segunda-feira, 30 de março de 2009

Serenata

caem à noite pedras
sobre o templo
do silêncio
de espaço
um ruído de automóvel
um toque de sinos de uma igreja
monotonia diurna que não quebra
a queda das pedras
no silêncio

de dia o templo é
noite
e à noite há o silêncio
o esgaravatar de uma gaivota em fogo
o estalar de folhas novas
numa árvore
sabendo a vício este cigarro
de cheirar a seiva dos pinheiros
e as pedras caem
como chuva ou neve
todas as noites que noites
já são poucas

e a seiva pedra sobre o templo
é a gaivota
o vício
a folha
quebrando este silêncio

onde as guitarras?
os quissanges acontecem longe.
Manuel Rui (1941)


Poeta, ficcionista, cronista, crítico e ensaísta, Manuel Rui é autor do Hino de Angola. Membro fundador da União dos Artistas e Compositores Angolanos, da Sociedade de Autores Angolanos e da União de Escritores Angolanos.
Licenciado em direito exerceu advocacia em Coimbra e Viseu. Foi membro do corpo redactorial da “Vértice”.
Nasceu no Huambo.

domingo, 29 de março de 2009

sexta-feira, 27 de março de 2009

Até se revoltarem os escravos

até se revoltarem os escravos.
até se rebentarem as comportas.
até sismos divinos, roncos cavos
da terra inquieta sob as pedras mortas
sacudirem a nossa quietação.
até que luas doidas sobre o mar
sejam sinal da alucinação.
até se extinguir a gentileza
que mais que nos liberta, nos corrompe.
até sermos capazes de amar,
até sermos capazes de morrer.

Mário António

quarta-feira, 25 de março de 2009

Pausa

há esta angústia de ser humano
quando os répteis se entrincheiram no lodaçal
e os vermes se preparam para devorar uma linda criança
em indecorosa orgia de crueldade

e há esta alegria de ser humano
quando a manhã avança suave e forte
sobre a embriaguez sonora do cântico da terra
apavorando vermes e répteis

e entre a angústia e a alegria
um trilho imenso do Níger ao Cabo
onde marimbas e braços tambores e braços vozes e braços

harmonizam o cântico inaugural da nova África.
Agostinho Neto

domingo, 22 de março de 2009


A batalha do Huambo, (2,30 m x 1,20 m, 1993) pintura de Fernando Campos. Museu Municipal Dr. Santos Rocha, Figueira da Foz.
O autor sobre a obra, aqui.


sexta-feira, 20 de março de 2009

Muamba


a minha lira mulata
tem acordes tão amantes
que eu julgo serem de prata
as suas cordas vibrantes.

porque fiz d’ela mulher
tem lábios cor de “pitanga”,
da “pitanga” de comer,
com adornos de missanga.

E os seus braços tão nervosos
são dois ramos de palmeira,
que me abraçam, duvidosos,
e me prendem de maneira,

que eu não sei qual é melhor,
se os seus beijos de “muamba”,
se o “jindungo” deste amor…
- amor mulato… pitanga!


Tomaz Vieira da Cruz (1900-1960)

Natural de Constança, no Ribatejo, viveu desde 1924 em Angola. Tem colaboração em vários jornais e revistas, de Angola e Portugal. Em 1950 funda no Sumbe (ex-Novo Redondo) o jornal “Mocidade”. É considerado um dos precursores da literatura angolana.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Tempo habitual

de nojo o tempo, o nosso,
a perfídia estrumando
no presumir da carícia branda e sorriso
de todos.

de raiva o tempo, o nosso,
céu, mar e terra abrasando
em clamor de labareda e navalha afiada
e sangue.

de pavor o tempo, o nosso,
a primavera assombrando.
exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
que o faz.

de amor o tempo, o nosso,
onde uma voz espalhando
a boa nova no pântano fétido da noite
imposta?

de nojo, de raiva, de pavor,
o tempo transido
do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor…

