ao artista desconhecido, autor da
mais conhecida escultura angolana
mais conhecida escultura angolana
ela está sentada,
a mãe-pensador.
está cuidadosamente sentada
entre a vida e a morte,
para lá de toda a gente.
ela está sentada,
a mãe-genitor,
sobre o seu andor.
mas não como a senhora dos ausentes.
nem como a virgem dos doentes,
nem como a nossa senhora das dores.
ela não tem nada
a mãe-pensador.
não tem morte
nem vida
nem sul
nem norte
nem cima nem baixo,
nem cor…
nem dó.
a mãe-pensador é nós,
na nossa mente.
ela é a nossa longa consciência.
Ela não tem senão um velho pó
Como palavras justas em roda duma oval.
ela não tem senão a força
e toda a ciência
da sua oval talhada
num pedaço de ideia universal.
sem contrair nenhum nervo,
sem pronunciar uma palavra
sem alargar o nó do seu dorso
ela é cereal na nossa lavra,
ela é uma luz no nosso acervo.
ela é nós, sem qualquer esforço.
mãe-pensador serena e nua
entre a morte eterna
e a vida imortal
tiradas um pouco a toda a gente
como um tributo à flor habitual
que fica entre o sul e a lua
eternamente…
ela está toda enrodilhada
em volta do seu nó
dentro do qual desfila em parada
toda a nossa miséria militante,
como num outro gueto, onde vive um povo
sem galileia nem Jericó
entre a paz e a guerra
entre cassinga e soweto,
nervoso e hesitante,
a mãe-pensador.
está cuidadosamente sentada
entre a vida e a morte,
para lá de toda a gente.
ela está sentada,
a mãe-genitor,
sobre o seu andor.
mas não como a senhora dos ausentes.
nem como a virgem dos doentes,
nem como a nossa senhora das dores.
ela não tem nada
a mãe-pensador.
não tem morte
nem vida
nem sul
nem norte
nem cima nem baixo,
nem cor…
nem dó.
a mãe-pensador é nós,
na nossa mente.
ela é a nossa longa consciência.
Ela não tem senão um velho pó
Como palavras justas em roda duma oval.
ela não tem senão a força
e toda a ciência
da sua oval talhada
num pedaço de ideia universal.
sem contrair nenhum nervo,
sem pronunciar uma palavra
sem alargar o nó do seu dorso
ela é cereal na nossa lavra,
ela é uma luz no nosso acervo.
ela é nós, sem qualquer esforço.
mãe-pensador serena e nua
entre a morte eterna
e a vida imortal
tiradas um pouco a toda a gente
como um tributo à flor habitual
que fica entre o sul e a lua
eternamente…
ela está toda enrodilhada
em volta do seu nó
dentro do qual desfila em parada
toda a nossa miséria militante,
como num outro gueto, onde vive um povo
sem galileia nem Jericó
entre a paz e a guerra
entre cassinga e soweto,
nervoso e hesitante,
mas não só.
ela está sentada num tronco de pau-preto
num taco de pau terra
com profundas raízes na nossa mente.
e é como o fluxo sintético
que vem pelo campo fora
repensando o povo
ao longo de um milénio,
mestiçando de novo
a consciência de agora,
irredutivelmente.
ela está sentada no seu génio hieráctico
sentada no seu modo diacrónico,
a porta do seu túmulo transparente.
ela geme imperceptivelmente
o seu gemido rouco e desarmónico
que soa em nós por dentro e por fora
num cântico diatónico.
ela não tem sombra
a mãe-pensador.
ela não tem bafo
nem sangue nem suor.
ela é a sombra
ela é o bafo
ela é o amor…
a mãe-pensador não está de pé.
cotovelos assentando nos joelhos
olhos cerrados em grão de café,
está sentada meticulosamente
escutando tudo
olhando toda a gente.
básica e serena como ela é,
vendo tudo detalhadamente.
mãe-pensador
mudamente ambígua…
tua cabeça pensa adormecida
o ser e o nada da nossa vida,
e murmura num gemido ritual
o som de tão perigosa vizinhança,
dessa misteriosa condição contígua
da derrota que precede a vitória da esperança.
e o som gemido, rouco e atonal
como a fórmula básica dum singular perito,
sonoriza a rigorosa oval
onde se debate o nó do conflito
que germina uma formosa ideia.
e as equações da morte e da vida
vão do principio ao fim do infinito
abraçadas entre as trevas e a luz
tecendo a nossa teia.
o teu cérebro antiquíssimo regista
essa unidade vagarosa, imemorial
que se cria pela história a perder de vista
e nada serpenteia.
a voz murmurada do cântico expontâneo
que exala da terra e se reproduz
pelas chanas arasadas do mussende
como prece pagã que repercute
no céu da catedral dum velho crâneo,
ressoa ainda uma cantata em ut,
rodopia ainda uma dança em redondo,
que foram missa negra em ditirambo
na belicosa véspera de kalendende,
na aurora sangrenta de angoleme akitambo
no raiar da vitória do kifangondo.
