sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mamã

mamã
mamãzinha
onde estás? Porque não vens
neste dia 8 de Dezembro
ao meu chamamento?

mamã
mamãzinha
porque não respondes?

os meus olhos cruzam-se
perdidos no mar alto da incerteza
cheios de lágrimas de tédio.

mamãzinha
a minha face é a face amarela
dos mortos esbofeteados.

o meu corpo é mapa-mundi
das terras onde morri e ressuscitei
onde mataram a minha mãe,
onde enforcaram o meu pai
onde acorrentaram o meu filho.

mamãzinha,
vem… estou vivendo o minuto de espera
o minuto eterno que me faz desesperar!

Samuel de Sousa

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Mulata

os teus defeitos são graças
que mais me prendem, querida...
mistério de duas raças
que se encontram na vida.

e, no mato, em nostalgia,
num exílio carinhoso,
fizeram essa alegria
do teu olhar misterioso.

e deram forma de sonho
em seu viver magoado
a esse estilo risonho
fizeram essa alegria
do teu corpo bronzeado...

que é bem a grácil maneira
em que a volúpia se anima,
- bailado duma fogueira
queimando quem se aproxima!

a tua boca dolente,
cicatriz de algum desgosto
é um vermelho poente
no lindo sol do teu rosto.

e os beijos que pronuncias
são palavras dolorosas...
teus beijos são tiranias,
são como espinhos de rosas...

que me embriagam amantes,
no éter do teu perfume...
teus beijos são navegantes
sobre as ondas do ciúme.

os teus defeitos são graças
desse mistério profundo...
saudades de duas raças
que se abraçaram no mundo!

Tomaz Vieira da Cruz

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Serão de menino

na noite morna, escura de breu
enquanto na vasta sanzala do céu
de volta de estrelas, quais fogaréus,
os anjos escutam parábolas de santos…

na noite de breu
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantus…

“era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho…

……………………………………………

… matreiro, o cágado lento
tuc… tuc… foi entrando
para o conselho animal…
(“-tão tarde que ele chegou!”)
abriu a boca e falou –
deu a sentença final:
“- não tenham medo da força!
se o leão o alheio retém
- luta ao mal! Vitória ao bem!
tire-se ao leão, dê-se à corça.”

mas quando lá fora
o vento irado nas frestas chora
e ramos xuaxualha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos
- eué
- é casumbi

e a gente grande –
bem perto dali
feijão descascando para a quitanda –
a gente grande com gosto ri…

com gosto ri, porque ela diz
que o casumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres buscam, em negra noite,
essa outra voz de casumbi
essa outra voz – felicidade…

Viriato da Cruz

domingo, 25 de abril de 2010

Cachoeiras, Sumbe, província de Kuanza Sul (Imagem da Net)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Contratados

à hora do sol posto
as rolas traçam
desenhos de feitiços sinuosos
caminhos sob a calma das mulembas
e abraços de segredos e silêncios.

…longe …muito longe
um risco brando
acorda os ecos dos quissanjes
vermelho como o fogo das queimadas
com imagens de mucuisses e luar.

canções que os velhos cantam murmurando.

…e nos homens cansados de lembrar
a distância vai calando mágoas

renasce em cada braço
a força de um secreto entendimento.

Costa Andrade

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Soneto ao mar africano

ó grande mar, que banhas estas plagas
africanas, em ti ouço recados
dum mundo a outro mundo, nos teus brados
de prantos, risos, orações e pragas!

na dramática voz das tuas vagas,
escuto os que, nos séculos passados,
choraram nesse canto dos teus fados,
cantaram nesse choro em que te alagas…

na tua voz eu ouço o branco bravo,
que semeou Portugal nestes recantos
africanos, e ainda o negro escravo

- ao mesmo tempo indómito e servil –
que regou com seu sangue e com seus prantos
a semente fecunda do Brasil!

Geraldo Bessa Victor

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Apelo importuno

nas nuvens onde vou chorando
sobre os olhos de amanhã
nascem e morrem dias sem sol
repletos de pontos de interrogação.

na estrada onde vou cantando
as imagens destroçadas
inclinam-se cantos estropiados.
e nos meus braços desfilam
homens e mulheres anunciados
nas cassetes.

- Escrutai e cantai comigo
os olhos de amanhã

João Maimona

domingo, 18 de abril de 2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A Casa

a pedra, o pau, o barro,
os alicerces
da casa prometida
sabida
como certa

a pedra dura
madeira que se dobra
o barro que se molda
coragem que perfura
a timidez que sobra
paciência que se amolda

um bocado de sonho em cada mão,
um resto de azul
no resto da manhã,
e amanhã,
de manhã cedo,
sem medo,
a casa que te ofereço
cercada de amizade.

Aires de Almeida Santos

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Bandeira branca

java, Bornéu, Coreia, indochina,
não há mares que nos separem…
na ponta das vossas lanças há um grito!

e esse grito
floresce nos nossos olhos,
baila no nosso peito
e como bandeira branca
palpita nas nossas mãos…

java, Bornéu, Coreia, Indochina,
a que distância estais vós?
tão perto
que uma linguagem nos basta:
a de uma bandeira branca…

Lília da Fonseca

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Memória de infância

está o soba sob a sombra
que a mulemba traz sobre o chão.
sob o soba está a esteira
estendida sobre o solo.
dorme a sesta sob a sombra
o soba que o sol não sente
porque a sabida mulemba
ensombra o sol e sombra o soba.
está o soba sob a sombra
da mulemba da sanzala
sob o soba está a esteira
estendida sobre o sonho
sob a sombra da mulemba.

Namibiano Ferreira

domingo, 11 de abril de 2010

Plantação de abacaxis, Lunda Sul

sexta-feira, 9 de abril de 2010

King, Martin Luther

(in memoriam)

tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina do dia
ilha que se levanta e voa a partir do sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do vale

tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas de todos os bairros e leitos da cidade onde houver um calor de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho dos ventres
com um jazz-man a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida dos chicotes
nos porões do mundo

David Mestre

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Liberdade

o coração da savana
é o infinito
de um silêncio
que se desfaz
em pranto
um painel onírico
onde guardo
o sonho
e a liberdade
como se fosse um beija-flor
na gaiola aberta
das minhas mãos
em concha…

Jorge Arrimar

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Manga, manguinha

a manga é um símbolo de áfrica:
no seu sabor
no seu aroma
na sua cor
na sua forma

a manga tem o feitio do coração!
a áfrica também.
tem um sabor forte, quente e doce!
a áfrica também.
tem um tom rubro-moreno
como os poentes e as queimadas
da minha terra apaixonada.

por isso te gosto e te saboreio
ó manga!
coração vegetal, doce e ameno.

tu és o amor do abacate
porque ele guarda no seu meio
um coração que por ti bate;

bate, bate, que bate!
ó manga, manguinha,
amor do abacate!

Tomaz Jorge

domingo, 4 de abril de 2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Negras

manancial verde ondulando as folhas verdes
as folhas do capinzal das bissapas selvagens
dos algodoais em estudada simetria.
a fita da estrada onde vem o progresso…

mas o que eu vejo são os panos garridos
das mulheres curvadas apanhando as sementes
corpos curvados das misérias sofridas
mãos mirradas apanhando as sementes…

Henrique Guerra