sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A noite feita escura

nas avenidas da noite triangular
e nos rostos do horizonte acovo
sinto o palpitar do coração

do triângulo invertido.

nas extremidades do triângulo obscuro
torno a sentir as pulsações da artéria
congelada ao frio da noite.

com as unhas oferecidas às mãos de áfrica
fico a rezar nas lágrimas de África
chamando prenúncios

de um dia sem lágrimas.

e os dias de flores vão desabrochar
na área do triângulo invertido.

João Maimona

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Maurício de Almeida Gomes

De muitos dos poetas que aqui venho publicando não tenho notícia. Sobretudo dos de gerações muito anteriores à minha. É o caso de Maurício de Almeida Gomes. Como escrevi aqui no texto da sua apresentação, foi com mágoa que uma investigação na net se mostrou infrutífera. Quer no site da embaixada angolana em Lisboa, quer no site da União dos Escritores Angolanos. De outros poetas o mesmo. Achei até imperdoável. Portanto, os poemas de Maurício aqui publicados foram retirados da obra do saudoso professor Manuel Ferreira, professor da Faculdade de Letras de Lisboa e um especialista em literaturas africanas de expressão portuguesa, “No reino de Caliban”, publicado, é bom relembrar, em 1973. De Maurício de Almeida Gomes, um dos pioneiros da moderna poesia angolana só sabia que nasceu em 1920. Escrevi, na altura, que não sabia se ainda era vivo ou se já nos tinha deixado. Repito ser imperdoável não me ter sido possível encontrar algo sobre ele.
Até agora.
Um comentário de um seu neto informa-nos que esta referência da poesia angolana, nos seus quase 90 anos, está vivo e lúcido. Claro que nos regozijamos de tal notícia. Gostávamos de saber se ainda escreve, pois a única referência que temos, repetimos, é a obra de Manuel Ferreira.
Fica um pedido ao Ricardo Gomes: um grande abraço ao Maurício de Almeida Gomes.



Adenda às 08h53:
Na última Festa do Avante, há pouco mais de um mês, no pavilhão do MPLA comprei o livro do qual reproduzo a capa. Trata-se de uma antologia de poetas já falecidos, como o próprio sub-título indica. Nele encontrei Maurício de Almeida Gomes, com a informação do ano do nascimento, sem o ano da morte, que aparece em todos os outros. Convenci-me do desaparecimento do poeta mas que as autoras não sabiam o ano. Questão pacífica, portanto.
É durante esses mesmos dias na Festa do Avante que recebo o comentário do neto do poeta com a informação de que está vivo.
Ora a edição é da União dos Escritores Angolanos, com o Alto Patrocínio do primeiro-ministro do Governo de Angola. Tamanha gaffe, tamanho erro, tamanha incompetência, tamanha falta de rigor é, desculpem-me o termo, abominável. Uma das autoras da antologia é Chefe de Departamento de Serviços, a outra é editora e coordenadora do site da UEA.
Certo que Angola, e o meu MPLA, aderiu a essa nova moda de modelo social que mais não é que o exacerbar de um capitalismo fascizante, em que o único valor que conta é o lucro de uma minoria em detrimento de uma imensa maioria que compõe a sociedade. A globalização e o neo-liberalismo. Em Portugal passa-se o mesmo, com cargos de responsabilidade a serem distribuídos não na base da competência mas na base do clientelismo, por aqueles que prestam “valorosos” serviços aos partidos do poder que servem as classes que detêm o poder económico.
Deixo uma homenagem a todos, poetas ou não, nacionalistas angolanos e portugueses que deram, muitos deles, a vida, por um ideal de uma sociedade mais justa.
Os povos, todos os povos, vencerão.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O olho tridimensional

vejo: a suave abóbada celeste,
a gangrena vermelha
no alto da cabeça

vejo: a ave incorruptível
no intervalo dos espigões
de aço branco e dourado

vejo: o néon sedutor
das rútilas noites urbanas,
a mítica paz dos campos

vejo: as bunganvílias definhantes
da história podre do tempo,
os homens de olhos vazios

