sexta-feira, 7 de maio de 2010

Caminhos de musseques

caminhos de musseques
lá onde a areia entra pelos sapatos
daqueles que têm sapatos
lá onde o sol se filtra pelas fendas
pelos buracos dos pregos
dos tetos de zinco.

caminhos antigos.
caminhos antigos como o mundo.

a cidade empurrou os musseques
e o cacimbo caiu mais de mansinho
escondendo as figuras esguias
e os rostos de chumbo.

onde a esteira cobre o chão varrido todas manhãs
onde a fuba substitui todas as claridades
onde a cerveja escorre pouco
porque não há dinheiro de comprar.

caminhos antigos
onde a electricidade começa a entrar no alto dos postes
onde o transístor começa a fazer circular
“ideias estrangeiras”
onde os motores dos carros
acordam as madrugadas das crianças
que antigamente ouviam os passarinhos.

as fendas, os muros, os tetos
os buracos dos caminhos
esboroando-se no passado
alcatrão penetrando e desmentindo a mudança
cimento e cal erguendo os muros cinzentos das fábricas
saias lutando contra os panos das velhas
telefone até.

nas almas… um grande vazio
preenchido pelos merengues que vêm de fora.

lá – caminhos da vida
lá no mato. lá no campo. lá na floresta. lá no estrangeiro
lá onde se nasce, vive e morre todos os dias
com kambaritókué, ou sem ele
com um lençol simples ou uma vala comum
morrendo apenas é que tudo acaba.
a vida tem de ser dignamente vivida.
Vamos juntar as nossas cobardias
os nossos sofrimentos
as nossas ansiedades
nossas angústias
nossos sorrisos
nossos sarcasmos
a nossa coragem
nossas vidas.
Vamos
lá – no musseque – areiais vermelhos
onde passam os caminhos da vida
e vamos
dizer
corajosamente
às crianças que esperam o nosso exemplo
que este quintal
tem de ser estrumado com sangue
adubado de sofrimento
cultivado com as nossas dores
mangueiras
anoneiras
gindungueiros
frutificando ao sol e ao luar
para quê dizer mais versos
que só o povo entende?

Ernesto Lara Filho

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