quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Não me peças sorrisos

não me exijas glórias
que ainda transpiro
os ais
dos feridos nas batalhas

não me exijas glórias
que eu sou o soldado desconhecido
da humanidade

as honras cabem aos generais

a minha glória
é tudo o que padeço
e que sofri
os meus sorrisos
tudo o que chorei

nem sorrisos nem glória

apenas um rosto duro
de quem constrói a estrada
por que há-de caminhar
pedra após pedra
em terrreno difícil

um rosto triste
pelo tanto esforço perdido
- o esforço dos tenazes que se cansam
à tarde
depois do trabalho

uma cabeça sem louros
porque não me encontro por ora
no catálogo das glória humanas

não me descobri na vida
e selvas desbravadas
escondem os caminhos
por que hei-de passar

mas hei-de encontrá-los
e segui-los
seja qual for o preço

então
num novo catálogo
mostrar-te-ei o meu rosto
coroado de ramos de palmeira

e terei para ti
os sorrisos que me pedes.

Agostinho Neto