segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Maio palustre

a lagoa do meu kimbo
não reflecte a lua
mas a mágoa dos homens de maio.

à prata morta das águas
mordo as pitangas de maio
frutos túrgidos de sangue
sabor lacustre disforme palustre
de morte e esquecimento...

a lagoa do meu kimbo
não reflecte a lua
mas as máscaras gota a gota caindo
lágrimas no corpo morcego da noite
e dos ramos calcinados das árvores
libertam-se fantasmas aspros de veludo
amortalhando os meus olhos de maio
vestindo ébano coalhado de cadáveres
e perfumadas ptomaínas.


Namibiano Ferreira

domingo, 29 de novembro de 2009

"Ecce Homo", pintura de Fernando Campos (acrílico s/ tela, 50x70)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Nossa fome

tua fome, irmã,
sinceramente confessada,
sinceramente dita sem orgulho de pobre,
cheira a campo lavrado e a sol
e a seiva forte
irrompendo numa afirmação de vida!

tua fome
- a fome da minha boca
a fome das outras bocas jovens,
é a fome que exige pão
porque sabe que ele existe
e a ele tem direito.

por isso tuas palavras
não têm trémulos de vergonha e humilhação
mas o tom seguro
da petição justa e consciente.

tua boca pede luz para a tua alma
mas teu pedir é já um clarão aceso.

eu te digo que confies
e que esperes
e acalmes tua fome, irmã:
porque os campos estão grávidos
e aguardam a hora de florir
e frutificar.

que espere a tua ansiedade,
o dia surgirá fatal, no tempo.
então minha mão
e a tua
e a de todos os outros
- as mãos de todos os que têm fome –
tomarão sua parte de alimento.
espera, irmã
espera que venha a hora-do-fruto
apagar a fome de todas as bocas.

Ermelinda Pereira Xavier

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

3ª Canção de amor

1 – noite do nosso casamento
as estrelas vestidas com a pele dos teus seios
entornam nos caminhos do vento
o imbu dos tundanda
esvaziando as barrigas inúteis
Nzambi-ikola

os pássaros trazem nos seus ventres
abertos pelos crocodilos
o teu pano de kakulakaji e o meu lusselu
e cantam na voz seca dos veleiros
Nzambi-ikola

as vísceras das serpentes cobrem os céus
com a esponja das sombras
no mulemba do nosso diembu
Nzambi-ikola

nas águas e a força dos antepassados
enche as florestas com presságios
nos mastros dos desejos
Nzambi-ikola

2 – noite do nosso casamento
lavei meu corpo com água de folhas de imbondeiro
pus nos meus olhos os diamantes do teu uanga
e nas minhas mãos os nevoeiros das montanhas
para encher as cabaças de muanza

com a minha azagaia
furarei a corolas das abelhas
para encher de mel e sol
a quinta que levo para ti

e na esteira que te ofereci
para a nossa noite primeira
coloquei a tua missanga do kussukula-kikumbi

nela vamos tecer com o sangue dos bovídios
o poema-diamba do nosso amor
no afago do sexo

Samuel de Sousa

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Síntese telúrica

no desejo proscrito
o corpo sorriso
olhar confidente
e mais o teu beijo

na poalha do sol poente
na linha azul da maresia que arde
vozes e passos de crianças
féerica síntese humana
para que não se morra amanhã

na vincada formulação do fruto
na docilidade agressiva da semente
amorosamente até a pedra se abre
a raiz penetra deflorando o futuro

na cadência das palavras semeadas
como poema lavrado de esperança
o sémen inscrito
na terra que juro

Tomaz Jorge

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O homem canta

ouvi os meus lamentos
que são segmentos
de recta no espaço.
ouvi as minhas dores
que são flores
trazidas no regaço.
ouvi os meus queixumes
gumes
de rígido aço.
ouvi-as se quiserdes
e puderdes.
ouvi-as e entendei-as.
não são bonitas nem feias,
são sinceras.
a sua idade mede-se pela das eras
surgiram com o primeiro dia.
a luz que as alumia
é só a do tempo no infinito.


as minhas dores, às vezes
transformam-se em grito.
e então a terra treme
e freme
como o dorso do animal que se acaricia.
e é um dia diferente o novo dia
e é um mundo diferente o que então brota.
como a lava do vulcão que queima
- e purifica –
as minhas dores mordem as raízes
e a terra fica mais rica.

mas não morrem – ó infelizes –
não morrem as minhas dores.
eu as reconheço às minhas flores,
outras novas flores as minhas dores…
a sua idade mede-se pela das eras,
a luz que as alumia
é só a do tempo no infinito.
diferentes do velho para o novo dia,
dores flores, dores grito,
ondas no dique quebrando…
minhas dores, ó minhas dores,
até quando?...

