quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Eu tenho os dias claros

eu tenho os dias claros
de sucessivas luas de setembro
e a noite que me impõe sinalizar
as direcções cruzadas das mensagens verticais.

eu estou parado no meio do terreiro
afastado dos meus passos e da minha gente,
ando a ganhar noções de translação
e a medir, pr’a meu governo, a cor do sol.

eu entardeço, sobretudo, pouco atento ao vento
que não devo perturbar na sua rota alheia.
permito , quando muito, que me sinta o cheiro
e deixo-o desfazer, furtivamente, molhos já secos de memória fêmea.

eu sinto que não sei de elásticas tensões de claridade
e a cada passo meu faço estalar
membranas frias que a tarde debruou em rente azul.

entendes, companheiro,
eu estou aqui sentado e nu
a procurar não ir além da bárbara carícia
de um olhar sem tacto

e que nem uma lágrima machuque
a capa muito fina da lembrança
que tenho para dar-te.

Ruy Duarte de Carvalho

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A mulemba secou

a mulemba secou.

pisadas
por toda a gente,
ficaram as folhas
secas, amareladas

a estalar sob os pés de quem passava.

depois o vento as levou…

como as folhas da mulemba
foram-se os sonhos gaiatos
dos miúdos do meu bairro.

(de dia,
espalhavam visgo nos ramos
e apanhavam catuituis,
viúvas, siripipis
que o chiquito da mulomba
ia vender no palácio
numa gaiola de bimba.

de noite,
faziam roda, sentados,
a ouvir,
de olhos esbugalhados,
a velha jaja a contar
histórias de arrepiar
do feiticeiro catimba).

mas a mulemba secou
e com ela,
secou também a alegria
da miudagem do bairro:

o macuto da ximinha
que cantava todo o dia
já não canta.
o zé camilo , coitado,
passa o dia deitado
a pensar em muitas coisas.
e o velhote camalindo,
quando passa por ali,
já ninguém o arrelia,
já mais ninguém lhe assobia,
já faz a vida em sossego.

como o meu bairro mudou,
como o meu bairro está triste
porque a mulemba secou…

só o velho camalundo
sorri ao passar por lá!...


Aires de Almeida Santos

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Girassóis

tem girassóis amarelos
o meu quadrado de sol

a vida espancada passa
mas no quadrado de sol
aberto sobre o jardim
os girassóis amarelos
velhos
mostram o fim

Luandino Vieira

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Arte poética

versos
os que se escrevem com o pulso
quando nos cortam a mão
… e só então…
os que se datam com não-datas de calendário
mas datas de mortes ou de partos;
o tempo que leva uma criança a nascer
um cadáver a apodrecer
não são tempos que admitam rótulo
de anos e mês e hora
poesia
só a da agonia
que mata ou cria
poemas
só este
e os que escrevi e não escrevi quando morreste


António Neto (1928)
Nasceu em Luanda. Estudou no Lubango e em Lisboa, tendo-se licenciado em matemáticas tendo sido professor na universidade de Lisboa. Foi dirigente da Casa dos Estudantes do Império onde desempenhou um papel activo. Colaborou com a Mensagem, Cultura (II) e Momento.
Não encontro notícia deste poeta, mais uma pesquisa infrutífera,mas segundo o prof. Manuel Ferreira na sua obra de 1973, “No reino de Caliban”, Neto teria já abandonado a produção literária para se dedicar inteiramente aos estudos de matemática.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Podes chorar…

podes chorar
e fazer chorar as borboletas
no pó brilhante que se levanta
das estradas que percorres
sem sorrir,
porque nas órbitas dilatadas
de uma razão que se inventou
paira já um arco-íris de cristais
a reflectir a pureza
das lágrimas que choraste…

não houve só ódio na floresta
que o saber agora encerra
em túmulos de mármore
feitos com pedaços de verdade…

não bastará entender
que existiam crianças
ou a infância de muitos homens
para que o sol sa isenção
tenha tido que existir
na madrugada dos corações
que se coloriam de vida?

podes chorar
e fazer voaras borboletas
sobre as pétalas de um dia
polvilhado de sofrimento.
o teu nome esgueira-se
na névoa dos modelos
que inventaram para ti…
o teu corpo alvo prende-se
nas árvores esgalhadas
de todas as guerras
com que ornaram os teus cabelos
soltos ao vento das ambições…


Jorge Arrimar (1953)

Licenciado em História, nasceu na Chibia (Huíla). Na década de 70 fundou, com alguns amigos o Grupo Cultural da Huíla. Leccionou Português nos Açores e desde 1985 está radicado em Macau onde desempenhou o cargo de director da Biblioteca Nacional.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Natal (poema em prosa)

Há anos, na noite de Natal, numa cubata do mato angolense, uma família de tribo indígena, em cujos corações já soara a mensagem divina através da palavra portuguesa, celebrava, na sua ingenuidade pitoresca, o nascimento do Filho de Deus, à maneira da civilização cristã.

