sexta-feira, 31 de julho de 2009

Venho de um sul

vim do leste
dimensionar a noite
em gestos largos
que inventei no sul
pastoreando mulolas e anharas
claras
como coxas recordadas em Maio.

venho de um sul
medido claramente
em transparência de água fresca de amanhã.
de um tempo circular
liberto de estações.

de uma nação de corpos transumantes
confundidos
na cor da crosta acúlea
de um negro chão elaborado em brasa.

Ruy Duarte de Carvalho (1941)

Nasceu em Santarém, doutourou-se em antropologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. Viveu a infância no Sul de Angola. Ficcionista, para além de uma vasta obra no domínio da antropologia, também está ligado ao cinema, onde se destacam as longas metragens “Nelesita: narrativas nyaneka” e “Moia: o recado das ilhas”.
É professor na Universidade de Luanda.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Da terra

… era a minha sementeira
se eu tivesse a mesma sina
que aproveita a goiabeira

de semente pequenina
começou por ser verdinha
mas depois se avermelhou

depois
a passarada
chilreando à liberdade descuidada
leva no bico a goiaba
que a goiabeira gerou

Manuel Rui

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Por fendas de máscara apodrecida

por fendas
de máscara apodrecida
passam
tufos de capim de Outubro

nos charcos
de teus olhos
pairam moribundos
espíritos de antepassados
e
pássaros d’água
fazem ninho
em cabeça de mologe

por fendas
de máscara apodrecida
passam
tufos de capim de outubro

Arlindo Barbeitos

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Vem cacimbo

estende teus dedos anelados sobre a minha carapinha
derrama a tua inconsciente tranquilidade
sobre a minha angústia submergida.
vem, cacimbo
eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos
endireita os trancos vencidos dos bambus
coroa os cumes altos das serras do bailundo
limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
vem cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
vem, cacimbo
derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caído sobre a grama do jardim
ó cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.



Henrique Guerra

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Meu chamado

é haletante – tante, meu chamado.
é agitar de mão
de quem se afoga
à imensidão
do céu imperturbado.

(á minha angústia, joga
teu gesto constelado
de distância!)

buscam teu corpo – radar
ansioso de voltar
com carícias registadas
em seus raios! –
as vozes sibiladas
dos sentidos.

(ai os
sinos que badalam
comovidos
e, comovidos, falam
repetindo em cinco ecos
o teu nome!)

saciam minha fome
os ecos devolvidos, secos.
me enche o peito bastante
um ar frio em sonidos.
secura perturbante!
pontilhada frescura!

Mário António

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Fruta

quitanda da fruta verde,
dá-me um gomo de laranja
para matar esta sede.

ou, então, será melhor
dar-me um veneno qualquer
porque eu ando perturbado
e o meu sonho anda queimado
por uns olhos de mulher!

- minha senhora, laranja,
limão fresquinho, caju,
ananás ou abacate!...

e a quitandeira passou
saudável, viva, graciosa,
com uma flor desfolhada
no seu sorriso escarlate.

e no ar um som de música ficou
e um perfume de fruta
que não matou minha sede…

ó agri-doce quitanda
da fruta verde!...

Tomás Vieira da Cruz

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Negra bonita

negra bonita, perco-me em vaidade
quando te vejo, porque és sempre linda
vestindo o luto, duma noite infinda
a que teus olhos, trazem claridade!

sabes que és linda, minha negra linda,
nesse teu riso de perversidade!
mas quantos, quantos a sofrer ainda
a sede imensa dessa crueldade!

negra bonita, filha do desdém!
vão-se queimando num ardor em fogo
todos aqueles que te querem bem!

ai linda negra, meu prazer em dor!
tantos pecados no teu corpo em jogo!
tantas virtudes, na tua alma em flor!...


Maria Joana Couto

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Lírica

como o regato,
correndo
para desaguar;

como a palmeira
frondecendo
para dar o cacho vermelho;

se alguém veio com a lata,
cartou
e bebeu;

se alguém trouxe a catana,
cortou
e comeu;

se ninguém cartou a água,
se ninguém cortou o cacho,
eu cumpri meu destino
Jorge Macedo

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Contestação

eu só queria cantar
a terra ensanguentada mas sagrada
corpo e alma,
carne e sangue
do senhor;

tão real, tão igual e tão perfeitamente
como está neste céu
de sacrifício e dor,
como está neste céu
de martírio e de cor,
como está neste céu
de delírio e de amor.

queria cantar o povo,
o deus crucificado em todos os momentos
em todos os tormentos,
ressuscitado continuamente
no santo sacrifício de ter força
e fé
nos corações.


Cochat Osório (1917)
Nasceu em Luanda e estudou em Lisboa onde se licenciou em medicina.

domingo, 12 de julho de 2009

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A dois passos

a dois passos
quando já se viam nos olhos
redondas gotas de lágrimas

a dois passos
quando já estava ao alcance da mão
a febre do seu corpo

a dois passos
quando já se adivinhavam nos seus lábios
as leis que lhe dariam a vida

a dois passos
quando ele já tinha um nome
e um rosto

o longo cano metálico explodiu.

então
o seu peito abriu-se
como uma fonte
como um rio
como um mar
sem margens para a ponte
que os levaria ao abraço.

