sexta-feira, 22 de maio de 2009

Exortação

ribeiro couto e manuel bandeira,
poetas do Brasil,
do Brasil, nosso irmão,
disseram:
“- é preciso criar a poesia brasileira,
de versos quentes , fortes, como o Brasil,
sem macaquear a lieratura lusíada”.

angola grita pela minha voz
pedindo a seus filhos nova poesia!

deixemos moldes arcaicos,
ponhamos de lado,
corajosamente,
suaves endeixas,
brandas queixas,
e cantemos a nossa terra
e toda a sua beleza.

angola, grande promessa do futuro,
forte realidade do presente,
inspira novas ideias,
encerra ricos motivos.

é preciso inventar a poesia de Angola!

fecho meus olhos e sonho,
abrindo de par em par o coração,
e vejo a projecção dum filme colorido
com tintas de fantasia
e cenas de magia:

as imagens são paisagens, gentes, feras.
e sucedem-se lenta, lenta, lentamente…
assisto maravilhado
ao despenhar gemente
das quedas d’água do duque de Bragança…
vejo crescer florestas colossais
no maiombe, onde o verde é símbolo
de tanta esperança…

amboim fecundo, amboim cafezeiro,
de alcantis envoltos sempre em nevoeiro denso,
como um fumo cheiroso
do seu café gostoso,
tão famoso no mundo.

o deserto de namib a espreguiçar-se
num bocejo mole,
estendendo tentáculos de areia
como polvo gigante
- visão alucinante,
miragem
no escrínio esquisito
que guarda avaramente
a jóia mais horrivelmente linda
e única no mundo
- a welwitshia mirabilis,
que em si encerra mistério tão profundo…

é preciso escrever a poesia de Angola!

vejo anharas infindáveis,
onde noivam no capim,
pelo amor amansadas,
feras bravas, indomáveis…
vejo lagos de safiras,
tãocalmos
como olhos ternos,
chorosos,
de tímidas gazelas…

e terras rendilhadas do litoral,
secas, rugosas, escalvadas,
onde reina o imbondeiro,
gigantesco prometeu agrilhoado,
visão estranha, infernal, horrenda,
verde pálido, branco, cinzento,
lembrando líquen mágico, colossal

baías, cabos, estuários,
praias morenas,
mares verdes, mres azuis,
e rios de aspecto inofensivo
mas cheios de jacarés…

terras de mandioca e batata doce,
campos de sisal, minas e metais,
goiabeiras, palmeiras, cajueiros,
areais imensos, cheios de diamantes,
chuvadas torrenciais,
filas tristes de negros carregadores gemendo,
cantando tristemente seus cantares…
planaltos, montanhas e fogueiras,
feiticeiros dançando loucamente:
Angola é grande e rica e bela e vária.

é preciso criar a poesia de Angola!

terra enorme onde o insecto impera:
mosquito da febre e mosca tzé-tzé,
cobrindo tudo de sono.

olhai o senhor arquitecto Salalé,
tão pequenino, tão teimoso e diligente…
como ele projecta e constrói castelos,
milhões de vezes maiores que ele é,
para vergonha nossa,
que pouco fazemos,
presos de fútil, preguiçoso dandismo…


encostai o ouvido atento
ao coração do novo negro,
escutareis só vós, poetas da minha terra,
que estais por nascer,
aquilo que para outros é segredo defeso,
mistério da esfíngica, malsinada alma negra.
criai ânimo, ganhai alento,,
e vibrantemente cantai a nossa terra!

é preciso forjar a poesia de Angola!

essa nova poesia
será vasada em forma candente
sem limites nem peias,
diferente!...

mas onde estão os filhos de Angola,
se os não oiço cantar e exaltar
tanta beleza e tanta tristeza,
tanta dor e tanta ânsia
desta terra e desta gente?

essa nova poesia,
forte, terna, nova e bela,
amálgama de lágrimas e sangue,
sublimação de muito sofrimento,
afirmação duma certeza.

poesia inconformista,
diferente,
será revolucionária,
como arte literária,
desprezando regras estabelecidas,
ideias feitas, pieguices, trancendências…


poesia nossa, única, inconfundível,
diferente,
quente, que lembre o nosso sol,
suave, lembrando nosso luar…
que cheire o cheiro do mato,
tenha as cores do nosso céu.
o nervosismo do nosso mar,
o paroxismo das queimadas,
o cantar das nossas aves,
rugir de feras, gritos de negros,
gritos de há muitos anos,
de escravos, de engenhos das roças,
no espaço vibrando, vibrando…

sons magoados, tristíssimos, enervantes,
de quissanges e marimbas…
versos que encerrem e expliquem
todo o mistério desta terra,
versos nossos, húmidos, diferentes,
que, quando recitados,
nos façam reviver o drama negro
e suavizem corações,
iluminem consciências,
e evoquem paisagens
e mostrem caminhos,
rumos, auroras…

uma poesia nossa, nossa, nossa!
- cântico, reza, salmo, sinfonia,
Que uma vez cantada,
Rezada,
Escutada,
Faça toda a gente sentir
Faça toda a gente dizer:

- é poesia de angola

Maurício de Almeida Gomes

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