quarta-feira, 3 de junho de 2009

Estrada

luanda dondo vão,
cento e tal quilómetros
mangas e cajus
marcos brancos
meninos nus

branco algodão
crescendo
corpos negros
na cacimba

o lucala corre
confiante
indiferente à ponte que ignora

verdes matas
sangram vermelhas acácias
imbondeiros festejam
o minuto da flor anual

na estrada
o rebanho alinha
pelo verde
verde capim

adivinhados
caqui lacraus
de capacete giz
trazem a morte

meninos
se embalam
em mães velhas
de varizes:

rios azuis
da longa estrada

e é Fevereiro
sardões ao sol
cassoalala

eia mucoso
tão vazio outrora
tão cheio agora
adivinhados
permanecem
lacraus caqui
capacetes giz

não param as colheitas

que razão seriam
fevereiro
acácias sangrando vermelho
verdes sisais
cantando o parto
da única flor?

Não para as colheitas!


Luandino Vieira (1935)

Considerado um dos melhores prosadores angolanos. Nasceu na Lagoa do Furadouro, Vila Nova de Ourém, Portugal.
Nacionalista, cumpriu pena no Tarrafal. Em 1965 venceu o Prémio Camilo Castelo Branco, da Sociedade Portuguesa de Autores, que, por isso foi desmantelada pela PIDE, polícia política da ditadura.
Foi secretário-geral da União de Escritores Angolanos e secretário geral adjunto da Associação de Escritores Afroasiáticos.
Romancista, novelista, poeta, tradutor. Traduziu para português a célebre obra de Anthony Burguess, “Laranja Mecânica”. Escreveu, entre outras obras, “Nós, os do Makulusu”, “No antigamente, na vida”, “Luuanda”, “João Vêncio: os seus amores” ou “A cidade e a infância”.
Em 2006 venceu o Prémio Camões, o maior galardão literário para a língua portuguesa, que rejeitou por motivos “íntimos e pessoais”.

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