segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A mulemba secou

a mulemba secou.

pisadas
por toda a gente,
ficaram as folhas
secas, amareladas

a estalar sob os pés de quem passava.

depois o vento as levou…

como as folhas da mulemba
foram-se os sonhos gaiatos
dos miúdos do meu bairro.

(de dia,
espalhavam visgo nos ramos
e apanhavam catuituis,
viúvas, siripipis
que o chiquito da mulomba
ia vender no palácio
numa gaiola de bimba.

de noite,
faziam roda, sentados,
a ouvir,
de olhos esbugalhados,
a velha jaja a contar
histórias de arrepiar
do feiticeiro catimba).

mas a mulemba secou
e com ela,
secou também a alegria
da miudagem do bairro:

o macuto da ximinha
que cantava todo o dia
já não canta.
o zé camilo , coitado,
passa o dia deitado
a pensar em muitas coisas.
e o velhote camalindo,
quando passa por ali,
já ninguém o arrelia,
já mais ninguém lhe assobia,
já faz a vida em sossego.

como o meu bairro mudou,
como o meu bairro está triste
porque a mulemba secou…

só o velho camalundo
sorri ao passar por lá!...


Aires de Almeida Santos

3 comentários:

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Como posso esquecer este poema??
Foi o primeiro poema de temática angolana que eu li... há 40 anos e modestamente acho que a minha poesia ainda se encontra marcada por ele.
Kandandu & Bom Ano Novo!

Namibaino Ferreira

Moacy Cirne disse...

Que belo poema!
Infelizmente, não o conhecia.

Um grande 2010.

viajantes disse...

deixou-me uma lagrimita... o "meu poema" que li e reli. dos que mais me marcou. vinha no meu livro de português na João Crisóstomo. continua a fazer-me sentir o cheiro da terra.
Belo presente.
Feliz Ano Novo!