domingo, 31 de maio de 2009


Palanca negra, considerado o mais belo antílope. Porque só existe em território angolano é um símbolo do país.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O combate

o combate está nas ruas
desde a primeira manhã.

nossas mãos empunham armas
nossos olhos luzem punhais.

no troar da fuzilaria
o combate está nas ruas
na pergunta dos órfãos
o combate está nas ruas
no luto das viúvas
o combate está nas ruas
em cada face
em cada lar
no escaldante do ar
o combate está nas ruas
desde a primeira manhã.

acessível aos cobardes,
o combate está nas ruas!

Jofre Rocha

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Mensagem

avante, irmão, demos as mãos
e comecemos a nossa jornada
vamos buscar os outros irmãos
que hesitam em dizer sua mensagem

vá! juntemos aos nossos passos
os daqueles que ninguém viu caminhar
a esses, iremos buscá-los aos confins
da solidão onde vegetam e sofrem

levemos-lhes a nossa fé
o nosso canto moço e ousado
ensinemos-lhes o poema que grita
dentro da alma ardente de cada um de nós.

eu e tu irmão
dar-lhe-emos um pouco de nós
do amor à nossa terra
do orgulho louco de sermos jovens e ambiciosos.
arrastá-los-emos e as suas mãos débeis
ganharão forças para empunhar o nosso estandarte
e a voz artear-se-lhes-à
para gritarem o nosso hino.

e quando a turba ignorante
nos arremessar pedras e insultos
redobraremos de vigor e esperança
e continuaremos sem parar

haverá judeus
coroas d’ espinhos e escarros
não faltarão beijos de judas
virá o calvário…

ó irmão
mas a glória da ressurreição?


Ermelinda Pereira Xavier (1931)

Nasceu no Lobito e licenciou-se em direito pela Universidade de Coimbra. Viveu na Vila do Crato onde desempenhou as funções de Conservadora do Registo Civil. Pertenceu ao Movimento dos Novos Intelectuais de Angola e colaborou na ”Mensagem”, “Cultura II” e em algumas publicações portuguesas. Terá, muito cedo, abandonado a produção literária.

domingo, 24 de maio de 2009


Pedras Negras de Pungo Andungo, Malange

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Exortação

ribeiro couto e manuel bandeira,
poetas do Brasil,
do Brasil, nosso irmão,
disseram:
“- é preciso criar a poesia brasileira,
de versos quentes , fortes, como o Brasil,
sem macaquear a lieratura lusíada”.

angola grita pela minha voz
pedindo a seus filhos nova poesia!

deixemos moldes arcaicos,
ponhamos de lado,
corajosamente,
suaves endeixas,
brandas queixas,
e cantemos a nossa terra
e toda a sua beleza.

angola, grande promessa do futuro,
forte realidade do presente,
inspira novas ideias,
encerra ricos motivos.

é preciso inventar a poesia de Angola!

fecho meus olhos e sonho,
abrindo de par em par o coração,
e vejo a projecção dum filme colorido
com tintas de fantasia
e cenas de magia:

as imagens são paisagens, gentes, feras.
e sucedem-se lenta, lenta, lentamente…
assisto maravilhado
ao despenhar gemente
das quedas d’água do duque de Bragança…
vejo crescer florestas colossais
no maiombe, onde o verde é símbolo
de tanta esperança…

amboim fecundo, amboim cafezeiro,
de alcantis envoltos sempre em nevoeiro denso,
como um fumo cheiroso
do seu café gostoso,
tão famoso no mundo.

o deserto de namib a espreguiçar-se
num bocejo mole,
estendendo tentáculos de areia
como polvo gigante
- visão alucinante,
miragem
no escrínio esquisito
que guarda avaramente
a jóia mais horrivelmente linda
e única no mundo
- a welwitshia mirabilis,
que em si encerra mistério tão profundo…

é preciso escrever a poesia de Angola!