Antero Abreu

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Uma canção na noite

anda subtilmente no ar
uma canção qualquer…
vem do escuro, do vago, da noite..
porque lá fora é noite
e a história da noite,
da vida, do mundo,
freme na voz dessa canção.

e eu quero ser voz e ser acção!
na minha frente o papel branco
espera, espera, espera…
por tudo quanto eu tenho p’ra dizer-lhe,
e que o pode tornar numa canção de gesta
do mundo que há-de vir,
num ai de amor,
numa blandícia, num suspiro,
numa bandeira ao vento
a rasgar o vento
com o traço de uma ideia…

mas lá do escuro da noite
vem uma canção…
em que parte da alma é que dói,
quando se é novo e triste e se está só,
e há uma voz que resvala
por remotos caminhos, p’ra nos dizer
aquilo que a nossa boca sem fala
calou?

e a inspiração morreu…
papel, caneta e tinta
fogem-me na sombra.
a canção é a vida,
a canção é o mundo,
a canção é o amor.

Anda subtilmente no ar
Uma canção qualquer…
A canção sou eu!

Lília da Fonseca (1916-1991)

Maria Lília Valente da Fonseca Severino nasceu em Benguela. Jornalista e escritora de literatura infantil, fixou-se desde criança em Portugal. Foi um dos nomes destacados do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola (MNIA), criado em 1948 e que tinha como lema "Vamos descobrir Angola".
Foi redactora do jornal “A província de Angola” e possui colaboração em vários jornais e revistas.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O tocador de dicanza

será monótono o ritmo da dicanza?
toca, ó tocador, tua música estranha!
burdona o teu bordão bordões ecoando
ora em estrídulo grito, ora em afago brando.

corres do teu bordão as notas baixas
como baixando a voz, a mão se baixa
sobre o corpo dormindo: “hoje
que dormes no quintal, a minha mão procura
o teu corpo que sempre a ela foge!”

e são luares nocturnos, tocador,
os brancos que reluzem em tua face.
vozes de vento e espírito, as que sobem
Do fundo mar do oco da dicanza.

já ergues em falsete a tua voz:
“não saias, meu filho! Tu não saias”
E o tom constela a negra, pressentida
Desgraça já chorada.

e – “galinhas de tua mãe,
quem as roubou?” – já vibras, tocador,
e o teu boerdão se queixa,
em urros de leão e balidos de seixa.

caem teus braços feridos, tocador,
por que perdida bala? Como lebre na toca
o instrumento se cala.
e já nos chega o sono, lento, lento…

Mário António

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

África

esta é a terra
sem nome, sem homens,
grande e antiga
terra minha,
espaço sem dimensão,
horizonte imóvel
na extensão planetária.
não há nada para cobiçar;
não tem dono
a sua grandeza imensa,
jaz apagado o diamante,
anónimo está o ouro,
arde o ferro
na massa subterrânea,
falta personalidade à prata.

não há nada para cobiçar;
só silêncio,
só terra grande,
sem nome,
sem homens,
grande e antiga
terra minha.

Manuel dos Santos Lima

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Bandeira

é um braço de fevereiro e outro de novembro
que te içam.

os nossos olhos sobem lentamente
a ver teu desfraldar a noite as cores antigas
o vermelho e o preto.

bandeira catana de campesina luta
aliança na roda
dentada proletária força
sem fim até ao brilho sem limite
da estrela.

eles vinham pelo norte e pelo sul
para estar hoje mas não chegaram.

e de ti o luar começa a ser inveja!

olhamos-te bandeira agora
e vamos percorrer contigo este país
até semearmos novembro em toda a parte.

