sábado, 31 de janeiro de 2009

Aquela negra

aquela negra, de enxada em punho,
lutando pela minha fome;
aquela preta que jorra suores na minha sede;
e que vai de lenha à cabeça
porque o frio me consome;
aquela negra pobre, sem nada,
que vende os panos para me vestir,
que chora nas ruas o meu nome,
aquela negra é minha mãe


Jorge Macedo (1941-2009)

Natural de Malanje e formado em etnomusicologia, Jorge Macedo foi director nacional de Arte e da Escola de Música. Poeta, com vários livros publicados, e ensaísta, também pratica a ficção, nomeadamente a literatura infantil.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Luz

não atirem para o meu peito
palavras sórdidas palavras velhas
para o meu peito não atirem
palavras velhas palavras sórdidas

inventarei as minhas
no piso da cidade
no chão do campo
na escuridão da solidão

para o meu caminho não atirem
palavras velhas palavras sórdidas
iei à busca da palavra
onde os homens desconhecem o grito
irei à busca da palavra
onde os homens cultivam no peito
as palavras que hão-de ser ditas:
ditas à janela da cidade
irei à busca da palavra
e direi o que se diz entre as paredes
para que da palavra nasça a luz

não me atirem palavras sórdidas
palavras velhas
inventarei as minhas
e serei um pedaço de palavra.

João Maimona (1955)

Natural do Uíge (Maquela do Zombo), João Maimona é licenciado em medicina veterinária e actualmente investigador no Instituto de Investigação Veterinária, no Huambo. O seu primeiro livro ”Trajectória Obliterada” foi premiado, em 1984 num concurso de poesia. Também se dedica à critica literária.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Árvore de frutos

cheiras a caju da minha infância
e tens cor de barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a soltar-te nos seios,

misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.

no teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.

amor és sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!


António Cardoso (1933-2006)


Natural de Luanda, participou na revista “Mensagem”. Preso pela PIDE em 1959 e em 1961, depois de 3 anos detido em Luanda, passou 10 no Tarrafal, de onde só foi libertado a 1 de Maio de 1974. Depois da independência exerceu funções na Rádio Nacional e na Secretaria de Estado da Cultura. “Poemas de circunstância”, talvez o seu livro mais conhecido, está editado em Portugal.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Makèsú

O pregão da avó Ximinha
É mesmo como os seus panos
Já não tem a cor berrante
Que tinha nos outros anos.

Avó Xima está velhinha
Mas de manhã, manhãzinha,
Pede licença ao reumático
E num passo nada prático
Rasga estradinhas na areia...

Lá vai para um cajueiro
Que se levanta altaneiro
No cruzeiro dos caminhos
Das gentes que vão p´ra Baixa.

Nem criados, nem pedreiros
Nem alegres lavadeiras
Dessa nova geração
Das "venidas de alcatrão"
Ouvem o fraco pregão
Da velhinha quitandeira.

- "Kuakié!... Makèzú, Makèzú..."
- "Antão, véia, hoje nada?"
- "Nada, mano Filisberto...
Hoje os tempo tá mudado..."

- "Mas tá passá gente perto...
Como é aqui tá fazendo isso?"

- "Não sabe?! Todo esse povo
Pegô num costume novo
Qui diz qué civrização:
Come só pão com chouriço
Ou toma café com pão...

E diz ainda pru cima
(Hum... mbundu Kene muxima...)
Qui o nosso bom makèzú
É pra véios como tu."

- "Eles não sabe o que diz...
Pru qué qui vivi filiz
E tem cem ano eu e tu?"

- "É pruquê nossas raiz
Tem força do makèzú!..."


Viriato da Cruz (1928-1973)



Membro fundador e primeiro secretário-geral do MPLA. Foi um dos mais destacados intelectuais angolanos nas décadas de 50 e 60, tendo sido o principal mentor do “Movimento dos Novos intelectuais de Angola” e da revista “Mensagem”, órgão de associação dos naturais de Angola que surgiu em 1951. Nasceu em Porto Amboim e tem colaboração dispersa por vários jornais de Angola e Moçambique. Publicou um livro de poesia, “Poemas”, em 1961, estando a sua obra poética reunida na antologia “No reino de Caliban”, da autoria do escritor Manuel Ferreira.
“Makèsú” e “Namoro”, este musicado por Fausto e interpretado por ele, por Sérgio Godinho e por Ruy Mingas, são os seus poemas mais conhecidos.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Kinaxixi

gostava de estar sentado
num banco do Kinaxixi
às seis horas de uma tarde muito quente
e ficar...
alguém viria
talvez sentar-se
sentar-se ao meu lado
e veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo ausência no kimbundo mestiço
das conversas
veria os passos fatigados
dos servos de pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além uma embriaguez em cada álcool
nem felicidade nem ódio!
depois do sol posto
acenderiam as luzes e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simplesmente afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar
Agostinho Neto (1922-1977)

