sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Chagas de salitre

olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
da carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.





olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.





olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos e gente.
olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mães do meu país.





olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.





olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.



Ruy Duarte de Carvalho