vejo: a face gorda da fome
nos vorazes baús
de estômago electrónico

vejo: a mulher de pernas
de negro veludo
e fina penugem trémula

vejo: a bomba cirúrgica
e seus dentes cegos,
a esperança clandestina dos mortos

vejo: a canção ardente
na esquina sombria da cidade
onde jaz o mendigo surdo

vejo: a branca lua enamorada,
o misterioso oceano
e seus peixes indefesos

vejo: a alma das breves tragédias,
os tristes tambores furiosos
e a magia da poesia

João Melo

sábado, 24 de outubro de 2009





O Pensador

A mais famosa e uma das mais belas estatuetas angolanas. De origem Chokwe, é uma referência e um símbolo da cultura angolana. Representa um idoso, homem ou mulher, que personifica a sabedoria e o conhecimento da vida. Feita geralmente em madeira, é uma popular peça de artesanato, como o Zé Povinho em Portugal ou John Bull na Inglaterra.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O pensador

ao artista desconhecido, autor da
mais conhecida escultura angolana


ela está sentada,
a mãe-pensador.
está cuidadosamente sentada
entre a vida e a morte,
para lá de toda a gente.
ela está sentada,
a mãe-genitor,
sobre o seu andor.
mas não como a senhora dos ausentes.
nem como a virgem dos doentes,
nem como a nossa senhora das dores.
ela não tem nada
a mãe-pensador.
não tem morte
nem vida
nem sul
nem norte
nem cima nem baixo,
nem cor…
nem dó.

a mãe-pensador é nós,
na nossa mente.
ela é a nossa longa consciência.
Ela não tem senão um velho pó
Como palavras justas em roda duma oval.
ela não tem senão a força
e toda a ciência
da sua oval talhada
num pedaço de ideia universal.

sem contrair nenhum nervo,
sem pronunciar uma palavra
sem alargar o nó do seu dorso
ela é cereal na nossa lavra,
ela é uma luz no nosso acervo.
ela é nós, sem qualquer esforço.

mãe-pensador serena e nua
entre a morte eterna
e a vida imortal
tiradas um pouco a toda a gente
como um tributo à flor habitual
que fica entre o sul e a lua
eternamente…

ela está toda enrodilhada
em volta do seu nó
dentro do qual desfila em parada
toda a nossa miséria militante,
como num outro gueto, onde vive um povo
sem galileia nem Jericó
entre a paz e a guerra
entre cassinga e soweto,
nervoso e hesitante,
mas não só.

ela está sentada num tronco de pau-preto
num taco de pau terra
com profundas raízes na nossa mente.
e é como o fluxo sintético
que vem pelo campo fora
repensando o povo
ao longo de um milénio,
mestiçando de novo
a consciência de agora,
irredutivelmente.

ela está sentada no seu génio hieráctico
sentada no seu modo diacrónico,
a porta do seu túmulo transparente.
ela geme imperceptivelmente
o seu gemido rouco e desarmónico
que soa em nós por dentro e por fora
num cântico diatónico.

ela não tem sombra
a mãe-pensador.
ela não tem bafo
nem sangue nem suor.
ela é a sombra
ela é o bafo
ela é o amor…

a mãe-pensador não está de pé.
cotovelos assentando nos joelhos
olhos cerrados em grão de café,
está sentada meticulosamente
escutando tudo
olhando toda a gente.
básica e serena como ela é,
vendo tudo detalhadamente.
mãe-pensador
mudamente ambígua…
tua cabeça pensa adormecida
o ser e o nada da nossa vida,
e murmura num gemido ritual
o som de tão perigosa vizinhança,
dessa misteriosa condição contígua
da derrota que precede a vitória da esperança.
e o som gemido, rouco e atonal
como a fórmula básica dum singular perito,
sonoriza a rigorosa oval
onde se debate o nó do conflito
que germina uma formosa ideia.
e as equações da morte e da vida
vão do principio ao fim do infinito
abraçadas entre as trevas e a luz
tecendo a nossa teia.

