domingo, 25 de janeiro de 2009

Kinaxixi

gostava de estar sentado
num banco do Kinaxixi
às seis horas de uma tarde muito quente
e ficar...
alguém viria
talvez sentar-se
sentar-se ao meu lado
e veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo ausência no kimbundo mestiço
das conversas
veria os passos fatigados
dos servos de pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além uma embriaguez em cada álcool
nem felicidade nem ódio!
depois do sol posto
acenderiam as luzes e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simplesmente afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar
Agostinho Neto (1922-1977)

António Agostinho Neto não precisa de apresentações. Médico e profundo humanista foi o primeiro presidente da República de Angola. Preso por várias vezes pela polícia política do regime fascista, foi eleito Prisioneiro Político do ano em 1957 pela Amnistia internacional. Esta prisão desencadeou um movimento de solidariedade sendo enviadas petições assinadas por Sartre, Simone de Beauvoir, Nicolás Guillen, Diogo Rivera, André Mauriac ou Aragon.
Em 1960 foi novamente preso, desta vez pelo próprio director da PIDE no seu consultório enquanto consultava um doente. Uma manifestação pacífica, na sua aldeia, Kaxicane, Icolo e Bengo, em protesto pela sua prisão foi recebida violentamente pela polícia: 30 mortos e 200 feridos foi o resultado do que ficou conhecido por Massacre de Icolo e Bengo.
Agostinho Neto casou com a também poetisa natural de Trás-os-Montes Maria Eugénia, em 1958, no mesmo dia em que concluiu a licenciatura.