quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Fundo do mar

deitei-me ao teu olhar
e logo fui ao fundo…
é no fundo do mar
que o embalo é mais profundo…

andam gaivotas no ar,
tontas de luz e espaço,
e eu no fundo do mar
não sinto nem cansaço…

…nem quero salvação:
deixai-me naufragar
nessa doce prisão
do mar do teu olhar…
António Cardoso

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A minha terra

tem palmeiras de sombra copada
onde o soba de tribu selvagem,
em cr’avana de gente cançada,
adormece sequioso d’aragem.

impinado alcantil dos desertos
lá se aninha sedento leão
em covis d’espinhaes entr’abertos,
onde altivo repousa nochão.

nesses montes percorre afanoso,
a zagaia com força vibrando,
o africano guerreiro e famoso
a seus pés a panthéra prostrando.

não tem virgens com faces de neve
por quem lanças enriste donzel,
tem donzellas de planta mui breve,
mui airosas, de peito fiel.

seu amor é qual fonte de prata
onde mira quem nella s’espelha
a doçura da pomba qu’exalta,
a altivez, que a da fera simelha.

suas galas não são affectadas,
coração todo amor lhe palpita,
suas juras não são refalsadas,
no perjúrio a vingança crepita.

sabe amar! – mas não tem a cultura
desses lábios de mago florir,
em seu rosto se pinta a tristura,
os seus olhos tem meigo lusir.

Maia Ferreira

sábado, 26 de setembro de 2009

Jorge Macedo



O poeta e etnomusicólogo Jorge Macedo faleceu hoje em Luanda vítima de acidente cardio-vascular.
Quadro do Ministério da Cultura e membro da União dos Escritores Angolanos, Macedo foi distinguido, em 2005 com o Prémio Nacional de Cultura e Artes. Deixa-nos, assim, uma figura ímpar da Cultura angolana.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Porto

havia nos olhos postos o sentido
de não vencerem distâncias.
calados, mudos, de lábios colados no silêncio
os braços cruzados como quem deseja
mas de braços cruzados.

os navios chegavam aos portos e partiam.
os carregadores falavam da gente do mar.
a gente do mar dos que ficam em terra.
as mercadorias seguiam.
os ventos, dispersos na alma do tempo,
traziam as novas das terras longínquas.
segredavam-se em noites e dias
a todos os homens
em todos os mares
e em todos os portos
num destino comum.

Alexandre Dáskalos

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Cantiga para a Jinga da Maxinde

os olhos de sol
o sorriso de sol
o corpo de sol
percorro-te o corpo de sol
com minhas mãos de água em arco

(rebentaram os diques
e no pomar do itinerário da ave
que interrompeu o voo na seara
imolam-se os lacraus
e com as vísceras imolamos os barcos)

enchi as mãos de gotas de chuva
enchi a boca de selva de mangueiras
enchi os olhos com o silêncio dos teus olhos
eo coração com o teu amor

os moringues estão vazios
os moringues estão vazios

não temos mais marufu
as palmeiras estão secas
na minha armadilha apanhei uma perdiz
uma perdiz
uma perdiz que é para ti
meu amor
uma perdiz que é para o nosso funji

se fores à mulumbila
dá o recado ao dilamba
que me mande missanga
do kussukula

o sol dos teus olhos
o sol do teu sorriso
o sol do teu corpo
gotas de chuva enchendo a terra
fecundando a nossa lavra de milho
enchendo os nossos moringues


Samuel de Sousa (1927)


Natural do Ambriz. Concluiu o ciclo preparatório já depois dos vinte anos de idade. Trabalhou como funcionário público da administração civil. Foi preso em 1967 por estar ligado às actividades do MPLA. Vive actualmente em Luanda.

domingo, 20 de setembro de 2009

Morreu Costa Andrade



O deputado e poeta angolano Fernando Costa Andrade faleceu na última sexta-feira em Lisboa, aos 73 anos.
Poeta, ficcionista, ensaísta e pintor, tendo estudado arquitectura, foi também membro fundador da União de Escritores Angolanos.
Nacionalista, foi comandante da guerrilha na Frente Leste nos anos 60 e 70. Com vários pseudónimos literários, como guerrilheiro ficou conhecido por comandante Ndunduma Wé Lépi.
É uma perda irreparável para a Cultura angolana.