vejo anharas infindáveis,
onde noivam no capim,
pelo amor amansadas,
feras bravas, indomáveis…
vejo lagos de safiras,
tãocalmos
como olhos ternos,
chorosos,
de tímidas gazelas…

e terras rendilhadas do litoral,
secas, rugosas, escalvadas,
onde reina o imbondeiro,
gigantesco prometeu agrilhoado,
visão estranha, infernal, horrenda,
verde pálido, branco, cinzento,
lembrando líquen mágico, colossal

baías, cabos, estuários,
praias morenas,
mares verdes, mres azuis,
e rios de aspecto inofensivo
mas cheios de jacarés…

terras de mandioca e batata doce,
campos de sisal, minas e metais,
goiabeiras, palmeiras, cajueiros,
areais imensos, cheios de diamantes,
chuvadas torrenciais,
filas tristes de negros carregadores gemendo,
cantando tristemente seus cantares…
planaltos, montanhas e fogueiras,
feiticeiros dançando loucamente:
Angola é grande e rica e bela e vária.

é preciso criar a poesia de Angola!

terra enorme onde o insecto impera:
mosquito da febre e mosca tzé-tzé,
cobrindo tudo de sono.

olhai o senhor arquitecto Salalé,
tão pequenino, tão teimoso e diligente…
como ele projecta e constrói castelos,
milhões de vezes maiores que ele é,
para vergonha nossa,
que pouco fazemos,
presos de fútil, preguiçoso dandismo…


encostai o ouvido atento
ao coração do novo negro,
escutareis só vós, poetas da minha terra,
que estais por nascer,
aquilo que para outros é segredo defeso,
mistério da esfíngica, malsinada alma negra.
criai ânimo, ganhai alento,,
e vibrantemente cantai a nossa terra!

é preciso forjar a poesia de Angola!

essa nova poesia
será vasada em forma candente
sem limites nem peias,
diferente!...

mas onde estão os filhos de Angola,
se os não oiço cantar e exaltar
tanta beleza e tanta tristeza,
tanta dor e tanta ânsia
desta terra e desta gente?

essa nova poesia,
forte, terna, nova e bela,
amálgama de lágrimas e sangue,
sublimação de muito sofrimento,
afirmação duma certeza.

poesia inconformista,
diferente,
será revolucionária,
como arte literária,
desprezando regras estabelecidas,
ideias feitas, pieguices, trancendências…


poesia nossa, única, inconfundível,
diferente,
quente, que lembre o nosso sol,
suave, lembrando nosso luar…
que cheire o cheiro do mato,
tenha as cores do nosso céu.
o nervosismo do nosso mar,
o paroxismo das queimadas,
o cantar das nossas aves,
rugir de feras, gritos de negros,
gritos de há muitos anos,
de escravos, de engenhos das roças,
no espaço vibrando, vibrando…

sons magoados, tristíssimos, enervantes,
de quissanges e marimbas…
versos que encerrem e expliquem
todo o mistério desta terra,
versos nossos, húmidos, diferentes,
que, quando recitados,
nos façam reviver o drama negro
e suavizem corações,
iluminem consciências,
e evoquem paisagens
e mostrem caminhos,
rumos, auroras…

uma poesia nossa, nossa, nossa!
- cântico, reza, salmo, sinfonia,
Que uma vez cantada,
Rezada,
Escutada,
Faça toda a gente sentir
Faça toda a gente dizer:

- é poesia de angola

Maurício de Almeida Gomes

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Canto anónimo

de terra e nervos, eis de que sou feito,
porque homem sou, homem simplesmente.
saibam as estrelas o que penso,
seja ou não seja o abismo imenso.
quero elevar a minha voz,
que foi feita para gritar,
quero erguer os meus punhos,
que foram feitos para bater ou perdoar,
quero dirigir os meus pés
pra onde a razão o ordenar.
homem sou, homem simplesmente,
quero para mim a vida, vivê-la inteiramente.
e vós, estrelas, sabei isto que sei:
de terra e nervos, eis de que sou feito.
e seja ou não o abismo imenso.
eu, homem, homem simplesmente,
conquistar-vos-ei…

Antero Abreu

segunda-feira, 18 de maio de 2009

N’gola – flor de bronze

filha de branco que morreu na guerra
e duma preta linda do Libôlo,
o teu olhar até de noite encerra
todo o luar das lendas de Catôlo!

