sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Cazumbi

cazumbi cazumbi,
almas penadas
dançam à roda de mim!

sombras esguias,
vozes veladas,
gestos imprecisos
inacabados,
fugidos,
intocáveis
dançam à roda de mim!

passam,
repassam,
caminham
sem pisar o chão,
sem lhe tocar
vão rodando no ar.

dançam à roda de mim
Nessa noite de sertão!


Branca Mourinho

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Homenagem a Hoji-ia-Henda

peito ao vento
na anhara em chamas
Hoji valente
De coração henda
Braço e arma
Um só

nem o leão ousado
ruge mais:
no troar dos passos
Hoji comandante
de coração Henda
o ritmo de combate

peito ao vento
na anhara em chamas
Hoji Camarada
em teus olhos Henda
um fulgor canta


Jofre Rocha (1941)


Pseudónimo de Roberto António Victor Francisco de Almeida, nasceu em Cachimane, Icolo e Bengo. Teve participação activa na guerrilha para a libertação do país e após a independência trabalhou nos ministérios dos Negócios Estrangeiros e no do comércio exterior. Poeta e contista, sobre a origem do pseudónimo, o próprio contou em entrevista a Michel Laban:
“Foi um nome que eu escolhi porque eu escrevia na cadeia, e, às tantas, entendi que devia mandar alguns dos escritos que escrevia para publicação no jornal “A província de Angola”, na página de “artes e letras”. Mas uma vez que a PIDE trabalhava também na censura dessa página, eu achei melhor não pôr o meu nome próprio porque eles conheciam-me, sabiam quem eu era. Então resolvi adoptar um nome fictício, um pseudónimo para assinar esses trabalhos – foi assim que adoptei Jofre Rocha”.
“Assim se fez madrugada”, de 1977, foi editado em Portugal.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Decálogo

o húmus na esperança da terra:
eis o pão!

a carícia nos dedos do vento:
eis a água!

a liberdade na paz dos homens:
eis o trabalho!

a estrela no murmúrio da fonte:
eis o pensamento!

o amor no leite da mulher:
eis a poesia!

o direito no sol do mundo:
eis a justiça!

o equilíbrio na paz dos astros:
eis a ciência!

a harmonia no silêncio do mar:
eis a música!

a luz no calor do sangue:
eis a pintura!

o segredo na voz da floresta:
eis a imaginação!


António Cardoso

domingo, 22 de fevereiro de 2009





Fenda da Tundavala, Lubango, Huíla


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Confiança

olha amor estas anharas
nelas renasce
o verde forte
do capim…

olha e escuta a vida
a borbulhar
sob a imensa sensação
de sermos nós

olha amor
e solta enfim
o brado da certeza
que não é crime
o grito à vida
e ao amor que se adivinha.

olha amor estas anharas
renasce verde
o capim da terra grávida
de bocas saciadas.

olha amor escuta
esta imensa sensação
de sermos Nós.


Costa Andrade (1936-2009)

Nasceu no Lépi, Huambo. “Ndunduma we lépi” era o seu nome de guerra nos tempos da guerrilha no leste de Angola. Estudou arquitectura e é também artista plástico. Tem vários livros de poesia publicados, entre os quais: “Terra das Acácias rubras” (1961), “Poesia com armas” (1975), “Os sentidos da pedra” (1989).
Ficcionista e ensaísta, em 1980 publicou o ensaio “Literatura angolana (opiniões)”.
Criou o heterónimo “Wayovoka André”, com o qual também tem poesia publicada.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Poema para Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra.
C.D.A.




é útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.

fechaste os teus dois olhos
ao bouquet de palavras
que estava a arder na ponta do caminho
o caminho que esplende os teus dois olhos.

anuviaste a linguagem de teus olhos
diante da gramática da esperança
escrita com as manchas de teus pés descalços
ao percorrer o caminho das coisas.

fechaste os teus dois olhos
aos ombros do corpo do caminho
e apenas viste uma pedra
no meio do caminho.

