domingo, 4 de Maio de 2014

Parque Nacional da Cameia, Moxico

sexta-feira, 2 de Maio de 2014

Terceiro Mundo

flancos rostos desnudados de seu dia
nossa casa de continente
                                                         retorno geográfico restam
smith(s) vorter(s)
no gemido de liberdade

mas o arco de estrelas
                                                  sobre os punhos-ghettos
está na véspera                               desalgemado
grito total 
das áfricas


Jorge Macedo

quarta-feira, 30 de Abril de 2014

Em breve

em breve
um estranho baterá à nossa porta.

não lhe recusemos a entrada...
ele nos trará o pão e a paz
e nos dará de beber água clara.

as suas mãos
serão frescas, leves e brandas...

em breve
um estranho baterá à nossa porta
e nós lhe morderemos a mão
que nos acarinhará!

não lhe recusemos a entrada...


Tomaz Kim

segunda-feira, 28 de Abril de 2014

O aprendiz de kimbanda

reza após reza, i. é.
verso após verso
eu
insisto

e trabalho de noite
que é quando
a concentração logra
um misticismo mais profundo

e utilizo de tudo
para fabricar as palavras:

homens pedras ervas animais

depois saio, afivelando
a minha horrenda máscara
de makixe
e gritando os meus
espantos medonhos:


medo sangue raiva morte


João Melo

domingo, 27 de Abril de 2014

sexta-feira, 25 de Abril de 2014

Poemas para um tocador de quissanje

III

... e vinham
das distâncias 
eram das terras da lunda
 e os regressados das ilhas
e as crianças que não iam
muito p'ra além dos luandos
e das portas
e eram velhas
cachimbando
junto às fogueiras
sem lenha

e vinham todos...

alongava-se na noite
canto de escravos passados
vozes de contratados
o teu quissanje dolente...

IV

... a velhas já não choravam
filhos perdidos no mar
e as crianças não choravam
a fome dos ventres grávidos 
e as mulheres já não choravam
homens levados de noite
em cargas silenciosas...
e as lavras já não choravam
e as estradas
 e os mares
suor dos ombros cansados
já não choravam
já não choravam
já não choravam
calavam.

V

havia conchas de mar
múcuas e pitangueiras
falas de gentes quiocas
vozes de terras ganguelas
gritos de homens cuanhamas
o amor de jovens luenas
e lendas de mucubais
inconformadas presenças
pairando em cada silêncio
em cada vagem que seca
como promessas de pão feitas fome
na realidade diária

havia
havia
havia
humanidades de espera
como promessas de pão.


Costa Andrade

segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Biografia da guerra

naquele tempo
o céu vestia ainda os tons do arrebol

a paz era apenas
um cântico no bico das andorinhas
e na limpidez dos dias, a guerra
não tinha vez

mas
os vampiros chegaram troando na noite
com sua fome gritada de sangue

então a lua nasceu bem vermelha
marcando o compasso de todos os naufrágios

e impiedosa a violência cresceu
atiçando o braço dos homens

... ASSIM ACONTECEU A GUERRA!


Jofre Rocha

domingo, 20 de Abril de 2014

sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Marimba

à memória do cego da Baixa

Dedicados a Óscar Ribas


marimba tocada
por dedos tão dextros
marimba que vibra
que chora e não fala
que lembra o lamento
da hiena na selva
e o grito selvagem
do negro no quimbo.
marimba saudosa
nos dedos do cego
pedindo uma esmola,
de roupa estragada
já velho e sem dentes,
marimba do canto
da paz e da guerra
que lembra o passado
dos olhos a verem,
da mão que não treme
da fala serena...
marimba que recorda o passado
e vive o presente
deixa a saudade no tempo futuro!
e os dedos tão dextros
tão cheios de calos
nas mãos que a correm
marimba não fala
o homem não vê!
mas marimba recorda
os tempos passados...
os tempos passados...
marimba recorda
e o pobre ceguinho
tocando a marimba
chora com ela
e recorda também
o tempo passado...
chorando, também
eu tenho saudades
do pobre ceguinho
tocando a marimba
os olhos sem vida
a voz sem expressão...
recordo... recordo... e choro com ele
nas horas amargas
marimba não fala
mas faz recordar.

