sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Nossa fome

tua fome, irmã,
sinceramente confessada,
sinceramente dita sem orgulho de pobre,
cheira a campo lavrado e a sol
e a seiva forte
irrompendo numa afirmação de vida!

tua fome
- a fome da minha boca
a fome das outras bocas jovens,
é a fome que exige pão
porque sabe que ele existe
e a ele tem direito.

por isso tuas palavras
não têm trémulos de vergonha e humilhação
mas o tom seguro
da petição justa e consciente.

tua boca pede luz para a tua alma
mas teu pedir é já um clarão aceso.

eu te digo que confies
e que esperes
e acalmes tua fome, irmã:
porque os campos estão grávidos
e aguardam a hora de florir
e frutificar.

que espere a tua ansiedade,
o dia surgirá fatal, no tempo.
então minha mão
e a tua
e a de todos os outros
- as mãos de todos os que têm fome –
tomarão sua parte de alimento.
espera, irmã
espera que venha a hora-do-fruto
apagar a fome de todas as bocas.

Ermelinda Pereira Xavier

1 comentário:

Ana Tapadas disse...

Gostei muito deste poema.
beijinhos