quarta-feira, 31 de março de 2010

Último poema

sair do temporal

é ganhar tempo pra coser as velas,
é ganhar tempo pra fazer aguada
e aparelhar.
o meu destino certo e tão inquieto
é o destino trémulo e concreto
duma agulha de marear.

ah, não esperem que eu não espere,
nem acreditem que eu tema
ou que eu possa naufragar…
numa vela renovada
há insistência pra conter o vento,
há arrogância pra conter o mundo,
há energia pra domar o tempo
e força pra singrar.


sair do temporal
é ter a nostalgia do combate
que vai recomeçar.

tomei o gosto às horas de calema
e sou irmão do mar.

Cochat Osório

segunda-feira, 29 de março de 2010

Cambúta

não é feia, nem é linda,
mas tem o encanto ideal,
a graça attrahente, infinda
que enlouquece a um mortal.

nada possue de galante
de divino ou seductor;
porém, um todo que encante,
como o seu, não há melhor.

é cambúta, isto é, baixinha;
não sendo horrenda, nem feia,
e posto seja negrinha
tem as formas d’uma hebreia.

seus olhos claros, brilhantes
derramam uns taes fulgores,
que dois astros fulgurantes
não lhes ganham em primores.

quando airosa a vejo andar,
o seu corpo pequenino
de plástica singular
tem um quê tão peregrino,

que a alma logo s’invade
d’uma estranha sensação
e palpita o coração
de febril ansiedade…

a antiga esthetica grega
que pelo bello morria,
se visse este raro specimen
uma estátua lh’esculpia!

Cordeiro da Matta

sexta-feira, 26 de março de 2010

Por noites de lua nova

por
noites de lua-nova
brasas no fogo
são
estrelas do céu
e
pirilampos em teus olhos

de cabeça baixa
ao de leve
a nubente
vem deslizando
por
noites de lua-nova

oh volúvel louva-a-deus
que a gunga da chuva
de seu salto de vento
passe por aqui

pirilampos em teus olhos
são brasas no fogo
e
estrelas no céu
por noites de lua-nova

Arlindo Barbeitos

quarta-feira, 24 de março de 2010

Pastor de estrelas

para o marinheiro Carlos Barbosa


companheiro Barbosa
me atraz novidades:
“o grito é um pastor de estrelas…”
entorno enternecitudes, assim em
emochões.
o grilo é rasante, gritante, em negrecido.
um bicho do chão, concluímos.
“mas aí está”, diz-me.
“por via do chão ele despe distâncias;
está mais próximo de estrelas, pois…”
entorno espantos, encantos.
“um pastor, guiante? – eu.
“ah pois e sim. o mais certo apastoreiro!” – ele.
e entrando em explicamentos:
“no canto do grilo as estrelas rebrilham, acendidas.
comungam luz, iluminam poeiras, universais versos.
de tanto desconhecimento em medições
o grilo ganha é abraço com estrelas;
de tanta chãotoria
o grilo estreia é intimidade com a magia”;
mas elas altíssimas, despenduradas,
o grilo aquieto – patas impostas em húmida terra.
mas barbosa:
“estrela é brilho de sonho,
é rebanho manso, em simplicidades disponíveis.
não queria indagar mistérios.
somente dê-se a ouvitudes: ausculte o grilo,
esse pastor de estrelas…”
entorno crenças, desfalecências.
arre e pio-me de silêncios.
o grilo é um adormecedor de inquietudes.
cessa o canto, o encanto,
vincadas de negrume, as estrelas grilaram-se
para sonos.
Adormecimentos provisórios.

Ondjaki

segunda-feira, 22 de março de 2010

Canção para Luanda

a pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
- luanda onde está?



silêncio nas ruas
silêncio nas bocas
silêncio nos olhos



- xé
mana rosa peixeira
responde?



- mano
não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!



