segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sim, negra

Resposta ao soneto “Negra” de
Tomaz Vieira da Cruz


porque recordas, numa rima triste,
o meu nascer humilde, e a condição
dum mal ligado a mim por doação
do sangue, nesta cor que em mim existe?

não vês, nesta tristeza que persiste
a afirmativa duma negação?
e o fruto dessa mesma afirmação
roubando o sol à vida que me assiste?

por outros, como tu, perdi a fé!
e às vezes posta à margem da ralé
me apontam numa troça galhofeira!

sim, negra como vês, sempre chorando
a sorte do meu mal, triste e nefando,
que assim me traz de luto a vida inteira!

Maria Joana Couto

1 comentário:

Ricardo Fabião disse...

Maria...
que lindo teu soneto!
Tão rico de imagens e sons...

Aqui ergue-se a alma como estandarte; amplia-se a noção do existir; que está muito além da nossa respiração.
Não há apenas corpo; há ideologia e há fé em manhãs e devires.

Fico fã, pois, da força, da poesia, do zelo com as palavras.

Abraço.
Ricardo.