quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Eu tenho os dias claros

eu tenho os dias claros
de sucessivas luas de setembro
e a noite que me impõe sinalizar
as direcções cruzadas das mensagens verticais.

eu estou parado no meio do terreiro
afastado dos meus passos e da minha gente,
ando a ganhar noções de translação
e a medir, pr’a meu governo, a cor do sol.

eu entardeço, sobretudo, pouco atento ao vento
que não devo perturbar na sua rota alheia.
permito , quando muito, que me sinta o cheiro
e deixo-o desfazer, furtivamente, molhos já secos de memória fêmea.

eu sinto que não sei de elásticas tensões de claridade
e a cada passo meu faço estalar
membranas frias que a tarde debruou em rente azul.

entendes, companheiro,
eu estou aqui sentado e nu
a procurar não ir além da bárbara carícia
de um olhar sem tacto

e que nem uma lágrima machuque
a capa muito fina da lembrança
que tenho para dar-te.

Ruy Duarte de Carvalho

3 comentários:

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Sao, por certo, os dias claros do Namibe, muito boa escolha. Retribuo os votos para 2010 e traga-nos mais poesia angolana. Bem haja!
Kandandu

Madalena disse...

Que os seus dias se mantenham claros, Kinaxixi, para nos continuar a iluminar o espírito com a riqueza deste seu espaço, de expressão tão bela.
Obrigada por ele, por si.
Com um abraço e votos de um excelente 2010, pleno de Luz.

romério rômulo disse...

deixo um grande abraço.
romério