"ola almoço, ola almoçoéé
matona calapau
ji ferrera ji ferrerééé"



- e você
mana maria quitandeira
vendendo maboque
os seios-maboque
gritando
saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
"maboque m'boquinha boa
dóce dócinha"



- mano
não pode responder
o tempo é pequeno
para vender!



zefa mulata
o corpo vendido
baton nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo seu corpo
- seu corpo-cubata!
seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
- luanda onde está?



mana zefa mulata
o corpo cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
- precisa comer!



- mano dos jornais
Luanda onde está?
as casas antigas
 o barro vermelho
as nossas cantigas
tractor derrubou?



meninos nas ruas
caçambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?



- manos
rosa peixeira
quitandeira maria
você também
zefa mulata
dos brincos de lata
- Luanda onde está?



sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana rosa peixeira
quitandeira maria
zefa mulata
- os panos pintados
garridos
caídos
mostraram o coração:
- luanda está aqui!



Luandino Vieira

domingo, 21 de março de 2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

Canção para Milton do Nascimento

a lonjura da tua voz não é apenas dos amplos vales de minas gerais:
abarca a negra imensidão do oceano azul que em galeras te levou
das praias invadidas do Congo, ndongo e Benguela,
alcança os planaltos ancestrais
de onde te arrancaram ao coração da terra,
sem suspeitar que na tua voz
ia a alma de todos os homens do mundo.

não são apenas os tambores de minas
que ressoam na tua voz:
nela brilham, suados e polidos,
os ngomas guerreiros de lunda,
os amorosos chocalhos ibéricos,
os doces e profundos atabaques ameríndios…

há na tua voz melodias de rouxinóis
e gritos desesperados de catetes e catituís,
serenas fontes e cascatas sanguinolentas,
como há pianos e tambores,
puítas e violinos,
flautas murmurantes,
ásperos e belos saxofones,
erguendo-se, como um halo de luz,
sobre os dilacerados quadris da memória reconstruída.

na tristeza da tua voz,
na alegria da tua voz

- a elementar coragem de cantar
Sozinho no meio da escuridão.

João Melo

quarta-feira, 17 de março de 2010

Concerto

som das marimbas
plácido devaneio.
a realidade nua
dividida ao meio.

dividida ao meio
é assim a vida?
os pólos unidos:
não obtido anseio.

som das marimbas
cascalhar de notas.
alguma vez as tivemos,
ou perdemos as rotas?

perdidas as rotas,
que amanhã nos vem?
cascalhar de notas
ou requiem por alguém?

som das marimbas
síncopes e trilos.
caminhos vedados
não soubemos cumpri-los.

som das marimbas
acorde perfeito.
quem ousará sonhar
um futuro inteiro.

Antero Abreu

segunda-feira, 15 de março de 2010

Branca Bola de Enguiço

numa branca bola de papel
sem princípio nem fim,
rolando pela calçada da glória
ora de baixo para cima
ora de cima para baixo
como bola de arlequim,
alguém escreveu minha história
que vai do princípio ao fim
em recortes de jornais.

borraram a bola toda,
a branca bola de lírio…
borrões de tinta nanquim
manchas informes, sem graça,
gesticulando em delírio!
borraram a bola toda
tapando pedaços de história
em recortes desiguais
que falavam bem de mim
- que falavam bem demais.
e a bola rola perdida
redonda como a cabeça
que fermenta a minha vida.

roda pela estrada longa
que nem sequer vai à tonga,
que desemboca na praça
política púdica e pública
sobre um arco de triunfo
com brilhantes de cafunfo
que passaram na kandonga!

e a branca bola de tinta
com manchas de tinta carmim,
rola cada vez mais lenta
do princípio ao fim,
toda borrada e sebenta
- mas com graça, mesmo assim,
como um palhaço teimoso
girando na praça cheia
dum público cheio de gozo!

até que um tipo mais drástico
venha quebrar o feitiço,
e pondo-lhe o dedo na ferida
faça rebentar o plástico
da branca bola do enguiço
entre o princípio e o fim
que foi toda a minha vida!

