sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Chagas de salitre

olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
da carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.





olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.





olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos e gente.
olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mães do meu país.





olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.





olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.



Ruy Duarte de Carvalho

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

N’um batuque

n’um batuque hontem andei,
onde vi certa morena,
tão gentil era a pequena
que nem eu dizel-o sei
- como está? lhe perguntei
logo que de perto a vi,
- quer dansar? lhe repeti,
não se acanhe minha bella, -
- tunda bôbo, me disse ella,
ou antes: - saia d’aqui
- seja meu par, oh menina
não se zangue por tão pouco; -
- Uá salúca, é você louco,
gámessenâ’me qu’quina
- desse olhar a luz divina
fascinado me deixou!
se um beijinho, só, lhe dou
gozarei prazer infindo, -
- quicóla, me disse, rindo,
logo de mim, se affastou.
- porque foge? venha cá,
porque só me deixa aqui? –
- uá mono… mundele inhi…
guami’âme… ndé cuná
- por favor, não se vá já,
é ainda muito cedo, -
- quiússuca, disse a medo
a moreninha tão linda
caté mungo, disse ainda,
e retirou-se em segredo…


Eduardo Neves

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Asas partidas

sou uma andorinha ferida
uma andorinha a que um rapaz mau quebrou as asas.

já não é meu o céu infinito
nem o baloiçar nos ramos mais altos;
ando no chão... no chão como as pedras!
ah! deixa-me ficar no côncavo morno da tua mão...

os dedos do vento
já não brincam comigo nas alturas.
mas aperta-me tu com os teus
no morno côncavo da tua mão!

flores perfumadas! voar
rente a elas outra vez... quem dera!
quem me colasse as asas partidas...
ah! dá-me o perfume quente da tua mão...

amei a cadência das cores vivas
nos meus voos ligeiros:
adorei a profundeza da noite,
faulhando estrelas, no meu ninho.
e agora...

oh! deixa-me ter a sensação das cores
no escuro da tua mão fechada!

Ermelinda Pereira Xavier

domingo, 21 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Poeira

quero ser poeta hoje
contigo...
vaguear nas chanas
dos teus olhos
com o feitiço alado
deste poema
transformado em pó...
poeira fingida
de ilusão
a esvair-se lentamente
na ampulheta
que cada um de nós
guarda no peito...

Jorge Arrimar

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Paganus

adoraria o Sol o Mar
e o murmúrio da Natureza.
o correr infinito dos rios
e toda a fremente beleza
da Vida e do luar beijando
prata nos lábios azeviche da Noite.


morreria pagão, assim,
sem nenhum deus por definição
não fosse este acreditar
num Deus do perdão...
mas hoje, morto, assassinado
no altar profano da religião.

Namibiano Ferreira

domingo, 14 de fevereiro de 2010





"A Cubata", pintura de Neves e Sousa

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Doçura

quando a fitei extasiado,
suas mãos pálidas, mimosas,
escolhiam frutas bem cheirosas
num recanto calmo do mercado.

e por mero acaso (eu sei!,
senhora minha desconhecida,
ai! Só por mero acaso…)
vossos olhos belos,
plácidos e meigos,
negros, fulgurantes,
sobre mim poisaram,
- p’ra logo se afastarem
Indiferentes, distantes…

ao compor na rede
a gostosa fruta,
um pouco vos baixastes,
e o decote largo
do vestido azul
afastou-se lento
como onda branda
de cansado mar…
sem indiscrição,
vi maravilhado
duas lindas dunas
cor d’areia fulva…

depois,
naturalmente,
sorrindo leve, leve,
pisando manso, manso,
(ai, se eu fora as pedras
duras do caminho)
andando lentamente,
seguiste vosso rumo,
senhora, minha desconhecida…

nesse rosto mato
mórbido, estranho,
vi a cor suave
duns certos poentes
mágicos de Angola.
Vossa boca em sangue
(oh acácias rubras
esplêndidas, ao sol!)
vossos olhos fundos
(oh noites de Luanda,
de estrelas apagadas!)
vosso corpo esbelto,
flexível, dolente,
(oh cadência doce
de batuque antigo!)
o eflúvio quente
o perfume fino,
uma claridade
astral e difusa
que vós derramais,
fizeram-me sentir
serdes vós, senhora
feliz possuidora
do divino dom
de saber amar.

por todo o vosso todo,
harmonioso e belo,
eu, poeta, pensei
com os sentidos ajoelhados:
- graças ao senhor,
eis uma mulher!
parece toda ela
transbordar de amor!

Maurício de Almeida Gomes

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sarita

sarita mora no musseque,
sofre no musseque,
mas passeia garrida na baixa
toda vermelha e azul,
toda sorriso branco de marfim,
e os brancos ficam a olhar,
perdidos no seu olhar.
sarita usa brincos amarelos de lata
penteado de deusa egípcia
andar de gazela no mato,
desce à cidade
e sorri para toda a gente.
depois , às seis e meia,
sarita vai viver pró musseque
com os brancos perdidos no seu olhar!

António Cardoso

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Contratados

vinham ao longe
aglutinados
baforada de sussurros no horizonte
como ressonâncias fundas de uma força.

força que é penhor de gemidos
de levas passadas
que arrastaram pobres.

vinham ao longe
em conversas vagas
na tarde baixa ressumando dobres.

Arnaldo Santos

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Poema da manhã cinzenta na beira do mar

o azul mar único do mar.
o cinzento céu único do céu.
eu agora eu único
carícia vaga das águas!

mar moça! beça-ngana!
teus dedos, infinitamente múltiplos,
ou teus cabelos líquidos de ondina,
carícia de tua presença
no meu corpo!

esta manhã sem sol: vida!
esta espera de chuva: vida!
chuva sobre o mar: vida!

ó pescador solitário olhando o céu e o mar
dongo na praia indeciso
receio das redes escondidas no capim
pescador:
tua mulher terá peixe
para vender no mercado?
carícia longa das águas!
espera triste da chuva!
espera-arrepio na promessa cinzenta do céu!
quem lhe falou na beleza desta tarde? tão só
e a inquietação e longe o amor e o sonho… tão sós
tudo descansa em nossas mãos caídas!

Mário António

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Se o fogo das queimadas

se o fogo das queimadas
fosse a vida
a vida não valia o sacrifício
há muito que o sonho se perdera…

as queimadas devoram as anharas
e o fogo apaga-se com a morte.

no capim, que não espera por novembro
e pulsa verde
gritante à beira do caminho
é que está a vida.

Costa Andrade

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Luanda

Gosto dela à noite
a horas esquecidas

gosto dela quando mais
ninguém anda cá fora
e a sinto toda minha…

o seu corpo grande e negro
é quente e generoso,
e os ruídos no escuro
cães ladrando, carros longe
galos, meninos chorando…
fazem uma sinfonia
morna, calma e tropical
como se fosso o respirar
de alguém que descansa.

é por isso

que eu gosto de Luanda
a horas esquecidas…

olho o seu corpo, grande,
o seu corpo negro e generoso
e sinto uma ternura especial

como se fosse o corpo conhecido
duma amante saciada e adormecida
que se olha com amor e com cansaço
e depois se recorda com saudade.


Neves e Sousa