quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Canto de nascimento

aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

as mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

uma dor fina
a marcar os intervalos do tempo

vinte cabaças de leite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito

sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

as velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.

esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio
enquanto as crianças
seus pequenos sonhos de leite.

Paula Tavares

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