quarta-feira, 29 de abril de 2009

Língua-mãe

volto a ser pequeno
como dantes para ir para a escola
onde aprendi os números e as letras
as ciências e as línguas.
mas desta vez não aprenderei
nem letras nem línguas
nem ciências nem números.

aprenderei a ouvir o povo das sanzalas
dos dongos dos rios das canoas do mar,
nos musseques e no morro da Maianga
as velhas contando coisas doutras eras.

que me interessa saber a língua de voltaire,
de Goethe e shakspeare,
se não sei o cantar das glebas negras?

se não sei o dizer dos marimbeiros,
os tocadores de tchingufos e kisanjis
quando entro calado pelos quimbos?

e o dizer compassado dos batuques
os cantos ritmados das massembas
as histórias do povo e as lendas do passado?



Henrique Guerra

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Poema da esperança

… os pássaros voarão
e o mundo encher-se-á de suas penas.

calados nos ouviremos segredando
fazendo do horizonte uma linha longa

tu tremerás receosa do infinito
mas eu estarei junto de ti…

e será doce ou triste aquele poente…?

porém tu me dirás sorrindo:
- que importa? são tuas as linhas desta mão…

Arnaldo Santos


domingo, 26 de abril de 2009


Deserto do Namibe
situado no Sul do país, possui as mais altas dunas do mundo, que podem atingir os 90 metros.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A uma africana

nos teus olhos pestanudos
eu vejo um mar de desejos,
nos lábios, talvez carnudos,
um labyrinto de beijos.

a tua boca mimosa
é um cofre de coral
onde tu guardas vaidosa,
dentes brancos sem rival.

as ternas modulações
do teu olhar pausado,
dão-me às vezes tentações
de me matar a teu lado.

se fallas não sei que mago
som me attrahe e fascina;
parece, ao longe, n’um lago,
ouvir-se uma cavatina.

eu tenho um certo receio
de bem encarar de frente
o teu olhar, todo cheio
d’um fogo surprehendente.

as tuas faces para mim, -
- d’um moreno provocante,
são as rosas d’um jardim
de perfume estonteante.

na curva pronunciada
do teu collo admirável
poisa às vezes, confiada,
minha vista insaciável!

não sei que graça infinita,
que mystérios nelle vejo;
quem me dera ter a dita
d’hai matar um desejo.

n’um revolto desalinho
teus cabellos ondeados
parecem o fofo ninho
de dois pombinhos amados.

se teu conjuncto contemplo
sinto uma doce vertigem
julgo-me dentro d’um templo
adorando a santa virgem!

será feliz quem tu queiras
o que teu amor inflame;
gentil filha das palmeiras,
ngu xála, ngâna, ngui’âme (1)

(1)”Deixo-vos, Senhora, retiro-me”



Eduardo Neves

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Canção de Salabu

nosso filho caçula
mandaram-no p’ra s. tomé
não tinha documentos
aiué!
nosso filho chorou
mamã enlouqueceu
aiué!
Mandaram-no p’ra s. tomé

nosso filho já partiu
partiu no porão deles
aiué!
mandaram-no p’ra s. tomé

cortaram-lhe os cabelos
não puderam amarrá-lo
aiué!
mandaram-no p’ra s. tomé

nosso filho está a pensar
na sua terra, na sua casa
mandaram-no trabalhar
estão a mirá-lo, a mirá-lo

- mamã, ele há-de voltar
Ah! a nossa sorte há-de virar
Aiué!
mandaram-no p’ra s. tomé

nosso filho não voltou
a morte levou-o
aiué!
mandaram-no p’ra s. Tomé


Mário Pinto de Andrade (1928- 1990)

Foi presidente do MPLA entre 1959 e 1962. Estudou sociologia em Paris onde foi chefe de redacção da Présence Africaine. Autor de estudos e ensaios de sociologia, crítica literária e linguística, é considerado o maior ensaísta angolano do século XX.
Segundo Manuel Ferreira foi o primeiro e o mais persistente e lúcido teorizador e divulgador da literatura africana de expressão portuguesa.
Natural do Golungo Alto, dele apenas se conhece este poema.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

América

aqui está a américa com a sua estátua!
que alta é a “Liberdade” dos brancos,
que espessas cadeias me põem no Sul!

e arrastei os meus grilhões de desespero
por todo o mississipi, Kentucky, alabama,
geórgia, carolina, louisiana,
onde cada gota de suor germinou
um estado,
um verdugo.