Manuel Rui

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uíge

um sonho vesperal me toma
sonolento
e traz-me o peso enorme das montanhas
azuis
como céus profundos

e esse abraço de serra, húmus e sonho
como meditando na distância
ergue mansamente a mão fechada
e caminha para o sol
que vai poente…

mas de repente
o instinto azul da serra estende-se solene
e esmaga as luzes da cidade

na minha mão
fica uma cova de sombras

Arnaldo Santos

domingo, 8 de novembro de 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Canto interior de uma noite fantástica

sereno, mas resoluto
aqui estou – eu mesmo! – gritando desvairado
que há um fim por que luto
e me impede de passar ao outro lado.

ante esta passagem de nível
nada de fáceis transposições
do lado de cá – pareça embora incrível
é que me meço: princípio e fim das multidões.

não quero tudo quanto me prometem aliciantes
nada quero, se para mim nada peço,
o meu desejar é outro – o meu desejo é antes
o sesejo dos muitos com que me pareço.

quem quiser que venha comigo
nesta jornada terrena, humana e sincera
e se for só – ainda assim prossigo
num mar de tumulto, impelindo os remos sem galera

que venham glaucas ondas em voragem
que ardam fogos infernais
que até os vermes tenham a coragem
de me cuspir no rosto e no mais.

que os lobos uivem famintos
que os ventos redemoinhem furiosos
que até os répteis soltem seus instintos
e me envolvam traiçoeiros e viscosos.

que me derrubem e arremessem ao chão
que espezinhem meu corpo já cansado
à tortura e ao chicote ainda responderei não
e a cada queda – de novo serei alevantado.
e não transportarei a linha divisória
entre o meu e o outro caminho
mesmo que a minha luta não tenha glória
é no campo de combate que alinho.

assim continuarei a lutar, ai a lutar!
num perigoso mar de paixões e escolhos
e – companheiros – se neste sofrer me virdes chorar
não acrediteis em vossos olhos!

António Jacinto

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Chuva

cai a chuva
no silêncio da noite!
e o seu canto
são lágrimas que enternecem
e o som dela
são cordas de uma harpa.
dedilhadas
por mãos invisíveis,
que os dedos esguios do vento
fazem vibrar
num lamento.
cai a chuva
de encontro à janela!
Há na escuridão
Visões de tristeza!

e ouvindo-a correr pelo chão
visto o sonho
de encanto e beleza!

Maria Joana Couto

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Mamã negra (Canto de esperança)

tua presença, minha mãe – drama vivo duma raça
drama de carne e sangue
que a vida escreveu com a pena de séculos.

pela tua voz
vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais dos seringais dos algodoais…

vozes das plantações da Virgínia
dos campos das carolinas
alabama
cuba
Brasil…
vozes dos engenhos dos Bangués das tongas dos eitos das pampas das usinas
vozes do harlem district south
vozes das sanzalas
vozes gemendo blues, subindo do Mississípi, ecoando dos vagões.
vozes chorando na voz de carrothers:
lord god, what will have we done
vozes de toda a américa. vozes de toda a África.
voz de todas as vozes, na voz altiva de langston
na bela voz de guillén…
rebrilhantes dorsos aos sóis mais fortes do mundo
rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor amaciando as mais ricas terras do mundo
rebrilhantes dorsos (ai a cor desses dorsos…)
rebrilhantes dorsos torcidos no tronco, pendentes da forca caídos por lynch.
rebrilhantes dorsos (ah, como brilham esses dorsos),
ressuscitados com zumbi, em toussaint alevantados.
rebrilhanres dorsos…
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da alma
evade-te, ó alma, nas asas da música!
… do brilho do sol, do sol fecundo
imortal
e belo…

pelo teu regaço, minha mãe

outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça…
santos poetas e sábios…
outras gentes… não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias
mais são filhos da desgraça
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo – folguedo…

pelos teus olhos, minha mãe
vejo oceanos de dor
claridades de sol posto, paisagens
roxas paisagens
dramas de cam e jafé…
mas vejo também (oh, se vejo…)

mas vejo também que a luz roubada aos teus olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora – como a certeza…
cintilantemente firme – como a esperança…
em nós outros teus filhos,
gerando, formando, anunciando:
- o dia da humanidade
O DIA DA HUMANIDADE…

Viriato da Cruz