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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Aos irmãos

homens do mesmo chão
entrelaçai as mãos
e ficai firmes
e másculos em tudo
diante de tudo

ninguém deve morrer derrotado
morrer depois de cumprir
é o que a vida e a terra exigem

tu
filho da nossa mesma mãe
sê inteiro e vertical
em qualquer tempestade!

um dia
ao voltares à telúrica maternidade
não tragas os germes da cobardia
não infectes a terra-mãe-santa
com um sangue podre de falsidade

que a tua campa
não seja uma nódoa
no corpo e na carne da nossa mãe


Tomaz Jorge (1928-2009)

Filho do poeta Tmaz Vieira da Cruz, nasceu em Luanda.
Participou no movimento literário nacionalista “Vamos descobrir Angola” com outros intelectuais como Agostinho Neto, António Jacinto e Viriato da Cruz, pelo que foi várias vezes preso.
Foi membro fundador da União de Escritores Angolanos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Vieram muitos

"a massambala cresce a olhos nus"
vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos razos da poeira e da sede
e o gado perdido.
vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranquilas águas do lago.
vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.
ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a ohos nus.
partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeiras
levaram o gado gordo e as raparigas.
Paula Tavares (1952)

Natural da Huíla. Historiadora, mestre em literaturas africanas de expressão portuguesa. Membro do Comité Angolano do Conselho Internacional dos Museus, da Comissão Angolana para a UNESCO e da UEA.
Publicou em 1985 “Ritos de Passagem”, “O sangue da “, em 1998 e “O Lago da Lua” em 1999.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Sentidos

trazias o mar na aurora ocidental dos teus lábios
a passar ventos e salsugens de toninhas e kiandas;
chegaste do mar, kalunga a cantar o meu nome
e, estranhamente, no xinguilar dos dias
mordias bagos de jinguba nos dedos do olhar
a passar brisas a beijar ventos de kifufutila
doce veludo bailando no sopro sumaúma
soprado sobre a savana-púbis dourada do vento.


Namibiano Ferreira (1960)

Pseudónimo de João José Ferreira. Nasceu em Tombwa, deserto do Namib, no sul do país.
Tem participações em várias colectâneas, entre as quais a II Antologia de Poetas lusófonos. Não tem obra publicada, é no seu
blogue que vai publicando os poemas que acontecem, pois como ele diz, a poesia não se faz. Acontece.

domingo, 13 de setembro de 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Poema da Esperança

vozes vieram dos longes do mundo;
gritos soaram nos longes da noite;
braços se ergueram aos longes do céu:
homens partiram para os longes da morte;

… e os muros caíram!

as vozes se ouviram nos longes do mundo
cessaram os gritos
baixaram-se os braços
os homens voltaram.

as faces tisnadas sorriram de novo
os olhos nublados de novo brilharam.
Nas matas, as aves voltaram aos ninhos
E ao doce calor doirado do sol.

As rosas abriram!

Aires de Almeida Santos

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sô Santo

lá vai o sô santo…
bengala na mão
grande corrente de ouro, que sai da lapela
ao bolso… que não tem um tostão.

quando o sô santo passa
gente e mais gente vem à janela:
-“bom dia, padrinho…”
-“olá…”
-“beçá cumpadre…”
-“como está?...”
-“bom-om di-ia sô santo!...”
-“olá povo!...”

mas porque é saudado em coro?
porque tem muitos afilhados?
porque tem corrente de ouro
a enfeitar sua pobreza?...
não me responde, av`naxa?

-“sô santo teve riqueza…
dono de musseques e mais musseques…
padrinho de moleques e mais loleques…
macho de amantes e mais amantes,
beça-nganas bonitas
que cantam pelas rebitas:

“muari-ngata santo
dim-dom
ual’o banda ó calaçala
dim-dom
chaluto um muzombo
dim-dom…”

sô santo…

banquetes p’ra gentes desconhecidas
noivado da filha durando semanas
kikoto e batuque pró povo cá fora
champanha, ‘ngaieta tocando lá dentro…
garganta cansando:
“coma e arrebenta
e o que sobrar vai no mar…”

“hum-hum
mas deixa…
quando o sô santo morrer,
vamos chamar um kimbanda
para ‘ngombo nos dizer
se a sua grande desgraça
foi desamparo de sandu
ou se é já própria da raça…”

lá vai…
descendo a calçada
a mesma calçada que outrora subia
cigarro apagado
bengala na mão…

… se ele é o símbolo da raça
ou vingança de sandu…

Viriato da Cruz