segunda-feira, 15 de março de 2010

Branca Bola de Enguiço

numa branca bola de papel
sem princípio nem fim,
rolando pela calçada da glória
ora de baixo para cima
ora de cima para baixo
como bola de arlequim,
alguém escreveu minha história
que vai do princípio ao fim
em recortes de jornais.

borraram a bola toda,
a branca bola de lírio…
borrões de tinta nanquim
manchas informes, sem graça,
gesticulando em delírio!
borraram a bola toda
tapando pedaços de história
em recortes desiguais
que falavam bem de mim
- que falavam bem demais.
e a bola rola perdida
redonda como a cabeça
que fermenta a minha vida.

roda pela estrada longa
que nem sequer vai à tonga,
que desemboca na praça
política púdica e pública
sobre um arco de triunfo
com brilhantes de cafunfo
que passaram na kandonga!

e a branca bola de tinta
com manchas de tinta carmim,
rola cada vez mais lenta
do princípio ao fim,
toda borrada e sebenta
- mas com graça, mesmo assim,
como um palhaço teimoso
girando na praça cheia
dum público cheio de gozo!

até que um tipo mais drástico
venha quebrar o feitiço,
e pondo-lhe o dedo na ferida
faça rebentar o plástico
da branca bola do enguiço
entre o princípio e o fim
que foi toda a minha vida!

Henrique Abranches

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