sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Namoro

mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de novembro brincando de artistas nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia – era sumaúma...
sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo...
tão rijo e tão doce – como o maboque...
seus seios, laranjas – laranjas do loje
seus dentes... - marfim...
mandei-lhe essa carta
e ela disse que não-

mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou:
“por ti sofre o meu coração”
num canto – sim, noutro canto – não
e ela o canto do não dobrou-

mandei-lhe um recado pela zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela senhora do cabo, pela santa ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
e ela disse que não-

levei à avó chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
e o feitiço falhou.

esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da missão,
ficamos num banco do largo da estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
procuraram por mim
“ – não viu... (ai não viu...?) não viu benjamim?”
e perdido me deram no morro da samba.

para me distrair
levaram-me no baile do sô januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do bairro operário

tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
e a malta gritou: “aí benjamim!”
olhei-a nos olhos – sorriu para mim
pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim.

Viriato da Cruz

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