Arnaldo Santos

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Sanzala morta

erguem-se monstros na noite
como elefantes
de formas que não suas
mas enormes como sombras
de elefantes solitários.

erguem-se esquinas
na noite
vidas que quebrassem
tivessem cristalizado
em gemidos
e caprichos
de casas abandonadas.

erguem-se esquinas
na noite
vozes de rios secos
sobre as pedras
que os beberam
com suas bocas de musgo.

e a cada passo inseguro
somam-se esquinas
e areias
e pedras
formas conseguidas pelo tempo
entre gargalhadas de fuga
e do negrume.

só quando sob os muxitos
choram hienas
e assobiam serpentes
e aparecem
feridas
de lua cheia
se descobre nesse drama
como retratos da morte
sanzalas abandonadas.

Costa Andrade

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Queixa

toda a noite te esperei.

quando cheguei
não estava ainda luar.
e fiquei
a esperar
que viesses
como tinhas prometido.

toda a noite te esperei
e afinal não apareceste.

fiquei esperando,
esperando,
e as horas foram caindo,
uma a uma
como gotas de cacimbo.

entretanto,
surgiu detrás da igreja
o disco em prata,
da lua.

debaixo da cajadeira,
junto à valeta da rua
e sob a luz que me encanta,
vi nascer a madrugada
da cor da semana santa
vi como a noite fugia
e como raiava o dia.
…toda a noite te esperei
E afinal não apareceste…


Aires de Almeida Santos

domingo, 5 de julho de 2009

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Mercado do Kinaxixi

Mercado municipal de Luanda, início dos anos 50. Considerado uma obra exemplar da arquitectura modernista em África, da autoria do arquitecto Vasco Vieira da Costa, angolano de origem portuguesa que trabalhou em Paris com Le Corbusier.
Alienado a uma empresa privada foi demolido para, no local, ser construída uma dessas modernices perfeitamente anti-arquitectónicas que bem se pode traduzir por um abominável crime urbanístico, fruto da “indigência moral e intelectual de certas “elites”.
Foi a execução sumária de uma boa parte da memória da minha juventude.
“É um edifício referenciado nos livros de arquitectura universal como referência conceptual e construtiva, reflecte os elementos base do pensamento sobre arquitectura tropical, ou seja, a ventilação cruzada, o recurso ao grande pé direito, a luminosidade controlada, as protecções a poente no percurso da incidência solar, as relações espaço/ventilação, humidade/conforto térmico”. (in
"o silêncio da kianda").

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Na noite dos cazumbis

as cubatas de himane arderam ontem
foi a grande queimada que calupéte atiçou
no capim velho
amanhã nascerá das cinzas o capim novo
com que apascentaremos o gado.

himane reconstruirá o seu quimbo
na encosta da montanha de Sámuel
bem longe da estrada
perto das sombras grandes da floresta
lá onde passam regatos tranquilos
os passarinhos cantam
e a madeira e os frutos silvestres abundam.

n’dove canta debruçada sobre a lavra
os seios pendem-lhe flácidos sobre a terra estrumada
pelo seu suor
o filho chora junto da cabaça de milho
a terra está molhada das primeiras chuvas
o milho está pronto para cair nas lavras
que n’dove preparou.

este ano vai ser um ano de grande para o povo n’dumbe.

Na vila
o senhor administrador já está a cobrar os impostos
já mandou o cipaio tembo avisar os sobas
gunga foi no contrato
foi para as fazendas de sisal da ganda
os filhos ficaram com a irmã mais velha
os bois foram vendidos e a lavra abandonada.

amanhã
humane recomeçará a construir as cubatas incendiadas
isto se não for para a cidade
ser servente de pedreiro
lá nessa cidade onde se constroem as casas de cimento armado
a tocar as nuvens do céu
lá nessa cidade de que falou o primo n’zimbi
lá onde as luzes apagam as escuridões
povoadas de cazimbis
lá onde as queimadas não aparecem
alterando os ciclos e as estações.


Ernesto Lara Filho

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Mar existe?

existe o piar do mocho?
o bater da asa
é um desinstante?
a passarada
faz passar ar
ou passeia no ar?
existe palhintimidade
num aninho?
de mãezinha para filhinho
a transição da minhoca
é alimentação ou incesto?
o pássaro
ganhou enjoo para chão?

de tanta entrada e saliência
a porta do aninho foi renominada;
simples janela arredondada.
de tanta percursação
o pássaro discipulou-se ao sapo-
assim exista a passipiência.


Ondjaki (1977)


Nasceu em Luanda. Membro da União de Escritores Angolanos é licenciado em sociologia. Traduzido em várias línguas é um dos novos valores da literatura angolana. Prosador, excelente romancista também ligado ao teatro, escreve também para cinema.
Recebeu o “Grinzane for Young African Writer 2008” pelo conjunto da sua obra.