Tomaz Kim



segunda-feira, 16 de março de 2009

Uatoála

e tu, que não calculas o tormento
que sofre quem assim te vê fugir,
começas lá de longe então a rir
em quanto preza sou do desalento…

e eu, que dava a vida n’um momento
por só um beijo teu poder fruir,
quizera a tua imagem ver sumir
p’ra sempre no voraz esquecimento…

mas quando tu me vez desanimado,
o meu olhar sem luz embaciado,
com o peito arquejante e preza a falla;

vens assentar-te logo ao pé de mim,
e um beijo, um beijo teu me dás por fim
dizendo com meiguice: - Uatoála…
Eduardo Neves

domingo, 15 de março de 2009

sexta-feira, 13 de março de 2009

Entardecer

um barco que passa uma ave que voa
um azul que fica na retina
um rosto que sonha numa canoa

um barco que passa uma ave que voa
um desejo que fica pelo ar
azul e penetrante como o ar

passa o barco lentamente
passa a tarde passa a vida
e um vulto que ao passar canta baixinho

existe ao um ar tranquilo
sossegado como buda de marfim
quem disse que ali era a cidade!

um barco que passa uma ave que voa
um azul que fica na retina
um rosto que sonha numa canoa.


Henrique Guerra (1937)


Nasceu em Luanda. Engenheiro civil, leccionou na Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto. Pertence á geração da “Cultura” e colaborou com a Mensagem. Nacionalista, também conheceu a prisão nos anos 60.
Ensaísta e artista plástico escreveu contos e uma peça de teatro.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Prelúdio

pela estrada desce a noite
mãe-negra desce com ela…

nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

mãe-negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro…

tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada…

que é feito desses meninos
que gostava de embalar?…

que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

mãe-negra não sabe nada…

mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
mãe-negra!...

os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar…

muitos partiram p’ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.


Alda Lara

segunda-feira, 9 de março de 2009

Juro

por tua culpa, mulata,
meu coração
anda à toa
sem saber onde se acoite.
perdeu-se na escuridão
dos olhos cor da noite.

por tua, só tua culpa,
pois sei que foi causa disso
o feitiço
do teu corpo.

mas… deus é grande
e… talvez
ainda volte outra vez
a abraçar-te em desejos,
quianda dos meus amores.

nesse dia
hei-de cobrir o teu corpo
com um vestido de beijos
e um manto de carícias.
hei-de esmagar contra a minha
a tua boca vermelha.

Será nesse dia, então,
Que terei onde me acoite,
Mesmo na escuridão
Dos teus olhos cor da noite.



Aires de Almeida Santos (1921-1992)


Profissional de contabilidade durante 20 anos, Almeida Santos, natural do Bié e nacionalista ligado ao MPLA foi preso em 1961. Esteve vários anos preso, tendo sido solto poucos anos antes da independência. Em 1970, vivendo em Luanda com residência fixa, ingressou no jornalismo, tendo trabalhado em vários jornais de Angola. Membro fundador da União dos Escritores Angolanos.

domingo, 8 de março de 2009

sexta-feira, 6 de março de 2009

Estrela pequenina

tocadores, vinde tocar
marimbas, n’gomas, quissanges
vinde chamar nossa gente
p’rá beira do grande Mar!

sentai-vos, irmãos, escutai:
precisamos entender
as falas da Natureza,
dizendo da nossa dor,
chorando nossa tristeza.

ora escutai; meus irmãos:
aquele sol no poente,
vermelho como uma braza
não é sol somente. Não!
é coágulo de sangue
vertido por angolanos
que fizeram o Brasil!

ouvi o mar como chora,
ouvi o mar como reza…

olhai a noite que chega,
veludo negro tecido
de mil pedaços de pele
arrancados a chicote,
ai! Cortados a chicote,
do dorso da nossa gente,
no tempo da escravatura…

noite é luto
de que Deus cobre o mundo
com dó de nós…

disco de prata luzente
sobe ligeiro no espaço.
sabei que a Lua fulgente
contém lágrimas geladas
por pobres negros choradas…

pergunta-me a multidão,
sentada à beira do mar:
- agora dizei, irmão,
aquela pálida estrela
tão pequenina e humilde
que brilha no nosso céu
qual é o significado?

