segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Contratados

vinham ao longe
aglutinados
baforada de sussurros no horizonte
como ressonâncias fundas de uma força.

força que é penhor de gemidos
de levas passadas
que arrastaram pobres.

vinham ao longe
em conversas vagas
na tarde baixa ressumando dobres.

Arnaldo Santos

domingo, 7 de Fevereiro de 2010


sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Poema da manhã cinzenta na beira do mar

o azul mar único do mar.
o cinzento céu único do céu.
eu agora eu único
carícia vaga das águas!

mar moça! beça-ngana!
teus dedos, infinitamente múltiplos,
ou teus cabelos líquidos de ondina,
carícia de tua presença
no meu corpo!

esta manhã sem sol: vida!
esta espera de chuva: vida!
chuva sobre o mar: vida!

ó pescador solitário olhando o céu e o mar
dongo na praia indeciso
receio das redes escondidas no capim
pescador:
tua mulher terá peixe
para vender no mercado?
carícia longa das águas!
espera triste da chuva!
espera-arrepio na promessa cinzenta do céu!
quem lhe falou na beleza desta tarde? tão só
e a inquietação e longe o amor e o sonho… tão sós
tudo descansa em nossas mãos caídas!

Mário António

quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

Se o fogo das queimadas

se o fogo das queimadas
fosse a vida
a vida não valia o sacrifício
há muito que o sonho se perdera…

as queimadas devoram as anharas
e o fogo apaga-se com a morte.

no capim, que não espera por novembro
e pulsa verde
gritante à beira do caminho
é que está a vida.

Costa Andrade

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Luanda

Gosto dela à noite
a horas esquecidas

gosto dela quando mais
ninguém anda cá fora
e a sinto toda minha…

o seu corpo grande e negro
é quente e generoso,
e os ruídos no escuro
cães ladrando, carros longe
galos, meninos chorando…
fazem uma sinfonia
morna, calma e tropical
como se fosso o respirar
de alguém que descansa.

é por isso

que eu gosto de Luanda
a horas esquecidas…

olho o seu corpo, grande,
o seu corpo negro e generoso
e sinto uma ternura especial

como se fosse o corpo conhecido
duma amante saciada e adormecida
que se olha com amor e com cansaço
e depois se recorda com saudade.


Neves e Sousa

sábado, 30 de Janeiro de 2010

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sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Namoro

mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de novembro brincando de artistas nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia – era sumaúma...
sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo...
tão rijo e tão doce – como o maboque...
seus seios, laranjas – laranjas do loje
seus dentes... - marfim...
mandei-lhe essa carta
e ela disse que não-

mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou:
“por ti sofre o meu coração”
num canto – sim, noutro canto – não
e ela o canto do não dobrou-

mandei-lhe um recado pela zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela senhora do cabo, pela santa ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
e ela disse que não-

levei à avó chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
e o feitiço falhou.

esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da missão,
ficamos num banco do largo da estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
procuraram por mim
“ – não viu... (ai não viu...?) não viu benjamim?”
e perdido me deram no morro da samba.

para me distrair
levaram-me no baile do sô januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do bairro operário

tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
e a malta gritou: “aí benjamim!”
olhei-a nos olhos – sorriu para mim
pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim.

Viriato da Cruz

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Mulher negra

mulher sofredora
sem lágrimas de pranto
cadela de filhos roubados
afogados e açaimados
mulher do branco
prostituta dos matos e das ruas fáceis
mulher dos seios amplos cujas tetas
de loba amamentam filhos
-rómulo e remo –
dos espólios do seu ventre
mulher besta-de-carga da lavra
e do pão da boca dos filhos
mãe de filhos abandonados
amparados nos seus braços
estranhos e banidos
no instinto de repulsa
das duas cores
entre as duas cores
do arco-íris da terra
entre os seus braços
o único refúgio
o certo amparo
o seguro refúgio
dum coração sereno

mãe
mulher das longas vigílias da febre
do sertão
travesseiro e amparo
num coração desamparado
dando-se sem esperança
mulher de corpo gasto
sem lábios já para sentir
o travo da traição
mulher que deixa o cadáver insepulto

às hienas e à noite
de animal abandonado
mãe dos filhos abandonados
mãe dos filhos que matam por vingança
mar dos filhos que procuram redimir
a carne dos pecados do mundo
mãe do alento da última esperança
mãe cujos filhos saberão
saber dos privilégios
das tuas virtudes
e dar a mão a todos os homens
na face da terra

mãe
nada pelo que passaste
e sofreste
mãe
será em vão

Alexandre Dáskalos

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Círculo

todo o caminho é belo se cumprido.
ficar no meio é que é perder o sonho.
é deixá-lo apodrecer, no resumido
círculo, da angústia e do abandono.

é ir de mãos abertas, mas vazias,
de coração completo, mas chagado.
é ter o sol a arder dentro de nós,
cercado,
por grades infindas…

culpa de quem, se fiz o que podia,
na hora dos descantes
e das lidas?

ah! ninguém diga que foi minha!
Ah! ninguém diga…

minha a culpa,
de ter dentro do peito,
tantas vidas!...

Alda Lara

domingo, 24 de Janeiro de 2010




"Sona", desenhos na areia, dos Chokwe. Mais informação aqui.

sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Eu natureza

dou tudo
sem desejar receber nada

nem porisso fico vazio
porque sempre me tenho a mim
em cada nova caminhada

sou como um rio
constantemente a encher oceanos
e a renovar-me em cada fim
mesmo sobre pedras e enganos.

Tomaz Jorge

quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

No álbum do II.mo Sr. J.J. Vieira de Carvalho

qual perla arrojada por vagas altivas
de ventos batida em horrível tufão
assim despontaste na terra em que vives
nos plainos ardentes do ardente torrão.

qual flor expontânea sorrindo fragante -
que as mãos da procella por terra lançou –
assim no rigor das areias ferventes –
aos olhos do mundo o teu brilho murchou.

e murcha e pendida por soes abrasada
n’um horto privado das régas d’amor –
tu vives mirrada aguardando saudosa
um vaso doirado d’encanto e primor.

e embora o teu fado te cerque maldoso
d’espinhos ervados d’agudo pungir
por terras não ficas de rojo prostrada
porque hás de no mundo mil vezes florir!

Maia Ferreira

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Sobressalto

amor,
as luas mortas
caíram no segredo deste amor;
fujamos pela praia
embarquemos no vento!

as luas mortas
são mundos apodrecidos…

o nosso amor balbucia
cantigas da era nova
e nas mãos
temos o húmus adubado e quente
para o jardim redolente
para a seara de pão
para a seara de amor…

nada nos serve fugir
pior que fantasmas
são os miasmas
dos mundos apodrecidos…

amor,
nos vales ermos, esquecidos
de toda a flor,
de todo o riso,
do amor ao amor
das madrugadas e dos pássaros.

(fechadas todas as portas
ao susto e à escuridão,
com um beijo verde de esperança
cantando no coração)

amor,
enterremos as luas mortas…


Lília da Fonseca

domingo, 17 de Janeiro de 2010



"A ténue luz do ouro", pintura de António Ole

sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

Na morte de Yaschin

morreu yachin,
o aranha negra,
e suas defesas tentaculares.
aquele mágico unifirme escuro,
jamais o veremos.
o guardião-mor das balizas do mundo
o que irá proteger agora, lá no céu
(o lugar
de tofos os artistas),
com o seu peito imenso
e suas garras de aço
(como um urso pachorrento)?

João Melo