não pressentes na bandeira
os meus esforços constelados?
estão nas estrelas americanas
forjadas pelo tio sam
nos meus grilhões de desespero
por todo o Mississípi, Kentucky, alabama,
Ggórgia, carolina, louisiana,
ai
que terra tamanha
com pulmões de aço,
narinas como chaminés,
cérebro de gelo,
olhos eléctricos.
os braços são máquinas,
o ventre é um cofre.
não sei por quanto me venderão amanhã,
não sei onde me lincharão depois de amanhã.

aqui aparece a cruz
ku-klux-klan,
labareda de racismo
talhada em angústia negra
nos soluços da noite
ku-klux-klan,
veneno carregado de fúria americana
ku-klux-klan,
arrepio de sonhos meninos no sul
ku-klix-klan,
punhal sangrento sobre o meu povo
gemente in united states of américa
ku-klux-klan.


olha o curtido sul como uma larga pele de bizonte,
impreciso,
chamejante de solidez!

não ouves o trompete no vento?

olha o clarão meridional,
a pedra antiga,
o metal da solidão!
… e o trompete no vento…

armstrong!

nada cruza o céu,
nem pássaro,
nem borboleta,
nem vampiro.

só Armstrong!

…e o trompete no vento…


mas quando chegares a new orleans
olha para os meus dentes teclas
de jazz,
minhas pernas múltiplas
de jazz,
minha cólera ébria
de jazz,
olha os mercadores da minha pele,
olha os matadores ianques
pedindo-me
jazz,
one
two
three
jazz,
sobre o meu sangue
jazz,
milhões de palmas para mim
jazz.




Manuel dos Santos Lima

domingo, 19 de abril de 2009




"Miradouro da Lua", Parque da Quissama, sul de Luanda

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Declaração

as aves, como voam livremente
num voar de desafio!
eu te escrevo, meu amor,
num escrever de libertação.

tantas, tantas coisas comigo
adentro do coração
que só escrevendo as liberto
destas grades sem limitação.
que não se frustre o sentimento
de o guardar em segredo
como liones, correm as águas do rio!
corram límpidos amores sem medo.

ei-lo que to apresento
puro e simples – o amor
que vive e cresce ao momento
em que fecunda cada flor.

o meu escrever-te é
realização de cada instante
germine a semente, e rompa o fruto
da mãe-terra fertilizante.



António Jacinto

segunda-feira, 13 de abril de 2009

É triste

é triste calar os gritos dos nus
que andam à chuva com as solas furadas
é triste ver entronizar um déspota
para quem guardamos forcas nos olhos

é triste fuzilar alguém de olhos vendados
esmagar com bombas gente como percevejos
é triste sabotar uma vida em botão
e odiar crianças por amarem a verdade.

é triste esquecer as feridas e o sangue
dar de ombros e por terra deixar bandeiras
é triste ignorar a guerra e as balas
ou fingir coragem ao lado dos tanques.

é triste morrer ao dobrar uma esquina
sem ver a flor nascida com a madrugada
é triste viver assim atolados no medo
à espera que outros morram por nós.

Jofre Rocha

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A fonte

sob o manto de árvores frondosas
corre a fonte.
quando um dia vagabundear no bosque,
à procura do horizonte,
saberei que sob o manto de árvores frondosas
corre a fonte

sob o manto de árvores frondosas
corre a fonte.
Jorge Macedo

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A alienação e as horas

por aqui andamos como folhas secas
não sabemos bem se vivos ou se mortos
por aqui andamos
cumprindo o fado que não entendemos
uma vida que não é nossa
como um fato que pomos sobre o corpo nu
por aqui andamos submissos
subindo e descendo a rua
nós ou outros não importa
é como se fôssemos outros
tão longe que estamos de nós
indo para as repartições
vindos das máquinas de escrever
dos papéis dos tornos ou das enxós
por aqui andamos
regressando por vezes
com a consciência do dever cumprido
o dever cumprido
ópio que se inventou para
nos escondermos desta torpe existência
por aqui andamos
ai horas de desespero que são tão lúcidas
em que vemos que o que estamos é atrás do espelho
por aqui andamos como jornais velhos
que virão percorrendo as ruas
e acabam nas sarjetas
ou dão novos jornais
que farão a mesma coisa
por aqui andamos
por aqui andamos
que triste ser poeta ou lá o que se é
sejamos prosaicos ao diabo tudo isto
dá vontade de lançar uma
bomba de s. João
e pensar que se mandou o mundo aos ares
dá vontade de ir descobrir o Brasil
como se não estivesse descoberto há
quatrocentos e tal anos
é certo que há uma esperança
sabe-se que isto não será sempre assim
felizmente que não será sempre assim
felizmente que isto não será sempre assim
mas por aqui andamos
por ora aqui estamos
vestidos de
fantasmas entre fantasmas a fingir de gente…


