quarta-feira, 30 de junho de 2010

Os livros

não conhecemos estes lugares
ou compulsivamente
os revemos. paisagens
inusitadas, absurdas,
mesmo se alguma vez as frequentámos
com nossos olhos e bagagens.
são estranhos estes homens
que nos fazem rir e chorar,
sentir raiva, ser
solidários. são-nos íntimos,
porém. estes
sonhos, a quem
pertencem? sentimentos obscuros,
que angústias (des)
velam? trágicas
desilusões,
que mundos encerram?

os livros, quietos
e buliçosos: o nosso
alter ego.

João Melo

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sons

a guitarra
é som antepassado.

partiram-se as cordas
esticadas pela vida.

chorei fado.

que importa hoje
se o recuso:

o ngoma é o som adivinhado!

Luandino Vieira

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Poema

quando eu morrer ponham-me num museu
que o meu lugar é aí.
coloquem na vitrine este letreiro:

“espécie rara de tipo invertebrado
verdadeiramente fenomenal.
fez poesia.cursou a faculdade. Sofreu
entre outras coisas, ausências de dinheiro,
e, como os humanos, pensou no bem e no mal.
chegou a convencer-se que era gente.
mas morreu.
e por tudo isso que o fez diferente
dos outros invertebrados
veio à sala de um museu”.

Ermelinda Pereira Xavier

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cântico de alforria

vem, segura a minha mão
iniciemos um roteiro amargo de peregrinação:
pelo trilho batido do fundo da floresta
partamos até ao mar cruel
o mar sem fim, veículo da nossa servidão.

não, não feches os olhos à tragédia
olha os negreiros ancorados na baía da nossa desgraça
os nossos irmãos acorrentados
como gado sorvidos pelo negrume dos bojos insaciáveis
semelhando ventres de deuses bárbaros.
virgínia, alabama
mississípi
Sangue vermelho
Suor de negro branqueando algodão
cuba, Brasil
martinica
mais sangue vermelho
suor de negro movendo engenhos de açúcar.

eis o nosso povo sacrificado
eis a nossa gente
a nossa gente transpondo mares e mares
carne da nossa carne
sangue do nosso sangue disperso pelo mundo.

vem, segura a minha mão serena
em passo firme caminharemos até à orla do mar algoz
escutaremos as vozes perdidas na profundeza dos abismos
os ecos dos gritos abafados

congelados em pedaços de nossa carne ensanguentada
congelados em miríades de búzios abandonados ao sabor das ondas.

vem, irmão, seca as lágrimas nas pupilas
toma a minha mão amiga
percorramos o mesmo trilho batido do fundo da floresta
na jornada de regresso que nosso povo não caminhou
e à volta da árvore milenar à beira do caminho
saudemos a alforria ansiada pela nossa geração.

Jofre Rocha


segunda-feira, 21 de junho de 2010

A borboleta desbotada

a borboleta desbotada
pousou em ramo da árvore morta
a lagartixa branca
atirou a língua mas só pegou folhas secas
e o camaleão vagaroso
subiu ao pau mas esqueceu de mudar a cor

será que a menina de pano azul
mirando-se no espelho opaco das águas pardas
sabe
que mais desastrado ainda
é o vento
e mais desastrado que o vento
é o sonhador adormecido

Arlindo Barbeitos

domingo, 20 de junho de 2010

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http://meublogtemconteudo.blogspot.com/

O blogue "Angola: os poetas" faz parte de uma selecção dos melhores blogues culturais. Uma referência do blogue brasileiro http://meublogtemconteudo.blogspot.com/
Gratos pela escolha, prosseguiremos com a possível divulgação da poesia angolana.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pétalas

aprecio muito a redondez do mundo,
flores e pétalas
apontadas numa direcção amarela

verdades doces como mangas
[gosto de mangas com fio - dão sorrisos mais amarelos].

um dia veio o vento e as pétalas esvoaçaram.

ficou triste a flor
ficaram livres as pétalas.

Ondjaki

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Oração

senhor,
dá-nos o prometido no princípio
quando os homens errantes no deserto 
receberam de ti a obrigação;
dá-nos a terra fértil dos eleitos;
a pátria para o povo de escolhidos
que ainda não têm pão.
senhor!
é a hora da estrela refulgir
guiando os passos do teu povo esparso
nas trevas desta noite de ganância
e dor
e confusão.
é a hora, 
senhor!
dá-nos o prometido no princípio:
a terra da promissão.

Cochat Osório

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Enquanto a palavra paz

enquanto a palavra paz...
troar nos peitos ecos de ngomas de guerra
explodir nos olhos imagens de corpos retalhados
acompanhar nos corações com o jingololo das mães
e crianças em fuga

enquanto a palavra paz...
lembrar um véu negro para o culto de uma fé má
lembrar a embriaguez do sangue nos massacres
de gente desarmada
e catanas erguidas em cada sombra

enquanto a palavra paz...
não entrelaçar dedos com dedos estrada embora
miendeleka deixanana passo a passo reconhecermos
na terra o odor e o alimento de nossas vidas...

um vagido de néné
alcançará o topo da montanha e as pedras rolarão
um simples poente de kanzumbis
será um apocalipse de sangue

e as hienas
continuarão escarninhas nos seus coios.

Arnaldo Santos

domingo, 6 de junho de 2010

O poeta Ruy Duarte de Carvalho, visto por Fernando Campos

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Canção de Ndon Kishote

Fruste silhueta
gáudio da canalha
provocando o riso,o choro e a troça
o soldado veterano trazido pela guerra
é fardo de palha
que a brisa desconjunta
regressando a casa no fundo da carroça.

velho monumento que nada mais encerra,
como aquela puta que já não presta,
que foi marabunta,
que foi cagalhoça.
fruste silhueta
gáudio da canalha.
o que te resta ainda
da tua gesta?

memória d'arquivo
que nem sequer comporta
o eco evasivo que sonoriza a glória!
silêncio na memória.
silêncio imperativo.

mito que se conta em língua morta,
feito que desfeito perde a história.

memória duma insólita fescura
nos nossos afagos e carícias
que ondularam a superfície dos lagos
e agitaram as folhas das welwitchias.

memória d'aventura que desperta
abrindo a porta dos sonhos fugazes,
nas vozes agudas,
nas palavras estranhas
nos gestos largos e sagazes
retumbando na crista das montanhas
avante! avante! que a vitória é certa!
que davam coragem aos nossos rapazes
atrapalhando os budas!...
mas deixando sempre a portra aberta...

memória duma fruste silhueta
a cavalo numa nuvem tenporária
à procura da meta
pelo tempo fora, pela extensa área
do sonho rubro da nossa vida,
claudicando no campo de batalha
na sua montada feita de esperança,
um poema na boca, na mão a longa lança,
e em toda ela um suspiro de ternura.

não é o cavaleiro da triste figura
duma velha história, que não tem saída,

a fruste sailhueta, gáudio da canalha,
é o herdeiro duma sagrada-esperança
noutra aventura
mal digerida...

Henrique Abranches

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O novo homem

traz nos olhos punhais
e mensagens secretas…
e zagaias de sonho
nas mãos negras, desertas…

olha para nós a direito
e tem um riso branco
que lhe dilata o peito…

passa um frio entre os homens
de redeio e de espanto…

Amélia Veiga