António Agostinho Neto não precisa de apresentações. Médico e profundo humanista foi o primeiro presidente da República de Angola. Preso por várias vezes pela polícia política do regime fascista, foi eleito Prisioneiro Político do ano em 1957 pela Amnistia internacional. Esta prisão desencadeou um movimento de solidariedade sendo enviadas petições assinadas por Sartre, Simone de Beauvoir, Nicolás Guillen, Diogo Rivera, André Mauriac ou Aragon.
Em 1960 foi novamente preso, desta vez pelo próprio director da PIDE no seu consultório enquanto consultava um doente. Uma manifestação pacífica, na sua aldeia, Kaxicane, Icolo e Bengo, em protesto pela sua prisão foi recebida violentamente pela polícia: 30 mortos e 200 feridos foi o resultado do que ficou conhecido por Massacre de Icolo e Bengo.
Agostinho Neto casou com a também poetisa natural de Trás-os-Montes Maria Eugénia, em 1958, no mesmo dia em que concluiu a licenciatura.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sedução

em manhã fria, nevada
dessas manhãs de cacimbo
em que uma alma penada
não se lembra de ir ao limbo,
eu vi formosa, correcta,
não sendo europeia dama
a mais sedutora preta
das regiões da Quissama

mal quinze anos contava
e no seu todo brilhava
o ar mais doce e gentil!
tinha das mulheres lindas
as graças belas, infindas
de encantos, encantos mil.

nos lábios, posto que escuros,
viam-se-lhes risos puros
em borbotões assomar.
tinha nos olhos divinos
revérberos cristalinos
e fulgores… de matar!

radiava-lhe na fonte
- como em límpido horizonte
radia mimosa luz,
da virgem casta a candura
que sói dar à formusura
a graça que brota à flux!...
embora azeitados panos
lhe cobrissem os lácteos pomos
denunciavam os arcamos
de dois torneados gomos


Cordeiro da Matta (1857-1894)

Joaquim Dias Cordeiro da Matta nasceu no Icolo e Bengo. Nunca frequentou escola alguma de nível secundário, mas tornou-se um autodidacta em vários ramos da cultura. Entre as suas obras de carácter literário destacam-se “Delírios” (poesia) e “Filosofia popular em provérbios angolenses”. Estudou a cultura do povo kimbundu tendo publicado um dicionário kimbundu-português.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Palmeira porque tens medo?

palmeira porque tens medo?
porque não podes dizer-me
o que a noite te contou?

palmeira esguia, agitada,
de cabeleira rasgada
que o vento despenteou.

é assim tão forte o segredo
Que a noite te foi dizer?

palmeira porque tens medo?
tens receio que eu o diga?

podes contar-me , que a noite
foi sempre minha amiga
desde que vivo a sonhar…

Branca Mourinho (1905-1968)

Maria Palmira de Moura Henriques Lobo das Neves nasceu em Vila Nova de Poiares, Coimbra. Viveu na Huíla onde iniciou os estudos. Fixou-se em Benguela, vindo a falecer em 1968, em Portugal. Cultivou a poesia sob o pseudónimo de Branca Mourinho, editando vários livros entre os quais se destaca “Kalunga”.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Cana'ngana

à sombra da palmeira sussurante
eu gozo as delícias de capua,
ouvindo com prazer cantar a ndua
na múrmura floresta verdejante


a brisa perpassando, de inconstante,
oscula com meiguice a face tua;
desprende-te essa trança e continua
beijando-te esse colo provocante...


quem dera, minha amada, que esta vida
me fosse dado ver sempre envolvida
na luz do teu olhar, bela africana


mas quando tento louco dar-te um beijo,
sem nunca saciares meu desejo
tu foges, suspirando: - cana'ngana
Eduardo Neves (séc. XIX)

Conhece-se de Eduardo Neves a colaboração em jornais nos finais do século XIX, tais como o "Arauto Africano" (1889), ou "O Polícia Africano" de 1890.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A Angola

qual perla arrojada por vagas altivas
de ventos batida em horrível tufão
assim despontaste na terra em que vives
nos planos ardentes do ardente torrão


qual flor espontânea sorrindo fragante
que as mãos da procela por terras lançou
assim no rigor das areias ferventes
aos olhos do mundo o teu brilho murchou


e murcha e pendida por sóis abrasada
num horto privado das regras d' amor
tu vives mirrada aguardando saudosa
um vaso doirado d'encontro e primor


e embora o teu fado te cerque maldoso
d'espinhos ervados d'agudo pungir
por terras não ficas de rojo prostada
porque hás-de no mundo mil vezes florir
Maia Ferreira (séc. XIX), in "Espontaneidades da minha alma"
José da Silva Maia Ferreira nasceu em Benguela, em ano não determinado, tendo trabalhado em Benguela e em Luanda como funcionário. Viveu algum tempo no Brasil devido a problemas de saúde. Editou, em 1849, na imprensa do governo o livro "Espontaneidades da minha alma".