talvez seja finalmente
Deus a olhar para a nossa gente…


Maurício de Almeida Gomes (1920-2012)


Luandense. Integra a Antologia dos novos poetas Angolanos, de 1950 e tem colaboração na “Cultura I”, “Cultura II” e “Mensagem”.
Pode ser considerado um dos pioneiros da poesia moderna angolana. A palavra a Manuel Ferreira: “O tom messiânico, o chamamento colectivo vem de um homem cuja continuidade poética se perdeu poucos anos depois. Trata-se de Maurício Gomes e que naquele instante faz o lúcido, humaníssimo apelo à sua gente: tocadores vinde tocar/marimbas, n’gomas quissanges/vinde chamar nossa gente/p’rá beira do grande mar!” e “ouvi o mar como chora,/ouvi o mar como reza…/olhai a noite que chega./veludo negro tecido/de mil pedaços de pele/arrancados a chicote./ai! cortados a chicote./do dorso da nossa gente,/no tempo da escravatura…. Neste chamamento, com ressonâncias estilísticas da tradição popular e com consciência do momento que se vive, se entra, de vez, no ideário mais representativo da actual poesia angolana”.
Não tenho notícia deste poeta que foi funcionário superior das Alfândegas de Angola. Daí não saber se ainda é vivo ou se já nos deixou. Uma pesquisa na Net mostrou-se infrutífera, inclusivamente no “sítio” da embaixada de Angola em Lisboa e também no “sítio” da União dos Escritores Angolanos, o que eu acho uma falha imperdoável. Aqui fica o reparo. Com mágoa, com certeza.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Elisa Mulata

quando Elisa, a Mulata
de olhos brilhantes como dendem
veste de negro
seu corpo parece uma escultura quioca
escurecida pelo tempo.

quando Elisa, a mulata
veste de negro
e samba sozinha no meio da sala
de um cabaret
ao som de uma orquestra de mambos
renasce uma rainha
de qualquer noite africana.

Elisa, a mulata ordinária
de olhos brilhantes da cor do dendem
de corpo brilhante, coleante de cobra
de lábios vermelhos e grossos
parece uma escultura quioca
reminiscência de uma qualquer noite africana
perdida nas minhas noites da Europa.

rainha
de uma qualquer noite africana.

Elisa
mulata ordinária
Elisa de Luanda
perdida nas noites
de um cabaret de Lisboa

Elisa
a que quando veste de negro
parece uma escultura quioca
enegrecida pelo tempo.

Ernesto Lara Filho (1932-1977)

Irmão de Alda Lara, é considerado um dos maiores poetas angolanos. Jornalista, destacou-se também na crónica, tendo ficado famosa a sua coluna de crónicas “Roda Gigante” no jornal de Angola, na década de 50. Regente agrícola na Junta de Exportação de Cereais foi despedido tendo passado o exílio na Europa, onde chegou a ganhar a vida como empregado de restaurante. Publicou “O canto do marimbondo”, “Seripipi na gaiola” e “O canto do matrindinde”. Foi co-fundador, em 1975, da União de Escritores Angolanos.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Angolano

ser angolano é meu fado e meu castigo
branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor e condição
mas, será que tem cor o coração?

ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
não é questão, nem mesmo de bandeiras,
de língua, de costumes ou maneiras…

a questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças doutras terras,
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento.

Neves e Sousa (1921-1995)

Albano Neves e Sousa nasceu em Matosinhos, norte de Portugal e morreu em Salvador da Bahia. Poeta e pintor, frequentou a Escola de Belas Artes como bolseiro da Câmara Municipal de Luanda. Entre os livros de poesia que escreveu destacam-se “Motivos angolanos” e “Muenho”.

domingo, 1 de março de 2009



Quedas de Kalandula, Rio Lucala, Malange