Antero Abreu (1927)


Nasceu em Luanda e fez os estudos de direito em Lisboa. Enquanto estudante foi dirigente da Casa dos Estudantes do Império. Foi um activista do associativismo e da cultura tendo-se destacando no Departamento Cultural da Associação dos Naturais de Angola – Anangola. Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, depois da independência exerceu os cargos de Procurador-geral da República e de embaixador em Itália.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A sombra das galeras

ah! Angola, Angola, os teus filhos escravos
nas galeras correram as rotas do mundo.
sangrentos os pés, por pedregosos trilhos
vinham do sertão, lá do sertão, lá bem do fundo
vergados ao peso das cargas enormes…
chegavam às praias de areias argênteas
que se dão ao sol ao abraço do mar…
… que longa noite se perde na longa distância!

as cargas enormes
os corpos disformes.
na praia, a febre, a sede, a morte, a ânsia
de ali descansar

ah! As galeras! As galeras!
espreitam o teu sono tão pesado
prostado do torpor em que mal te arqueias.
depois, apenas pestanejam as estrelas,
o suplício do arrastar dessas correias.

Escravo! Escravo!

o mar irado, a morte, a fome,
a vida… a terra… o lar… tudo distante.
como na floresta à noite, ao longe, o brilho
duma fogueira acesa, ardendo no teu corpo
que de tão sentido, já não sente.

a América é bem teu filho
arrancado à força do teu ventre.

depois outros destinos dos homens, outros rumos…
Angola vais na sede da conquista.
hoje no entrechoque das civilizações antigas
essa figura primitiva se levanta
simples e altiva.
o seu cântico vem de longe e canta
ausências tristes de gerações passadas e cativas
e onde vão seus rumos? onde vão seus passos?
ah! vem, vem numa força hercúlea
gritar para os espaços
como os dardos do sol ao sol da vida
no vigor que em ti próprio reverberas:

- não sou cativo!
a minha alma é livre, é livre
enfim!
Liberto, liberto, vivo…

mas… porque esperas?
ah! mata, mata no teu sangue
o presságio da sombra das galeras!


Alexandre Dáskalos (1924-1961)

Natural do Huambo, licenciou-se na Escola Superior de Medicina Veterinária de Lisboa. Aos 17 anos foi preso, acusado de pertencer à Organização Socialista Angolana.
Esteve ligado á “Mensagem” quando estudante universitário. É autor de vários trabalhos científicos.

domingo, 5 de abril de 2009

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Rio Cambalo

meu lindo rio, rio do cambalo
de tranquilas águas sussurrantes!
deixa lembrar-te só por uns instantes
nesta saudade, hoje, em que me embalo!

às tuas margens com carinho falo,
embora eu, vejo como estão distantes
as tuas águas, ecos murmurantes
de que oiço num secreto e mudo abalo!

rio cambalo, sobre as tuas águas
lanço este canto que por ti cantei
no sentimento destas minhas mágoas!

E timoneira deste sonho lindo…
Vai ao encontro do que aí deixei
Presa à minha alma, num choro infindo!



Maria Joana Couto

Nasceu no Sumbe em 1909. Viveu na Figueira da Foz, tendo colaborado na imprensa local. Em 1963 editou um romance, “Sol tropical”.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O menino negro não entrou na roda

o menino negro não entrou na roda
das crianças brancas – as crianças brancas
que brincavam todas numa roda viva
de canções festivas, gargalhadas francas…

o menino negro não entrou na roda.

e chegou o vento junto das crianças
- e bailou com elas e cantou com elas
as canções e danças das suaves brisas,
as canções e danças das brutais procelas.

e o menino negro não entrou na roda.

pássaros em bando, voaram chilreando
sobre as cabecinhas lindas dos meninos
e pousaram todos em redor. por fim,
bailaram seus voos, cantando seus hinos…

e o menino negro não entrou na roda.

“venha cá, pretinho, venha cá brincar”
- disse um dos meninos com seu ar feliz.
a mamã, zelosa, logo fez reparo;
o menino branco já não quis, não quis…

e o menino negro não entrou na roda.

o menino negro não entrou na roda
das crianças brancas. Desolado, absorto,
ficou só, parado com olhar de cego,
ficou só, calado com voz de morto.



Geraldo Bessa Victor (1917-1990)


Poeta e contista, licenciou-se em Direito tendo exercido a profissão em Lisboa. Natural de Luanda também é considerado um dos precursores, como Tomás Vieira da Cruz, da poesia angolana.