segunda-feira, 31 de maio de 2010

O sul

o sol o sul o sal
as mãos de alguém ao sol
o sal do sul ao sol
o sol em mãos de sul
e mãos de sal ao sol

o sal do sul em mãos de sol
e mãos de sul ao sol
um sol de sal ao sul
o sol ao sul
o sal ao sol
o sal o sol
e mãos de sul sem sol nem sal

pr’a quando enfim amor
no sul ao sol
uma mão cheia de sal?

Ruy Duarte de Carvalho

domingo, 30 de maio de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Libertação

quando soarem as marimbas
pela noite fora…
quando o muquixe vier dançar
perto das nossas cacimbas…
oh! minha máscara tchócuê!
comungaremos ambos
no mesmo tchoto,
ou nos nossos sambos
vazios de nongombe…

ah! chama, chama!
os heróis esquecidos
da nossa gente.
clama, clama!
p’los tubungo perdidos
no tempo que não foi nosso…

ah! minha máscara tchócuê!
amanhã, quando o sol raiar,
luêji, a nossa mãe, verá
novas peles nas nossas ngomas!

Jorge Arrimar

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Quando eu morrer

quando eu morrer
não me dêem rosas
mas ventos.

quero as ânsias do mar
quero beber a espuma branca
duma onda a quebrar
e vogar.

ah! a rosa dos ventos
a correrem na ponta dos meus dedos
a correrem, a correrem sem parar.
onda sobre onda infinita como o mar
como o mar inquieto
num jeito
de nunca mais parar.

por isso eu quero o mar.
morrer, ficar quieto,
não.
oh, sentir sempre no peito
o túmulo do mundo
da vida e de mim.

e eu e o mundo.
e a vida. oh mar,
o meu coração fica para ti
para ter a ilusão
de nunca mais parar.

Alexandre Dáskalos

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sim, negra

Resposta ao soneto “Negra” de
Tomaz Vieira da Cruz


porque recordas, numa rima triste,
o meu nascer humilde, e a condição
dum mal ligado a mim por doação
do sangue, nesta cor que em mim existe?

não vês, nesta tristeza que persiste
a afirmativa duma negação?
e o fruto dessa mesma afirmação
roubando o sol à vida que me assiste?

por outros, como tu, perdi a fé!
e às vezes posta à margem da ralé
me apontam numa troça galhofeira!

sim, negra como vês, sempre chorando
a sorte do meu mal, triste e nefando,
que assim me traz de luto a vida inteira!

Maria Joana Couto

domingo, 23 de maio de 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

São meus estes rios

São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.
A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.
Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.

Manuel dos Santos Lima

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Presença

não perguntes porque vim…
trazendo não-flores nos dedos,
falando línguas diferentes,
dizendo em risos-segredos,
todos os sonhos dementes…

não perguntes porque vim…

se pudesses entender
este pulsar sem medida
terias chegado ao fim…

mas estou junto a ti,
irmão,
diz-me então,
que mais te importa?

não perguntes porque vim…

Alda Lara

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ave da madrugada

ave da madrugada
prometida
sobre a margem futura
do rio fremente,
voa-me tua semente
nesta viagem
sentida e pura
nos nervos tensos…

ave da madrugada
diferente
sobre o céu fecundo
dos bosques densos do mundo,
voa-me tua semente
nesta viagem
dorida e madura
nos nervos tensos…

ave da madrugada
certa
sobre a agonia do mar
dos ossos insepultos,
voa-me tua semente
nesta viagem
desperta e dura
nos nervos tensos…

ave da madrugada
rutila
sobre o chão absoluto
das lavras do futuro,
voa-me tua semente
nesta viagem
que cintila e perdura
nos nervos tensos…

António Cardoso

domingo, 16 de maio de 2010

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Poetas da guerra

a terra o sol os campos libertados
poemas
poemados entre a fuzilaria

na declamação das valas comuns
versos metralhados
nas crianças balbuciando estrelas

linda a pátria dignificado o homem
esta é a grande poesia:
arte
dos poetas da guerra

