sexta-feira, 19 de março de 2010

Canção para Milton do Nascimento

a lonjura da tua voz não é apenas dos amplos vales de minas gerais:
abarca a negra imensidão do oceano azul que em galeras te levou
das praias invadidas do Congo, ndongo e Benguela,
alcança os planaltos ancestrais
de onde te arrancaram ao coração da terra,
sem suspeitar que na tua voz
ia a alma de todos os homens do mundo.

não são apenas os tambores de minas
que ressoam na tua voz:
nela brilham, suados e polidos,
os ngomas guerreiros de lunda,
os amorosos chocalhos ibéricos,
os doces e profundos atabaques ameríndios…

há na tua voz melodias de rouxinóis
e gritos desesperados de catetes e catituís,
serenas fontes e cascatas sanguinolentas,
como há pianos e tambores,
puítas e violinos,
flautas murmurantes,
ásperos e belos saxofones,
erguendo-se, como um halo de luz,
sobre os dilacerados quadris da memória reconstruída.

na tristeza da tua voz,
na alegria da tua voz

- a elementar coragem de cantar
Sozinho no meio da escuridão.

João Melo

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