sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Doçura

quando a fitei extasiado,
suas mãos pálidas, mimosas,
escolhiam frutas bem cheirosas
num recanto calmo do mercado.

e por mero acaso (eu sei!,
senhora minha desconhecida,
ai! Só por mero acaso…)
vossos olhos belos,
plácidos e meigos,
negros, fulgurantes,
sobre mim poisaram,
- p’ra logo se afastarem
Indiferentes, distantes…

ao compor na rede
a gostosa fruta,
um pouco vos baixastes,
e o decote largo
do vestido azul
afastou-se lento
como onda branda
de cansado mar…
sem indiscrição,
vi maravilhado
duas lindas dunas
cor d’areia fulva…

depois,
naturalmente,
sorrindo leve, leve,
pisando manso, manso,
(ai, se eu fora as pedras
duras do caminho)
andando lentamente,
seguiste vosso rumo,
senhora, minha desconhecida…

nesse rosto mato
mórbido, estranho,
vi a cor suave
duns certos poentes
mágicos de Angola.
Vossa boca em sangue
(oh acácias rubras
esplêndidas, ao sol!)
vossos olhos fundos
(oh noites de Luanda,
de estrelas apagadas!)
vosso corpo esbelto,
flexível, dolente,
(oh cadência doce
de batuque antigo!)
o eflúvio quente
o perfume fino,
uma claridade
astral e difusa
que vós derramais,
fizeram-me sentir
serdes vós, senhora
feliz possuidora
do divino dom
de saber amar.

por todo o vosso todo,
harmonioso e belo,
eu, poeta, pensei
com os sentidos ajoelhados:
- graças ao senhor,
eis uma mulher!
parece toda ela
transbordar de amor!

Maurício de Almeida Gomes

1 comentário:

romério rômulo disse...

amigos:
compareço e deixo um abraço.
romério