ó flor estranha! Já não tem consolo
a tua mágoa, a tua dor na terra!
ó flor estranha do febril Capôlo
neta dum soba que perdeu a guerra!

estátua ardente em bronzeadas chamas
que tentação e perdição derramas
por sobre a história negra, quase finda!

neta dum soba que acabou chorando,
filha de branco que morreu lutando
e duma preta tristemente linda!

Tomaz Vieira da Cruz

domingo, 17 de maio de 2009

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Hoje assim

todos os nomes da morte
escritos na cabeça dos tiranos
todos os niagaras de sangue
nesta onda

todos os sinais de raiva
no brilho do ouro
já trocado por missangas
nesta onda
amordaçados todos
os deuses que adormecem
na pacatez das promessas
nesta onda

e todas as zebras indomáveis
felinos traiçoeiros
e todos os répteis venenosos
nesta onda
que viessem

Manuel Rui

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Velho Negro

vendido
e transportado nas galeras
vergastado pelos homens
linchado nas grandes cidades
esbugalhado até ao último tostão
humilhado até ao pó
sempre sempre vencido

é forçado a obedecer
a deus e aos homens
perdeu-se

perdeu a pátria
e a noção de ser

reduzido a farrapo
macaquearam seus gestos e a sua alma
diferente

Velho farrapo
negro
perdido no tempo
e dividido no espaço!

ao passar de tanga
com o espírito bem escondido
no silêncio das frases còncavas
murmuram eles:
pobre negro!

E os poetas dizem que são seus irmãos.



Agostinho Neto

domingo, 10 de maio de 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Dádiva

sou mais forte que o silêncio dos muxitos
mas sou igual ao silêncio dos muxitos
nas noites de luar e sem trovões.

tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de Setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam os ramos das mulembas.

…e quando chega o canto das perdizes
e nas anharas revive a terra em cor
sinto em cada flor
nos seus matizes
que és tudo o que a vida me ofereceu.




Costa Andrade

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A Coimbra

minha cidade eterna e resumida,
como um sonho embrulhado
em névoa branca… e adormecida.
por outro sonho que a saudade quis
é que eu não sei agora
o que este engano diz.

a mão do “Só” me trouxe rio acima,
para beijar teu corpo imerso em sono…
e pura, debruçada sobre ti,
o mais que eu vi,
foi sempre este abandono…

e ainda é a mesma torre, sim…
e o casario.
e o jardim.
e a ternura infinda
da mesma capa ainda
ao vento solta!...

és tu, eterna em ti.
antero é que não volta.

agora,
na pedra nua deste longo dia
já ninguém chora…
e a dor que endoideceu,
é só quem anda pela noite fria,
à procura do sonho que morreu…


Alda Lara

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O sol nasce a oriente

(de um quadro de Malangatana)


povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança

do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos lábios de zambi

de ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sábia das aves
o dialecto novo do silêncio

e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onça posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa

de ti amo a denúncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a dança prometida do sol
nascer um dia a oriente



David Mestre (1948-1997)

Luís Filipe Guimarães da Mota Veiga nasceu em Loures, Portugal, mas foi para Angola com oito meses. Jornalista e crítico literário, coordenou diversas páginas literárias. Em 1971 fundou e dirigiu o grupo “Poesias – Hoje”. Foi director do “Jornal de Angola” e era membro da Associação Internacional de Críticos Literários e da União dos Escritores de Angola.

domingo, 3 de maio de 2009

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Eu quero escrever coisas verdes

eu quero escrever coisas verdes
verdes
como as folhas desta floresta molhada
verdes
como teus olhos
que só a saudade deixa ver
verdes
como a menina duma trança só
que soletra em português sa-po sa-po
verdes
como a cobra esguia que me surpreendeu
naquela cubata sem outra história
verdes
como a manhã azul
que acaba de nascer

eu quero escrever coisas verdes


Arlindo Barbeitos