Jorge Macedo

quarta-feira, 12 de maio de 2010

ELEGIA

o teu corpo,
uma vez o meu altar e pecado,
o teu corpo
agora amarelo e viscoso,
hostil como a freira enclausurada,
é uma forma obscena ao sol.

tu estás morta –
tu, o meu pão e vinho santo!

tu foste
a minha dor,
o sol
e a chuva;
Tu foste
saudade,
tudo
e desejo,
quando nós
sofrendo,
quando nós
encontramos
uma nova luz
uma nova fé!

tu estás morta –
tu, o meu pão e vinho santo.

Tomaz Kim

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Henda I Xala

a loucura tocou as nossas mãos.
súbitas luzes passam nos teus olhos.
o excessivo pudor nos aproxima:
riqueza dos segredos revelados!

não importa a incerteza e o impossível:
deles e nós, conscientes, nos sorrimos.
para além do momento, nós sabemos:
o amor ficará – O HENDA I XALA.

Mário António

domingo, 9 de maio de 2010


"Sanzala de Galangue", pintura de Neves e Sousa

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Caminhos de musseques

caminhos de musseques
lá onde a areia entra pelos sapatos
daqueles que têm sapatos
lá onde o sol se filtra pelas fendas
pelos buracos dos pregos
dos tetos de zinco.

caminhos antigos.
caminhos antigos como o mundo.

a cidade empurrou os musseques
e o cacimbo caiu mais de mansinho
escondendo as figuras esguias
e os rostos de chumbo.

onde a esteira cobre o chão varrido todas manhãs
onde a fuba substitui todas as claridades
onde a cerveja escorre pouco
porque não há dinheiro de comprar.

caminhos antigos
onde a electricidade começa a entrar no alto dos postes
onde o transístor começa a fazer circular
“ideias estrangeiras”
onde os motores dos carros
acordam as madrugadas das crianças
que antigamente ouviam os passarinhos.

as fendas, os muros, os tetos
os buracos dos caminhos
esboroando-se no passado
alcatrão penetrando e desmentindo a mudança
cimento e cal erguendo os muros cinzentos das fábricas
saias lutando contra os panos das velhas
telefone até.

nas almas… um grande vazio
preenchido pelos merengues que vêm de fora.

lá – caminhos da vida
lá no mato. lá no campo. lá na floresta. lá no estrangeiro
lá onde se nasce, vive e morre todos os dias
com kambaritókué, ou sem ele
com um lençol simples ou uma vala comum
morrendo apenas é que tudo acaba.
a vida tem de ser dignamente vivida.
Vamos juntar as nossas cobardias
os nossos sofrimentos
as nossas ansiedades
nossas angústias
nossos sorrisos
nossos sarcasmos
a nossa coragem
nossas vidas.
Vamos
lá – no musseque – areiais vermelhos
onde passam os caminhos da vida
e vamos
dizer
corajosamente
às crianças que esperam o nosso exemplo
que este quintal
tem de ser estrumado com sangue
adubado de sofrimento
cultivado com as nossas dores
mangueiras
anoneiras
gindungueiros
frutificando ao sol e ao luar
para quê dizer mais versos
que só o povo entende?

Ernesto Lara Filho

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O teu seio - é belo

o teu seio - é belo,
é da mais alta brancura,
quando meigo arfa constante
a mais cismada ventura:
tens cabelos de cor de oiro
são do mundo o meu tesoiro
quando soltos a brilhar;
pois será sempre o teu rosto
o mais divino composto
que na terra hei-de adorar.

Maia Ferreira

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Noite escura

sobre a curva do rio cuanza
o sol mergulha
vermelho
recortando no horizonte sombras de palmeiras

ai, é tão triste a noite sem estrelas!

um dia
o meu sol caiu no mar
e me anoiteceu

um dia começou uma noite sem estrelas.

mas na noite escura
os corações se erguem

ah!é tão alegre a madrugada!

Agostinho Neto