João Maimona, in "Traço de União"

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Mamã

áfrica
mamã áfrica
geraste-me no teu ventre
nasci sob o tufão colonial
chuchei teu leite de cor
cresci
atrofiada mas cresci
juventude rápida
como a estrela que corre
quando morre o nganga
hoje sou mulher
não sei já se mulher se velhinha
mas é a ti que venho
África
Mamã África

tu que me geraste
não me mates
não praguejes um rebento teu
senão, não tens futuro,
não sejas matricida.
sou Angola, a tua Angola
não te juntes ao opressor
ao amigo do opressor
nem a teu filho bastardo
eles caçoam de ti

caíste na ratoeira
enganada
não distingues o verdadeiro do falso
no teu cândido e secular vigor
cegaste
agora és tu

áfrica
mamã áfrica
que dás força ao irmão bastardo
para asfixiar-me
azagaiar-me pelas costas

o opressor, o amigo do opressor
o teu filho bastardo
(também tu, mamã áfrica?)
Divertir-se-ão
Ao ouvir-me expirar

mas África
mamã África
pelo amor da coerência
ainda quero crer em ti.


Deolinda Rodrigues de Almeida (1939-1967)
Este é um poema de revolta.
Nos anos que antecederam a independência, sobretudo durante a luta armada, foi a revolta o tema quase constante de grande parte dos poetas angolanos. Compreensivelmente.
Deolinda Rodrigues de Almeida foi fundadora e primeira presidente da OMA (Organização da Mulher Angolana), em 1962. Morreu em combate.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Quando a morte vier

quando a morte vier, meu amor,
fechamos os olhos para a olhar por dentro
e deixemos aos nossos lábios o murmúrio
da palavra branda jamais pronunciada
e às nossas mãos a carícia dispersa;
relembramos o dia impossível,
belo por isso e por isso desprezado,
e esqueçamos o que nos não deixaram ver
e o resto que sobrou do nada que possuímos,
deixemos à poesia que surge
o pranto de quem a trocou para comer
e os passos sem rumo pelas ruas hostis;
deixemos à carne o que não alcançámos,
e morramos, então, naturalmente…

Tomaz Kim (1915-1967)

Pseudónimo de Joaquim Fernandes Tomás Ribeiro-Grillo. Natural do Lobito, viveu em Londres e licenciou-se em Filologia germânica na faculdade de Letras de Lisboa. É autor de vários estudos e ensaios de literatura, e tradutor de poetas e ficcionistas anglo-saxónicos, entre os quais T. S. Eliot.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Campos verdes

Os campos verdes, longas serras, ternos lagos
Estendem-se harmoniosos na terra tranquila
Onde os olhos adormecem temores vagos
Acesos mornamente sob a dura argila,

Seca, como outrora mingou a doce esperança
Quente, imperecível como sempre o amor
Sacrificada, sangrada na lembrança
Do esforço bestial do látego opressor.

Em campos verdes, longas serras, ternos lagos
Refulgem ígneas chamas, rubros rugem mares
Cintilando de ódio, com sorrisos em mil afagos

São as vozes em coro na impaciência
Buscando paz, a vida em cansaços seculares
Nos lábios soprando uma palavra: independência!



Agostinho Neto

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Chuva

Outrora
Quando a chuva vinha
Era a alegria que chegava
Para as árvores
O capim
E para a gente.

Era a hora do banho sob a chuva
Meninos sem chuveiro
A água regateada na cacimba
Muitas horas de pé esperando a vez.


Era a alegria de todos, essa chuva:
Porque então fiz o primeiro poema triste?


Hoje ela veio
Veio sem o encanto de outras eras
E ergueu na minha frente o tempo ido.
Porque estou triste?
Porque estou só?


A canção é sempre a mesma
Mesmos os fantasmas, meu amor:
Inútil o teu sol ante os meus olhos
Inútil teu calor nas minhas mãos.
Essa chuva é minha amante
Velho fantasma meu:
Inútil, meu amor, tua presença.

Mário António (1934-1989)

Nasceu no norte de Angola, em Maquela do Zombo, e era licenciado em Ciências Sociais e Políticas e doutorado em Literaturas Africanas de expressão portuguesa.
Destacou-se como investigador da História, Literatura e Cultura angolanas. Nacionalista, militou no MPLA e fundou, juntamente com, entre outros, os poetas António Jacinto e Viriato da Cruz o Partido Comunista Angolano, em 1955.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Na ilha das cabras

o mar foi embora
e nos despojos
que a praia recolheu

ficaram desamparadas as conchas
o sol
a hora
e eu

ah! Não ser mais do que despojos
restos sem sangue fora das origens
julgar o momento apenas luz
e os meus limites
esta dormência que me cerra os olhos…

mas há resposta sob esta sombra
que meu corpo esconde de encontro à terra

há uma resposta nos círculos de fome
com que o mungolongo coroa a areia branca

o mar foi embora
mas deixou-me com as conchas mortas
o sol
e a hora
um nome

Arnaldo Santos (1935)

