quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Mulher negra

mulher sofredora
sem lágrimas de pranto
cadela de filhos roubados
afogados e açaimados
mulher do branco
prostituta dos matos e das ruas fáceis
mulher dos seios amplos cujas tetas
de loba amamentam filhos
-rómulo e remo –
dos espólios do seu ventre
mulher besta-de-carga da lavra
e do pão da boca dos filhos
mãe de filhos abandonados
amparados nos seus braços
estranhos e banidos
no instinto de repulsa
das duas cores
entre as duas cores
do arco-íris da terra
entre os seus braços
o único refúgio
o certo amparo
o seguro refúgio
dum coração sereno

mãe
mulher das longas vigílias da febre
do sertão
travesseiro e amparo
num coração desamparado
dando-se sem esperança
mulher de corpo gasto
sem lábios já para sentir
o travo da traição
mulher que deixa o cadáver insepulto

às hienas e à noite
de animal abandonado
mãe dos filhos abandonados
mãe dos filhos que matam por vingança
mar dos filhos que procuram redimir
a carne dos pecados do mundo
mãe do alento da última esperança
mãe cujos filhos saberão
saber dos privilégios
das tuas virtudes
e dar a mão a todos os homens
na face da terra

mãe
nada pelo que passaste
e sofreste
mãe
será em vão

Alexandre Dáskalos

1 comentário:

Moacy Cirne disse...

Um belo poema.
Forte e belo.
Tristemente verdadeiro.

Kandandu.