d'aventura que desperta
abrindo a porta dos sonhos fugazes,
nas vozes agudas,
nas palavras estranhas
nos gestos largos e sagazes
retumbando na crista das montanhas
avante! avante! que a vitória é certa!
que davam coragem aos nossos rapazes
atrapalhando os budas!...
mas deixando sempre a portra aberta...

memória duma fruste silhueta
a cavalo numa nuvem tenporária
à procura da meta
pelo tempo fora, pela extensa área
do sonho rubro da nossa vida,
claudicando no campo de batalha
na sua montada feita de esperança,
um poema na boca, na mão a longa lança,
e em toda ela um suspiro de ternura.

não é o cavaleiro da triste figura
duma velha história, que não tem saída,

a fruste sailhueta, gáudio da canalha,
é o herdeiro duma sagrada-esperança
noutra aventura
mal digerida...

Henrique Abranches

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