Ruy Burity da Silva

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

Marasmo

na barca desta dor
ando embarcada...

senhora do navio,
da jornada,
e de quantos passaportes desejei,
só recebi no cais,
por lei da altura,
a bênção do desprezo e da aventura!

nossa senhora da loucura
é quem me guia...

e em cada dia passado,
esperei sentada na proa,
um sinal da sua graça...

pelas margens me acenaram
os portos da redenção...

pelos cabelos da noite,
as sereias entoaram
gemendo, a sua canção...

meus ouvidos, surdos foram...
a todos disse que não...
que nesta rota
de um dia,
é só nossa senhora da loucura
que me guia...

mas vai o tempo passando...
nem sinal da sua mão...

baloiça um vento perdido,
o meu navio esquecido,
nem sombra do seu aceno!...

ó senhora da loucura!
é tão triste o vento ameno...
ó senhora da loucura
rogai pelo meu navio
se cansado se atormenta
nesta rota sem desvio...

mandai-nos um temporal,
um rochedo,
uma desgraça,
qualquer coisa que desfaça
esta serena agonia...

ó senhora da loucura,
rogai por mim,
que me afundo
neste mar de calmaria...
não foi por ele que parti,
sem saber de sul nem norte,
quando apenas recebi
no cais,
e por lei da altura,
a bênção salgada e forte,
do desprezo e da aventura!...


Alda Lara

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

O tronco da incerteza

caminhos perdidos.
festas espirituais
decepcionantes.

não é a barrela que falta.
nem sequer a lavagem.
nem sequer as varridelas.

promessas feitas - 
isto não é suficiente
para olhar
os caminhos perdidos.


João Maimona

domingo, 13 de Abril de 2014

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

Eco

os gritos da mãe
correndo com o filho morto para a morgue
... e o espaço vazio das ruas

os gemidos da mãe
correndo para a morgue
... na agonia da tarde

o vulto carregado da mãe
... e a certeza fria da noite


Arnaldo Santos

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

Negação

nesta morte a que me dei
não há nada de permeio:
nem angústia nem saudade.
só uma tristeza vazia,
funda, bravia e sombria
que nem sequer é verdade…


o que em mim há de humano
já não respira, nem sente.
semeada ao abandono

não sou raiz, nem flor e nem semente…


Amélia Veiga

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

Desfile de sombras

por milhentos caminhos
do meu desejo
passam sombras a tactear o nada;

vão
esforçadas na incerteza 
por abraçar
os pontos de interrogação da existência.

atravessam-me
arrastando
à laia de glória
grilhetas e cadeias
com estúpidos sorrisos.

são os homens
que chegaram 
e se não acharam

e os angustiados
que se ultrapassaram na vida
e se perderam na confusão;

e os que estão vindo
titubeantes
para este mundo
desconhecido dos que já chegaram

passam  por mim
e eu sigo-os através de mim.

lá vamos nós!

as sombras sem querer
com os sentidos anestesiados
como a praia que quer ser onda
alar-se em vida
na imensidade
sentir no peito
a violência das quilhas dos navios
recolher a angústia
e os últimos suspiros dos náufragos
e ficou apenas praia
a sorver ondas
e a contemplar estática
o movimento de além.

as sombras
que se esvaíram no tempo
deixaram-me
esta ânsia
e o eco múltiplo
do tilintar das suas cadeias;
às que hão-de vir
mostrarei essas cadeias quebradas
e com elas repartirei
o meu desejo de ser onda
neste desfile dos tristes
que se perdem.

seguem
rojando-se em esperanças
interrogando à morte
o que é a vida

elas vão longe
ainda vêm longe
e eu sigo-me através de mim.


Agostinho Neto