segunda-feira, 29 de junho de 2009

Benguelinha

passarinho primoroso,
e gentil, plumeo cantor,
que d’aromas tão fragrantes
não esparzes com candor,
quando trinas mavioso
nesse insólito rigor
de um sol forte e constante
suaves d’amor?!

ás vezes contemplo
do dia no albor,
sentir o rigor
de escravo viver;

suspiras e gemes
em cantos d’amor,
ah! sê meu primor
não queiras morrer!

anhélas no mato
andar pelas fragas,
viver só de bagas,
nos ramos dormir?

esvoaça saltando
na tua prisão
ai! Tem compaixão
não vive a carpir!

infiltra bondoso
no meu coração
o doce condão –
do meigo trinar;

que juro contigo
do muito viver
contigo morrer,
contigo findar!

em magos acentos
endeixas trinou,
que d’alma exhalou,
que d’alma sentio! -

Maia Ferreira

domingo, 21 de junho de 2009


Delta do Rio Cuango
O Rio Cuango, tem cerca de 1.100 quilómetros de extensão, nasce nos planaltos do interior de Angola, faz fronteira entre Angola e Namíbia. Este é o maior delta interior do mundo, a 942 metros de altitude, já no Botswana, com 15.000 km2 (22.000 nas cheias). Neste delta existe a única população de leões nadadores, que são obrigados a entrar na água para caçar, já que nas cheias 70% do seu território fica ocupado. O rio desagua, ou melhor, dispersa-se, no deserto de Kalaari.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Manhã

erguida do fundo das águas plácidas
dum lago surge mulher.
limos na pasta dos cabelos
escondem o mistério dos olhos
olhando a curva do seu ventre.
flutuando
entre sombras e reflexos
duma luz longínqua,
a forma dos braços
ganha o mais e mais fundo das águas.
os seios erguidos
apontam ao longe
a aurora que vem.
em volta
musgos, liquens, algas,
em fosforescências arbóreas
de constelações que lembram
os recessos da vida.
em plantas aquáticas, marítimas,
chegam-lhe da floresta
lutas de homens, desesperos e cansaços,
feras e povos divididos, misturados
confundidos
para a criação.
e tudo esquecido ou ignorado,
só no lago
o corpo erguido,
jovem,
abrindo nas sombras o seu perfil que nasce
o seu perfil de mãe
dos homens do futuro.

Alexandre Dáskalos

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Antilírica heróica

o que é isto a voz suturada nas
quatro esquinas da boca o que é isto
são os olhos o corpo sua eterna
ebulição?

o que é isto as mãos as mãos crescem
como as folhas rompem a pele
rouca do clamor: sua
ferocidade?

o que é isto o que é isto fere-se
a larva o presságio dos vivos: terra
que estala atrás dos
lábios?

o que é isto o hálito a língua
do vento frequente no rosto na sombra
nas pernas do herói: e o herói vai
o herói vai morto.

David Mestre

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Soneto da criança invencível…

soluça-me no peito uma criança calada
tão indefesa e tão triste, que temo o vento
a derrube. Assiste-me toda aninhada,
sem ter beiral ou ninho, trinado ou lamento…

anda-me na voz e soluça fustigada
pelas chuvas vendavais nos musseques do mundo…
pelas fomes infrenes, nos ghetos, varada…
pelas angústias-suicidas, se doendo, fundo…

ainda hoje é capaz de se maravilhar
com o sol, a noite, uma semente, um segredo,
de seguir o voo de um pássaro ou sonhar

para todos os meninos-velhos, um brinquedo…
escorraçada, embora, recusa-se a odiar,
e sem saber o mal. É frágil… mas sem medo!.

António Cardoso
(em 28.9.1970, cela disciplinar, Tarrafal)

domingo, 14 de junho de 2009


Fortaleza de S. Miguel, 1575, Luanda

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Eis-me navegador

Eis-me navegador. um sonho abarco.
a vida é mar, a vida é toda um mar.
e quem tem alma e sabe o que é sonhar
- há-de lançar às águas o seu barco.

heróis – fernão, colombo, gama, zarco!
mistério, assombro, - a vaga, a noite, o luar,
o espaço, o vento, a chuva, a nuvem, o ar…
- adonde a calma, o rumo, o porto, o marco? –

mas uma força interna me estimula
para que eu vença a onda e o vendaval.
tanto mais quando o vento brame, ulula

e o mar ameaça abrir o hiante seio
eu tenho a fé e o sonho de Cabral
em busca do Brasil do meu anseio!



Geraldo Bessa Victor

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Estrada

luanda dondo vão,
cento e tal quilómetros
mangas e cajus
marcos brancos
meninos nus

branco algodão
crescendo
corpos negros
na cacimba

o lucala corre
confiante
indiferente à ponte que ignora

verdes matas
sangram vermelhas acácias
imbondeiros festejam
o minuto da flor anual

na estrada
o rebanho alinha
pelo verde
verde capim

adivinhados
caqui lacraus
de capacete giz
trazem a morte

meninos
se embalam
em mães velhas
de varizes:

rios azuis
da longa estrada

e é Fevereiro
sardões ao sol
cassoalala

eia mucoso
tão vazio outrora
tão cheio agora
adivinhados
permanecem
lacraus caqui
capacetes giz

não param as colheitas

que razão seriam
fevereiro
acácias sangrando vermelho
verdes sisais
cantando o parto
da única flor?

Não para as colheitas!


Luandino Vieira (1935)

Considerado um dos melhores prosadores angolanos. Nasceu na Lagoa do Furadouro, Vila Nova de Ourém, Portugal.
Nacionalista, cumpriu pena no Tarrafal. Em 1965 venceu o Prémio Camilo Castelo Branco, da Sociedade Portuguesa de Autores, que, por isso foi desmantelada pela PIDE, polícia política da ditadura.
Foi secretário-geral da União de Escritores Angolanos e secretário geral adjunto da Associação de Escritores Afroasiáticos.
Romancista, novelista, poeta, tradutor. Traduziu para português a célebre obra de Anthony Burguess, “Laranja Mecânica”. Escreveu, entre outras obras, “Nós, os do Makulusu”, “No antigamente, na vida”, “Luuanda”, “João Vêncio: os seus amores” ou “A cidade e a infância”.
Em 2006 venceu o Prémio Camões, o maior galardão literário para a língua portuguesa, que rejeitou por motivos “íntimos e pessoais”.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Espectáculo compilado

diante do vento interroguei os sentimentos da distância.
abri as janelas da trajectória.
traduzi a língua dos pássaros
que insultavam os meus pés perdidos na areia.

os meus braços cesciam. os passos fugiam.
e o corpo rasgava o vento do naufrágio
que não entrou pelas janelas da trajectória.

e no limiar dos olhos
via as águas de pescadores esfomeados-

o suor inclinava-se como no dia anterior.
João Maimona