Havia uma nota originalíssima no figurativo quadro clássico. Ao canto da cubata estava construído um pequeno presépio feito de adobe, com capim e folhas de palmeira, com os reis magos e pastorinhos e, deitado em esteira de mabu, o monandengue Jesus, boneco feito de pau, pintado de preto.

Eis o milagre do amor no Natal de Cristo.
Há vinte séculos Jesus Cristo nasceu, numa manjedoura, em Belém de Judeia. Mas todos os anos através dos tempos, neste dia, ele nasce nos palácios sumptuosos e choupanas da Ásia, nas vivendas ricas e casinhotas da Europa, nos arranha-céus colossais e bairros pobres das Américas, nas cidades e vilas da África, sob a música dos sinos e das harpas, e já nas sanzalas típicas da África Negra, ao som dos quissanges e marimbas.
Na sua materialidade exótica, aquele quadro da cubata revelava a verdade eterna do espírito, não ofendida nem falseada: Jesus nasce no coração de cada ser humano, em todos os povos e raças, porque Ele é, milagrosamente, o Deus-Menino de toda a gente.

Geraldo Bessa Victor

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Oh flor da noite

oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris

teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um passado se esconde

teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um futuro se forma

oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris

Arlindo Barbeitos

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Espera

existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.

aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.

num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.

David Mestre

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Para pôr paz

libélulas avoam danças
aranhas cospem tranças;
morcegos ralham noites
ursos linguam potes;
rapozas agalinham-se
ondas engolfinham-se;
carochinha avoa voa
preguiça dorme à toa;
toupeiras entunam-se
grilos estrelam-se;
noites adescaem
estrelas agrilam-se
eu libelizo-me-



Ondjaki

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quissange – saudade negra

não sei, por estas noites tropicais,
o que me encanta…
se é o luar que canta
ou a floresta aos ais.

não sei, não sei, aqui neste sertão
de música dolorosa
qual é a voz que chora
e chega ao coração…

qual é o som que aflora
dos lábios misteriosa!

sei apenas, e isso é que me importa,
que a tua voz, dolente e quase morta,
já mal a escuto, por andar ausente,
já mal escuto a tua voz dolente…

que é o destino selvagem
duma canção em que tange
por entre a floresta virgem
o meu saudoso “Quissange”.


quissange, fatalidade
deste meu triste destino…
quissange, negra saudade
do teu olhar Diamantino.

quissange, lira gentia,
cantando o sol e o luar,
e chorando a nostalgia
do sertão, por sobre o mar.

indo mar’s fora, mar’s bravos,
em noite primaveril
acompanhando os escravos
que morreram no Brasil.

não sei, não sei,
neste verão infinito,
a razão de tanto grito…

- se és tu, ó morte, morrerei!

mas deixa a vida que tange,
exaltando as amarguras,
e as mais tristes desventuras
do meu amado quissange!

Tomaz Vieira da Cruz

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Vento de liberdade

das entranhas da terra
irrompe um vento alucinado
que varre… varre… varre
as folhas secas do mundo…

vento que geme e uiva fundo
e fere como punhais
o coração dos mortais…

vento horrível e cruel
que espezinha e enrodilha
e dá guerra sem quartel…

e ora rasteja em gemidos,
ora se eleva em furores
e uiva como um trovão,

mas em todos os sentidos
é VENTO DE LIBERDADE
que o pobre mundo assombrado
pretende reter na mão…



Amélia Veiga (1931)

Nasceu em Silves. Colaborou em Cultura (II)

domingo, 6 de dezembro de 2009



fotografia sacada de www.sanzalangola.com/

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O moringue

o sol queima as folhas das palmeiras
e os pés caminhantes sobre a areia
o sol que traz o vento e afasta o peixe
ele não esquentará a água do moringue.
não há sol no canto desta casa
há sombras dos luandos que fazem as paredes
a areia do chão traz a frescura da terra
os caniços dos luandos têm a frescura
que trouxeram das terras de cabiri
quando, de andar nas canoas, voltamos do mar
e a garganta vem a arder como se era sal
a água do moringue sabe-nos como nada mais.

e, a quem nos pede, com o coração alegre,
nós a oferecemos, nas canecas de esmalte.

Henrique Guerra

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A minha sina

é sem norte a minha vida,
e n’um mar revolto vivo;
escravo de dura lida
eu sou a tudo captivo;
atraz do ignoto corro,
e na lucta eu soffro, eu morro



Cordeiro da Matta