o teu cérebro antiquíssimo regista
essa unidade vagarosa, imemorial
que se cria pela história a perder de vista
e nada serpenteia.

a voz murmurada do cântico expontâneo
que exala da terra e se reproduz
pelas chanas arasadas do mussende
como prece pagã que repercute
no céu da catedral dum velho crâneo,
ressoa ainda uma cantata em ut,
rodopia ainda uma dança em redondo,
que foram missa negra em ditirambo
na belicosa véspera de kalendende,
na aurora sangrenta de angoleme akitambo
no raiar da vitória do kifangondo.

ela olha e vê
do seu toco de pau-tempo
a marcha saturnal de tanta gente
corrompendo a esperança,
activando os medos,
gargalhando as suas risadas soturnas
palavreando os seus discursos loucos.

os olhos apagados como estrelas diurnas,
ela olha e vê pelos seus longos dedos,
ela olha e vê paulatinamente
toda aquela gente
a morrer aos poucos.

com seu sorriso de estrela reservada
a mãe-pensador olha e vê,
os nomes que sobraram na história da coragem,
que não morrem aos poucos, nem tão pouco
doutra maneira mais sofisticada.

ela olha e vê do cimo do seu toco
seus antigos companheiros de viagem:
o príncipe ilunga – que recusou a guerra –
e a formosíssima princesa lweji,
amarem-se na paz e no calor da terra
de uma outra chana de lwameji
onde as begónias se cruzam com os fetos
mestiçando a flora.

ela olha e vê
pelo tempo fora,
o cortejo de filhos e de netos
dos filhos dos netos dos bisnetos,
habitarem cada campo e cada canto
desta pátria que foi mundo novo.

e a mãe-pensador
como quem cisma,
sorri então todo o seu espanto
e goza de olhos postos em si mesma
a formidável linhagem do seu povo.

Henrique Abranches (1932-2004)
Nasceu em Lisboa. Romancista, dedicou-se também à pintura e aos estudos etnográficos. Foi preso pela PIDE. Fundou em Argel, com Pepetela, o centro de Estudos Angolanos.
Foi membro fundador da União de Escritores Angolanos e da UNAP (União Nacional dos Artistas Plásticos).

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Luzem teus olhos

luzem teus olhos
atingidos já
pela ascendente
e vertical frieza
que te humedece a pele.

teu corpo
pouco a pouco
mergulha no vapor
que te dilata os poros
e enrijece a carne a desdobrar-se
em gotas de suor
amargo e frio.

arredonda-se mais
a curva do teu peito,
e a condição de fêmea
que te vive por dentro
desdobra-se em mucosa do avesso
p’ra te envolver
de glandular oferta.

mantens-te vertical
mas mal suportas já
a macieza nua
de finíssima pele
que te transforma agora
a carne em flor.

progressivamente o teu vestido
denuncia
o alterar de ondas de seda
à superfície:
dois botões de rosa
fechados
no teu peito,
uma orquídea madura,
recente e aberta,
no teu ventre.

pertences, consciente, à fina raça
que traz a carne alerta e não despreza
a voz subtil de indícios de arrepio.
a tua carne é uma maçã que herdaste
corajosa
porque não temes abrigar um fogo
destinado
a temperar de estrelas.

ateias de olhar firme a labareda que te adormece as coxas,
dilatas decidida a catedral do peito,
afastas-te de mim ganhando altura,
orbitas-te num gesto de mulher madura.