Henrique Abranches

sexta-feira, 12 de março de 2010

Amargos como os frutos

Amado, porque voltas
com a morte nos olhos
e sem sandálias
como se um outro te habitasse
num tempo
para além
do tempo todo


Amado, onde perdeste tua língua de metal
a dos sinais e do provérbio
com o meu nome inscrito


onde deixaste a tua voz
macia de capim e veludo
semeada de estrelas


amado, meu amado
o que regressou de ti
é tua sombra
dividida ao meio
é um antes de ti
as falas amargas
como os frutos

Paula Tavares

quarta-feira, 10 de março de 2010

Angola

não nasci do teu ventre
mas amei-te em cada primavera
com a exuberância de semente…


não nasci do teu ventre
mas foi em ti que sepultei
as minhas saudades
e sofri as tempestades
de flor transplantada
prematuramente…


não nasci do teu ventre
mas bebi o teu sortilégio
em noites de poesia
transparente…


não nasci do teu ventre
mas foi à tua sombra
que fecundei rebentos novos
e abri os braços
para um destino transcendente…


angola,
não eras terra do meu berço
mas és terra do meu ventre!

Amélia Veiga

segunda-feira, 8 de março de 2010

Carta dum contratado

eu queria escrever-te um carta
amor,
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio
de te perder
deste mais que bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue…



eu queria escrever-te um carta
amor,
uma carta de confidências íntimas,
uma carta de lembranças de ti,
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como macongue
dos teus seios duros como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí…
eu queria escrever-te uma carta
amor,
que recordasse nossos dias na capôpa
nessas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura
da nossa separação…



eu queria escrever-te uma carta
amor,
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses de papai bombo
que a sonegasses a mamãe kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo o kilombo
outra a ela não tivesse merecimento…



eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que ta levasse o vento que passa
uma carta que os cajus e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que se o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor…



eu queria escrever-te uma carta…



mas ah amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu – oh! Desespero! – não sei escrever também!



António Jacinto

domingo, 7 de março de 2010

sexta-feira, 5 de março de 2010

Programa

Para Miguel Torga

seja a poesia
o que nós quisermos que seja…
… não venha ao sabor do dia
porque os dias são instantes no caminho

-: não cante a voz
mais alto que nós!

António Neto

quarta-feira, 3 de março de 2010

Museu

de meus antepassados não recordo
mas invento em cada pedra colocada
em praças por seus braços noutros braços
onde pombas poisam e turistas fazem
souvenirs de sol e manuelinos

e pátrias não conheço

assisto aos exercícios outonais
da morte sem idade. do cremar
olhos na distância por noivas adiadas
e mãos correndo terços das velhas esperando
a morte simplesmente

e deuses não conheço

não fui navegador
embora me quisessem em vários continentes
em que sempre estive e disse nunca
para que naufragasse minha história com o peso
das grilhetas amarrado aos oceanos

e epitáfios não conheço

o que ergueram meus braços
não está em áfrica
a minha música
não está em áfrica
a minha estatuária
não está em África
idem para o meu marfim
as minhas lanças
os meus diamantes
o meu ouro
idem
idem
idem

Manuel Rui

segunda-feira, 1 de março de 2010

Poema do regresso

quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio
não me tragam flores.



tragam-me antes todos os orvalhos,
lágrimas de madrugadas que presenciaram dramas.
tragam-me a fome imensa de amor
e o queixume dos sexos túrgidos na noite constelada.
tragam-me a noite longa de insónia
com mães chorando de braços vazios de filhos.



quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio,
não, não me tragam flores…



tragam-me apenas, isso sim
o último desejo dos heróis tombados ao amanhecer
com uma pedra sem asas na mão
e um fio de cólera a esgueirar-se dos olhos.



Jofre Rocha