sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sedução

em manhã fria, nevada
dessas manhãs de cacimbo
em que uma alma penada
não se lembra de ir ao limbo,
eu vi formosa, correcta,
não sendo europeia dama
a mais sedutora preta
das regiões da Quissama

mal quinze anos contava
e no seu todo brilhava
o ar mais doce e gentil!
tinha das mulheres lindas
as graças belas, infindas
de encantos, encantos mil.

nos lábios, posto que escuros,
viam-se-lhes risos puros
em borbotões assomar.
tinha nos olhos divinos
revérberos cristalinos
e fulgores… de matar!

radiava-lhe na fonte
- como em límpido horizonte
radia mimosa luz,
da virgem casta a candura
que sói dar à formusura
a graça que brota à flux!...
embora azeitados panos
lhe cobrissem os lácteos pomos
denunciavam os arcamos
de dois torneados gomos


Cordeiro da Matta (1857-1894)

Joaquim Dias Cordeiro da Matta nasceu no Icolo e Bengo. Nunca frequentou escola alguma de nível secundário, mas tornou-se um autodidacta em vários ramos da cultura. Entre as suas obras de carácter literário destacam-se “Delírios” (poesia) e “Filosofia popular em provérbios angolenses”. Estudou a cultura do povo kimbundu tendo publicado um dicionário kimbundu-português.