Ruy Duarte de Carvalho

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Paisagem

no fundo
além da fortaleza sonhadora,
das acácias em flor,
da cidade espalhada em colinas,
da cascata de vidros nas encostas,
do voo disparado daqueles patos
e do calor da tua mão,
no fundo,
feito paisagem indiferente,
o ruído do mar.

monótono , constante, distraído,
marcando-me o compasso ao pensamento.

e o põr-do-sol, as nuvens cor de fogo,
a cinza abrazada, um dongo na baía,
a fortaleza debruçada, além,
como quem espreita para além do mar…
toda a beleza cálida me fere.
só porque o mar,
monótono, indiferente,
repete aquelas frases, cáusticas, brutais,
que eu trouxe no meu peito com vinte anos
os versos de combate,
o meu olhar altivo,
as horas de visão
e os passos muito incertos e tão fortes
que eu sentia no rumo do futuro.

há uma sombra no céu
e uma névoa nos meus olhos.

as janelas apagam-se em penumbra,
o dongo atravessou a água mansa
e a tua mão aquece a minha mão.

e a tua mão aquece a minha mão.
crispas os dedos, sentes esta angústia:
a beleza completa-se com dor.

ao fundo, o mar,
o mar que nos embala e nos conforta,
o mar…
ó meu amor, e diz,
eu ouço, ele diz,
que a alma não está gasta,
a ânsia não está morta,
se os olhos são capazes de chorar!
Cochat Osório

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Negra!

I
negra! negra! como é a noite
d’uma horrível tempestade,
mas, linda, mimosa e bella,
como a mais gentil beldade!
negra! negra! Como a aza
do corvo mais negro e escuro,
mas tendo nos claros olhos,
o olhar mais límpido e puro!

negra! negra! como o ébano
sedutora como Phedra,
possuindo as celsas fórmulas,
em que a boa graça medra!
negra! negra!... mas tão linda
co’os seus dentes de marfim;
que quando os lábios entreabre,
não sei o que sinto em mim!...

II

só, negra, como te vejo,
eu sinto nos seios d’alma
ardêr-me forte desejo,
desejo que nada acalma.
se te roubou este clima
do homem a cor primeva;
branca que ao mundo viesses,
serias das filhas d’eva
em belleza, ó negra, a prima!...
gerou-te em agro torrão;
s’elevar-te ao sexo frágil
temeu o rei da criação;
é qu’és, ó negra creatura,
a deusa da formusura!...



Cordeiro da Matta

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Natal

branca roupa ao sol
pirrulas na mulemba
cantam chuva.

não há estrela guia
sol-cajú brilhando
pelos caminhos antigos
pés gretados batidos
vêm todos.
… vovô bartolomé enlanguecido
em carcomida cadeira acordado…
… sô santo
subindo a calçada
a mesma calçada que outrora descia…
… zito e dimingas
no maximbombo da linha 4…

…mussunda amigo
com a firme vitória da sua alegria…

e vêm também
vêm também
cheirando a suor
a buganvílias
a den den

pedro monangamba
olhos abertos de amor
na mão o ceptro
a pá de trabalhador.

pascoal
(ué ainda vivo velho pascoal?!)
a vassoura de mateba
a farda caqui
da câmara municipal.

de calumbo
o sol do cuanza
nos seios caju
docinha manga
trouxe jana.

vieram também
também vieram
algas verdes na garganta
os 3 magos da ilha
- ngoma, reco-reco e violão!

branca roupa ao sol
pirrulas na mulemba
não havia luar
porque a noite já não era
estrela-guia
e do ventre da mãe negra
o menino nascia.

Luandino Vieira

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Quando a manhã vier

quando a manhã vier
com um sol maduro
ofertando beijos
aos órfãos da ternura
quando a manhã vier
em apoteose de luz
a semear no vento
risos de alegria

quando a manhã vier
definitivamente
em alvorecer róseo
de paz e tranquilidade

de mãos nas mãos
saberemos chegado o nosso dia.

Jofre Rocha

domingo, 4 de outubro de 2009


"Mulher do Cuangar", pintura de Neves e Sousa

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Noite

a angústia dos teus lábios
esvoaça
pelo meu corpo
como fria aragem…


e toda a música
que os meus ouvidos ouvem
não é mais
que a dos loucos búzios enganadores


cerro as mãos
para guardar
esse murmúrio
quasi nada…


e com elas cerradas
permaneço até
que a madrugada
rompa…

Alda Lara