ela olha e vê
do seu toco de pau-tempo
a marcha saturnal de tanta gente
corrompendo a esperança,
activando os medos,
gargalhando as suas risadas soturnas
palavreando os seus discursos loucos.
os olhos apagados como estrelas diurnas,
ela olha e vê pelos seus longos dedos,
ela olha e vê paulatinamente
toda aquela gente
a morrer aos poucos.
com seu sorriso de estrela reservada
a mãe-pensador olha e vê,
os nomes que sobraram na história da coragem,
que não morrem aos poucos, nem tão pouco
doutra maneira mais sofisticada.
ela olha e vê do cimo do seu toco
seus antigos companheiros de viagem:
o príncipe ilunga – que recusou a guerra –
e a formosíssima princesa lweji,
amarem-se na paz e no calor da terra
de uma outra chana de lwameji
onde as begónias se cruzam com os fetos
mestiçando a flora.
ela olha e vê
pelo tempo fora,
o cortejo de filhos e de netos
dos filhos dos netos dos bisnetos,
habitarem cada campo e cada canto
desta pátria que foi mundo novo.
e a mãe-pensador
como quem cisma,
sorri então todo o seu espanto
e goza de olhos postos em si mesma
a formidável linhagem do seu povo.
ela está sentada num tronco de pau-preto
num taco de pau terra
com profundas raízes na nossa mente.
e é como o fluxo sintético
que vem pelo campo fora
repensando o povo
ao longo de um milénio,
mestiçando de novo
a consciência de agora,
irredutivelmente.
ela está sentada no seu génio hieráctico
sentada no seu modo diacrónico,
a porta do seu túmulo transparente.
ela geme imperceptivelmente
o seu gemido rouco e desarmónico
que soa em nós por dentro e por fora
num cântico diatónico.
ela não tem sombra
a mãe-pensador.
ela não tem bafo
nem sangue nem suor.
ela é a sombra
ela é o bafo
ela é o amor…
a mãe-pensador não está de pé.
cotovelos assentando nos joelhos
olhos cerrados em grão de café,
está sentada meticulosamente
escutando tudo
olhando toda a gente.
básica e serena como ela é,
vendo tudo detalhadamente.
mãe-pensador
mudamente ambígua…
tua cabeça pensa adormecida
o ser e o nada da nossa vida,
e murmura num gemido ritual
o som de tão perigosa vizinhança,
dessa misteriosa condição contígua
da derrota que precede a vitória da esperança.
e o som gemido, rouco e atonal
como a fórmula básica dum singular perito,
sonoriza a rigorosa oval
onde se debate o nó do conflito
que germina uma formosa ideia.
e as equações da morte e da vida
vão do principio ao fim do infinito
abraçadas entre as trevas e a luz
tecendo a nossa teia.
o teu cérebro antiquíssimo regista
essa unidade vagarosa, imemorial
que se cria pela história a perder de vista
e nada serpenteia.
a voz murmurada do cântico expontâneo
que exala da terra e se reproduz
pelas chanas arasadas do mussende
como prece pagã que repercute
no céu da catedral dum velho crâneo,
ressoa ainda uma cantata em ut,
rodopia ainda uma dança em redondo,
que foram missa negra em ditirambo
na belicosa véspera de kalendende,
na aurora sangrenta de angoleme akitambo
no raiar da vitória do kifangondo.
ela olha e vê
do seu toco de pau-tempo
a marcha saturnal de tanta gente
corrompendo a esperança,
activando os medos,
gargalhando as suas risadas soturnas
palavreando os seus discursos loucos.
os olhos apagados como estrelas diurnas,
ela olha e vê pelos seus longos dedos,
ela olha e vê paulatinamente
toda aquela gente
a morrer aos poucos.
com seu sorriso de estrela reservada
a mãe-pensador olha e vê,
os nomes que sobraram na história da coragem,
que não morrem aos poucos, nem tão pouco
doutra maneira mais sofisticada.
ela olha e vê do cimo do seu toco
seus antigos companheiros de viagem:
o príncipe ilunga – que recusou a guerra –
e a formosíssima princesa lweji,
amarem-se na paz e no calor da terra
de uma outra chana de lwameji
onde as begónias se cruzam com os fetos
mestiçando a flora.
ela olha e vê
pelo tempo fora,
o cortejo de filhos e de netos
dos filhos dos netos dos bisnetos,
habitarem cada campo e cada canto
desta pátria que foi mundo novo.
e a mãe-pensador
como quem cisma,
sorri então todo o seu espanto
e goza de olhos postos em si mesma
a formidável linhagem do seu povo.
Henrique Abranches (1932-2004)
Nasceu em Lisboa. Romancista, dedicou-se também à pintura e aos estudos etnográficos. Foi preso pela PIDE. Fundou em Argel, com Pepetela, o centro de Estudos Angolanos.
Foi membro fundador da União de Escritores Angolanos e da UNAP (União Nacional dos Artistas Plásticos).
Foi membro fundador da União de Escritores Angolanos e da UNAP (União Nacional dos Artistas Plásticos).
3 comentários:
Cada vez gosto mais do teu blogue, pois encontro aqui preciosidades!
Beijinho
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