Nasceu num dos bairros mais antigos da cidade de Luanda, a Ingombota. Depois de completar o liceu trabalhou como funcionário público. No início da luta armada viveu no Uíge, cenário aliás de alguma da sua poesia. Foi colaborador da Revista “Cultura”, um dos mais importantes movimentos culturais nacionalistas angolanos.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Vogando

vogando
vogando vem
um dongo
sem ninguém
cirandando
cirandando vem
uma menina
sem o seu bem
marchando
marchando vem
um soldado sem vintém
voando
voando vem
um pássaro que nem asas tem
vogando
vogando vem
um dongo
sem ninguém

Arlindo Barbeitos (1940)
Fugiu do país em 1961 por motivos políticos. Viveu em França e na Alemanha, entre outros países europeus. Estudou Antropologia e Sociologia na Universidade de Frankfurt, tendo-se doutorado em Etnologia.
Publicou vários livros, entre os quais “Na leveza do olhar” (1998), ou “Nzoji” (sonho) de 1979, de onde foi retirado o poema de hoje.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O tractor

somos um povo que olha a terra
a menos de um metro do chão,
rins quebrados
peito fremente,

somos um povo semeador
de pés magoados
entre raízes e suor.

o nosso pai deixou-nos uma enxada
e um pedaço de terra favorecida

para a cultivar
o meu irmão pôs-se a sonhar
com um tractor

do estrangeiro, prontamente
lhe enviaram um estranho tractor.
tantas rodas
tão grande motor!
o tractor do meu irmão
tem na frente um canhão


Manuel dos Santos Lima (1935)

Licenciado em direito e doutorado em letras pela Universidade de Lausanne, Santos Lima viveu no Canadá, no Brasil e em França. Vive actualmente em Portugal.
Desertou do exército português e fundou o Exército Popular de Libertação (braço armado do MPLA), do qual foi o primeiro comandante-em-chefe. Tornou-se, após o 25 de Abril, opositor do regime angolano.
Também é romancista, contando-se entre as suas obras “As sementes da Liberdade” (1965), “As lágrimas e o vento” (1975) e “Os anões e os mendigos” (1984). Os seus primeiros livros retratam a guerra colonial e a luta pela libertação. Nasceu no Bié.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Protopoema Angola 63

na hora das verdades conseguidas
na certeza que a esperança trás
três letras de bronze firmes erguidas
gritando límpidas fulgentes PAZ

na hora das angústias consentidas
na certeza humana de sempre opor
às fábulas por demais repetidas
a pequena bela palavra AMOR

na hora das noites adormecidas
na certeza plena de humanidade
as universais forças reunidas
construindo total FELICIDADE



António Jacinto (1924-1991)


Foi um dos fundadores do Movimento dos Novos Intelectuais Angolanos, com Viriato da Cruz, António Cardoso, Mário de Andrade, entre outros. Esse movimento abriu novos rumos à literatura angolana. Nacionalista, cumpriu 11 anos de prisão no Tarrafal. Após a independência exerceu as funções de ministro da Cultura entre 1975 e 1978.
Poeta e contista, nascido no Golungo Alto, foi co-fundador da União de Escritores angolanos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Presença africana

e apesar de tudo
ainda sou a mesma!
livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou
mãe-África!

mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra,
puro e incerto!

a dos coqueiros
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul…

a do desdém
nascendo dos abraços
das palmeiras…

a do sol bom,
mordendo
o chão das ingombotas…

a das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas
longas e floridas…
sim, ainda sou a mesma

a do amor transbordando

pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11… rua 11)

pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos…

sem dores nem alegrias,
de tronco nu e corpo musculoso
a raça escreve a prumo
a força destes dias…
e eu revelo ainda
e sempre, nela
Aquela
longa história inconsequente…

terra!
minha, eternamente!
terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios, baloiçando
mansamente… mansamente

terra!
ainda sou a mesma!

ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!...

Alda Lara (1930-1962)


Estudou em Coimbra onde se licenciou em medicina. Esteve ligada a algumas actividades da Casa dos Estudantes do Império, tendo colaborado na revista “Mensagem”.
Excelente declamadora, Alda Ferreira Pires de Lara Albuquerque chamou a atenção dos poetas africanos. Nascida em Cambambe, foi casada com o escritor Orlando Albuquerque, que editou postumamente toda a sua obra, reunida num livro de poesia e outro de contos.