segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Espera

existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.

aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.

num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.

David Mestre

1 comentário:

Sentidamente disse...

Sou uma habitual leitora do seu blog. Consta da minha lista de blogues e sempre que lá me acusa uma nova publicação aqui estou a ler com todo o interesse o que nos vai mostrando sobre Angola e seus poetas. Hoje, vou deixar-lhe um poema de um deles, que muito recentemente encontrei numa antologia de poemas sobre o Natal e que publiquei no meu blog.

NOITE DE NATAL

Era noite de rixas a noite de Natal
No Morro desamparado ante a vinda do Homem;
As mesmas bebedeiras e o batuque
De um Sábado maior.

Na cubata de adobe,
Sob o imbondeiro tutelar,
Sem a ficção da chaminé
Para o menino entrar,
Era aí que esperávamos
Em esteiras sob o céu,
A Hora sem brinquedo algum…

E o tempo apenas se contava
Pelo pulsar
De pequeninos corações ansiosos,
Té o Sinal
Que era
Irrompendo na Noite
O canto dos alunos
Da Escola Missionária
Atravessando o Morro…

(- “Canários da Maianga” de Mestre Coelho,
Meninos sofridos de vozes límpidas,
Quantos silêncios vos esperariam?...)

Dormíamos então
Sob a impressão
De uma chuva de estrelas
- Presente de Natal.

Mário António


Obrigada e até sempre.